Conor McGregor, ex-campeão do UFC, foi condenado por agressão sexual em uma ação civil na Irlanda. O veredito foi anunciado nesta sexta-feira (22) após deliberação do júri em Dublin, diante do lutador e da vítima Nikita Hand. De acordo com o jornal “Irish Mirror”, McGregor foi condenado a pagar cerca de € 250 mil, valor aproximadamente de R$ 1,8 milhão. Como se trata de uma ação civil, o lutador não corria o risco de ser preso. Ele deixou o tribunal sem se pronunciar.
Hand entrou com a ação em 2021, e nela alegava que fez sexo com o lutador e outro homem sem seu consentimento enquanto estava embriagada. O fato ocorreu em dezembro de 2018. Após o anúncio da sentença, ela leu uma declaração por escrito do lado de fora do tribunal:
“Estou emocionada. Estou tocada pelo apoio que recebi de todos. Freya me deu força e coragem nos últimos seis anos, durante esse pesadelo, para continuar lutando por justiça. Quero mostrar a Freya e a todos os outros meninos e meninas que, se algo acontecer com você, você pode se defender – não importa quem seja a pessoa – e a justiça será feita”.
O mesmo júri ainda chegou a conclusão de que James Lawrence, outro homem que estaria com McGregor, não agrediu Hand. Durante o julgamento, o advogado da vítima afirmou que McGregor e Lawrence fizeram um esforço conjunto para que apenas Lawrence assumisse a culpa.
DEPOIMENTO DE NIKITA HAND NO TRIBUNAL
No último dia 5, depuseram no tribunal em Dublin a vítima do lutador e o médico Daniel Kane, que a atendeu na Unidade de Trauma de Agressão Sexual do Rotunda Hospital, em Dublin, no dia 10 de dezembro de 2018. Nikita Hand contou que conhecia McGregor através de seus primos, e que ele já havia respondido seus comentários em publicações nas redes sociais.
Na noite de 8 de dezembro de 2018, Hand e uma amiga teriam ido a uma festa à fantasia numa boate, bebido álcool e usado cocaína. No fim da festa, ela teria contactado McGregor, os dois conversaram por telefone, e ele disse que as buscaria. Entre 9h e 10h da manhã de 9 de dezembro, o lutador apareceu de carro com um segurança.
Segundo o depoimento de Hand, as duas foram levadas para um hotel, onde acreditavam que haveria outra festa. No caminho, McGregor buscou Lawrence e ofereceu a elas cocaína, que ela admite que usou. O grupo seguiu para dois quartos conectados. Até que, em dado momento, um segurança teria fechado as portas entre os quartos, deixando Hand sozinha com McGregor. A partir daí, o lutador teria começado a assediá-la, e a moça afirma que rejeitou seus avanços, dizendo que sabia que ele é casado com a empresária Dee Devlin:
“Ele estava dando em cima de mim. Ele começou a me beijar, a esfregar meu rosto. Eu sabia o que ele estava querendo. Eu disse: “Não, eu não estou confortável, eu sei da Dee, eu conheço a família dela. Eu estava tentando convencê-lo que eu não queria nada. Eu não queria transar e não estava lá para nada disso. Ele simplesmente não estava aceitando um “não” como resposta. Aí, ele me imobilizou na cama” – declarou Nikita Hand.
No segundo dia de depoimento, Nikita Hand acusou o lutador de estrangulá-la três vezes e estuprá-la. No complemento de seu depoimento à Alta Corte, a colorista de cabelo descreveu as atitudes do ex-campeão do UFC na data, admitiu não ter memórias do ato sexual com o outro acusado, James Lawrence, e relatou sua decepção com o Diretor de Acusações Públicas da Irlanda por não ter denunciado o atleta após investigar o caso. Ela contou que mordeu o lutador na tentativa de escapar, que isso o irritou, ele passou às suas costas e a estrangulou três vezes.
“Eu apenas lembro de ele estar atrás de mim e acho que eu estava sentada na cama. Ele colocou o braço ao redor do meu pescoço e me estrangulou três vezes. Eu congelei, não conseguia me mexer e não conseguia respirar. Eu olhei pro batente da cama e estava pensando na minha filha. Eu pensei que eu ia morrer e que nunca veria minha filha novamente” – disse ela à corte.
Em choque, Hand teria dito repetidamente a McGregor “me desculpe, me desculpe”, sentindo que havia feito algo de errado, e que neste momento ele teria dito a ela que “agora você sabe como me senti no octógono e tive que bater três vezes”. A colorista teria prometido ao lutador que não diria nada a ninguém e simplesmente deixou que ele fizesse o que fosse necessário para que ela sobrevivesse. Teria sido neste momento que ele a estuprou, segundo a depoente.
“Ele me estuprou. Ele colocou seu pênis dentro de mim. Na minha vagina” – afirmou Hand.
Hand se emocionou várias vezes durante o depoimento e, em determinado momento, pediu uma pausa para se recompor. Foram exibidas ao júri mensagens trocadas entre ela e uma amiga, nas quais Hand dizia que não estava “nem um pouco OK” e que estava “traumatizada”, que fora estuprada, que tinha “sorte de estar viva, ele me estrangulou muito forte” e que não iria prestar queixa, porque “ele provavelmente vai se safar”. Nas mensagens, ela também diz que, após o terceiro estrangulamento, “desistiu e deixou ele fazer o que quisesse”.
A corte também ouviu que o Diretor de Acusações Públicas decidiu em 2020 não indiciar McGregor, o que teria deixado Hand “desolada” e “decepcionada”. Com ajuda do Centro de Crise de Estupro, ela escreveu uma carta para o diretor pedindo uma revisão, alegando que sentia estar sendo “tratada diferentemente de outras vítimas porque um dos suspeitos é uma pessoa famosa”. O diretor respondeu dizendo que seu advogado considerou que não havia “evidência suficiente disponível” para condenar McGregor além de uma dúvida razoável. Apesar de repetidos protestos da suposta vítima, o diretor reforçou que a revisão do caso determinou que a decisão de não denunciar foi correta.
CONOR MCGREGOR NEGOU ACUSAÇÕES
Em seu depoimento, McGregor negou veementemente que houvesse estuprado a Sra. Hand e que o sexo entre eles foi “completamente consensual”. Ele também afirmou que os hematomas sofridos pela vítima, retratados alguns dias após o encontro entre os dois, “possivelmente vieram de ela ter mergulhado na banheira”:
“Vou te dizer de onde não vieram (esses hematomas): de mim. (O sexo) foi atlético, foi físico e foi prolongado, e foi em múltiplas posições. Eu pus as mãos nos quadris, nádegas, nas pernas, em nenhum momento me aproximei do pescoço dela. Em nenhum momento eu a mordi, ou ela me mordeu. Em nenhum momento eu a arranhei, ou ela me arranhou” – declarou McGregor.
Ao comentar o desenrolar dos fatos, o lutador contou que trocava mensagens com Nikita havia algum tempo e que, durante a madrugada do dia 9 de dezembro de 2018, a colorista lhe enviou uma foto provocante e pediu para que ele a buscasse, junto com sua amiga Danielle. McGregor as encontrou já pela manhã, afirmou que a querelante estava “bombástica e energética” e que os dois começaram a se beijar e se tocar no carro. Ele admitiu também que cheirou cocaína no veículo com as moças, mas que a droga já estava presente e não foi trazida por seu amigo Lawrence.
McGregor assegurou que em nenhum momento a Sra. Hand mencionou estar menstruada e que não viu nenhum absorvente, ou não teria performado sexo com ela. Quando foi interrogado pelo advogado de acusação sobre supostamente ter estrangulado sua cliente e dito, “agora você sabe como me senti no octógono”, o lutador disparou:
“Sua cliente é cheia de mentiras. Tudo isso é uma mentira. Como alguém poderia acreditar nisso? É uma falha, não é da minha natureza. (…) A alegação não é verdadeira e eu nego a alegação”.
McGregor revelou ter ficado assustado quando boatos de que um “astro do esporte” estaria sendo investigado por um suposto estupro, poucos dias após o encontro, e que teria dito que “com certeza não sou eu”. Porém, quando foi interrogado pela An Garda Siochana, a força nacional policial da Irlanda, o lutador respondeu às perguntas apenas com “sem comentários”.
“Eu estava petrificado. Eu disse “sem comentários”, sim. Eu relatei minha série de eventos e foi assim que fui aconselhado (pelos advogados) – respondeu, acrescentando ainda que adoraria ter “gritado do topo da montanha” sua versão dos fatos”.