Belal Muhammad
Lutas UFC

3 motivos que fazem o UFC não querer Belal Muhammad como campeão

No UFC 315, Belal Muhammad coloca em jogo o cinturão dos meio-médios pela primeira vez, diante do australiano Jack Della Maddalena. Apesar do mérito esportivo incontestável de Belal, uma das maiores sequências invictas da divisão, seu reinado é visto com frieza, senão com desconforto, tanto pelo UFC quanto por boa parte do público. Não se trata apenas de gosto pessoal. A figura de Belal representa uma combinação rara de fatores que o tornam, na prática, o campeão mais indesejado do plantel atual da organização.

Essa rejeição silenciosa pode ser explicada por três motivos centrais: seu estilo de luta pragmático e pouco empolgante, seu fraco apelo comercial, e — talvez o mais delicado — sua posição política abertamente favorável à Palestina, que contrasta com os interesses comerciais e geopolíticos do UFC e de seus parceiros.

1. Um campeão sem espetáculo

Belal Muhammad é um lutador tecnicamente sólido, com wrestling eficiente, preparo físico de elite e controle tático apurado. Mas esse conjunto de qualidades, dentro do octógono, se traduz em lutas pouco empolgantes para o fã médio. Seu estilo é funcional, mas visualmente entediante. São vitórias por decisão, sem grandes momentos de trocação, sem nocautes virais, sem finalizações espetaculares.

Em um esporte que vive da atenção digital e da viralização de highlights, Belal é o oposto de um produto atraente. Ele domina lutas, mas não empolga. Neutraliza adversários, mas raramente entrega ação contínua. Não é coincidência que mesmo com uma sequência invicta que inclui nomes como Vicente Luque, Stephen Thompson, Gilbert Burns e Demian Maia, ele tenha demorado tanto para receber sua chance pelo cinturão. Lutadores com menos vitórias, mas estilos mais chamativos foram promovidos com maior velocidade.

Para o UFC, que construiu seu império com base no espetáculo, Belal Muhammad é uma aposta difícil de vender.

2. Belal tem fraco poder de mercado

Além do estilo pouco atrativo, Belal sofre com um fator ainda mais direto: a baixa capacidade de atrair público. Mesmo presente nas redes sociais e ativo nos bastidores, ele não construiu uma base significativa de fãs. Seus seguidores são fiéis, mas limitados. Ele não protagoniza grandes campanhas de pay-per-view, raramente é usado em promoções oficiais, e tem pouco apelo fora do núcleo duro dos fãs mais atentos ao esporte.

Na lógica empresarial do UFC, isso pesa muito. Campeões como Sean O’Malley, com apelo entre jovens e fãs casuais, ou Conor McGregor, com presença global, são ativos de marketing. Belal, ao contrário, é um lutador que traz pouco retorno financeiro, mesmo com vitórias. Isso reduz seu valor na visão de Dana White e da cúpula do UFC, que priorizam campeões que convertem vitórias em vendas.

Jack Della Maddalena, seu adversário no UFC 315, é justamente o tipo de atleta que o UFC sonha como campeão: jovem, agressivo, carismático e vindo de um mercado em crescimento como a Austrália. A narrativa da luta está pronta para favorecer uma transição que combine competência esportiva com retorno comercial.

3. Um campeão com posicionamento político claro

O terceiro ponto é o mais complexo e sensível: Belal Muhammad é o único campeão do UFC com posicionamento político aberto em relação ao conflito Israel-Palestina. Ele é palestino-americano, e não esconde sua origem, seu orgulho e sua luta por visibilidade. Inclusive, ele anunciou que vai lutar com a bandeira da Palestina pela primeira vez em sua carreira no UFC, um sinal claro de apoio ao povo palestino.

Esse ativismo contrasta com o perfil político do UFC e seus interesses. A organização tem parcerias com instituições militares dos Estados Unidos, vínculos com investidores ligados a Israel e uma cultura organizacional que historicamente evita temas sensíveis. Ter um campeão que expõe com frequência as violações de direitos humanos cometidas por Israel, em um cenário de apoio tácito dos EUA ao governo israelense, cria um desconforto institucional evidente.

O UFC dificilmente admitirá isso publicamente, mas a resistência em promover Belal em grande escala vai além do estilo ou do marketing: é uma questão geopolítica. Um campeão palestino força a organização, e os veículos que a cobrem, a lidar com uma pauta politicamente explosiva. Algo que, no momento atual, o UFC prefere evitar.

(Foto: Getty Images)