Se os fãs do futebol brasileiro estão acostumados com a troca recorrente de treinadores, parece que os ingleses não estão tão diferentes assim. Na Premier League, a rotatividade dos treinadores chama atenção pela pressão das torcidas, principalmente nos times que estão decepcionando neste início do torneio. Em cinco rodadas praticamente completas, clubes como Manchester United, Fulham e Tottenham já estão com seus treinadores na chamada “corda bamba”, pois estão à beira de uma queda.
Tal iminência pode ser justificada pelos resultados ruins e o cenário pode se agravar em função de uma “involução”, o contrário de um progresso, na pausa para a Data Fifa. Serão três semanas para a execução de treinamentos e caso uma melhora não seja identificada, cantos como “You’re Getting Sacked in the Morning” serão fatos consumados. Saiba quais são os comandantes:
Demissão à vista de Michael Carrick no Manchester United?

Como se já não bastasse a derrota para o rival no clássico de Manchester, a eliminação histórica na Copa da Liga Inglesa para o Brighton piorou a situação do Manchester United e ainda mais a de Michael Carrick. Em seis jogos disputados na temporada, sem contar a partida válida pela 5ª rodada, contra o Fulham, a equipe venceu apenas duas vezes — contra o recém-promovido Ipswich Town (jogo em que precisou buscar a virada) e contra o Sabah, do Azerbaijão, pela Champions League.
A essa sequência negativa dentro de campo, soma-se a reação das arquibancadas de Old Trafford, que vaiaram e entoaram cantos de protesto contra o próprio time após o revés no meio de semana. Fora das quatro linhas, as críticas externas concentram-se nas falhas de planejamento da diretoria — como a ausência de reforços para a lateral-esquerda —, nos altos níveis de endividamento do clube e na pouca experiência de Carrick e de sua comissão técnica como treinadores principais, com exceção do seu auxiliar Steve Holland.
Além disso, o momento no calendário agrava a pressão: a pausa prolongada de três semanas para a Data Fifa é vista como o período ideal para os clubes avaliarem mudanças e darem tempo de trabalho a um novo comandante. Certamente, também não será uma vitória contra o Fulham neste domingo (20), que aliviará a situação do treinador.
Por outro lado, o treinador tenta afastar o clima de crise, classificando como “ridícula” a ideia de que seu cargo esteja em risco e afirmando que uma sequência ruim de dois ou três jogos não é uma “catástrofe”. Internamente, a diretoria do Manchester United tampouco deu indícios de que pretende demiti-lo no momento. Os dirigentes atribuem a má fase ao rendimento individual abaixo do esperado por parte dos jogadores e mantêm a confiança respaldada pelo trabalho da temporada anterior, quando Carrick conduziu a equipe à classificação para a Champions.
A vida não está fácil para Roberto de Zerbi no Tottenham

O início de temporada de Roberto De Zerbi no comando do Tottenham vem sendo marcado por resultados negativos e forte cobrança. A equipe entrou na Data Fifa sem ter conquistado nenhuma vitória na Premier League, somando apenas dois pontos na tabela de classificação. No último compromisso antes da paralisação, os torcedores vaiaram a equipe após a derrota em casa por 3 a 2 diante do Aston Villa. Visivelmente incomodado, o treinador italiano deixou o gramado direto para o túnel assim que o apito final soou.
Após o revés, De Zerbi não escondeu sua irritação e declarou-se “decepcionado, triste e frustrado” com o desempenho. O comandante criticou abertamente a mentalidade e a condição física dos atletas, ressaltando ainda que a entrada de Mohammed Kudus no segundo tempo desorganizou o equilíbrio tático da equipe. Para o técnico, o time não pode perder a cabeça nem a postura em campo pelo simples fato de estar em desvantagem no placar.
Outro ponto central das reclamações de De Zerbi foi a falta de atenção em jogadas já previstas. O segundo gol do Aston Villa nasceu de um lançamento longo do goleiro Zion Suzuki para a finalização de Jackson. De Zerbi enfatizou que a comissão técnica realizou diversas reuniões alertando que o adversário usaria bolas longas, mas os jogadores se desligaram no lance. O treinador comparou o confronto à derrota anterior sofrida em casa contra o Newcastle, na qual o Tottenham fez um bom primeiro tempo, esteve bem até um determinado momento, mas acabou derrotado.
Diante do clima pesado, De Zerbi revelou que optou por não deixar nenhuma mensagem de despedida aos atletas que se apresentaram às suas seleções nacionais, afirmando que preferiu não falar nada. Embora tenha ponderado que “nem tudo está perdido”, o técnico deixou claro que a cobrança será maior e que o grupo precisará trabalhar muito mais na volta dos jogos, pois o rendimento apresentado até o momento não é suficiente.
Arbeloa claramente não consegue engrenar no Fulham
O início de trabalho de Álvaro Arbeloa no comando do Fulham tem se mostrado bastante desafiador. Nomeado no verão europeu para substituir Marco Silva — técnico que esteve à frente do clube por cinco anos —, o treinador espanhol chegou a Londres após uma breve passagem de apenas 28 jogos no comando do Real Madrid. No entanto, a mudança no comando técnico ainda não deu resultados na Premier League: a equipe ocupa a lanterna do campeonato com apenas um ponto conquistado em quatro partidas, acumulando três derrotas e nenhum triunfo.
As significativas alterações táticas implementadas por Arbeloa deixaram o setor defensivo do Fulham vulnerável, resultando em sete gols sofridos nos quatro jogos da liga, apesar de um desempenho um pouco mais sólido no empate sem gols contra o Liverpool. O próprio treinador admitiu publicamente que a equipe vem concedendo “gols fáceis”, como no duelo contra o West Ham, pela Copa da Liga Inglesa, e apontou falhas de concentração, ressaltando que os atletas tendem a relaxar após balançar as redes.
Além dos reveses dentro de campo, o ambiente nos bastidores também apresenta sinais de instabilidade, com relatos sobre a insatisfação de integrantes do elenco, alimentadas pela atividade de jogadores nas redes sociais. Embora não esteja totalmente claro o nível exato de risco iminente de demissão enfrentado por Arbeloa, a pressão cresce em função do histórico do proprietário do clube, Shahid Khan, conhecido por sua postura rígida ao demitir Claudio Ranieri após apenas 106 dias e desligar Felix Magath no início da temporada em 2014.
Diante desse cenário delicado, o confronto direto contra o Manchester United torna-se decisivo para o futuro do comandante antes da paralisação de três semanas para a Data Fifa.
A Data Fifa como divisor de águas
Com a pausa para a Data Fifa, Manchester United, Tottenham e Fulham terão algumas semanas para corrigir os problemas apresentados neste início de temporada. Para Michael Carrick, Roberto De Zerbi e Álvaro Arbeloa, o período também representa uma oportunidade de reorganizar suas equipes e responder à pressão que já começa a aparecer nas arquibancadas.
A situação dos três, porém, é diferente. Enquanto Carrick ainda conta com o respaldo público da diretoria do Manchester United e tenta recuperar uma equipe que terminou a temporada anterior em alta, De Zerbi precisa encontrar rapidamente uma resposta para um Tottenham que ainda não venceu na Premier League. No Fulham, Arbeloa enfrenta um cenário igualmente delicado após um começo sem vitórias e com uma defesa que vem sofrendo com erros de concentração.
As próximas rodadas, portanto, serão importantes não apenas para os resultados, mas também para definir o rumo dos trabalhos. Na Premier League, a paciência pode ser curta — e, quando os resultados não aparecem, o famoso “You’re Getting Sacked in the Morning” pode deixar de ser apenas um canto de arquibancada para se transformar em realidade.
Créditos da foto de capa: Reprodução/AFP


