O jogo deste domingo (8) entre Botafogo e São Paulo, válido pela última rodada do Campeonato Brasileiro, sequer começou, mas já está cercado de um dilema que permeia o futebol brasileiro: a ética profissional diante de uma situação que pode favorecer um rival histórico.
No caso em questão, o favorecido seria o Palmeiras, vice-líder do Brasileirão com 73 pontos, que depende justamente de uma vitória do São Paulo diante do líder Botafogo (76 pontos) e de um triunfo sobre o Fluminense, no Allianz Parque, para continuar sonhando com o título. Para o São Paulo, já garantido na fase de grupos da próxima Libertadores, o resultado do jogo não interfere em nada, visto que o time terminará a competição na sexta posição independente de qualquer resultado.
Porém, há algumas questões que não entram em campo, mas são levadas (e muito) em consideração pelos torcedores e por alguns jogadores e diretores do futebol brasileiro. Se tratando do cenário atual, o torcedor tricolor teria pelo menos quatro grandes motivos para querer que o time “não force” uma vitória no Nilton Santos, às 16h (de Brasília).
Os motivos do São Paulo
O primeiro e mais óbvio deles é justamente a rivalidade local com o Palmeiras, rival de longa data dentro e fora de campo do Tricolor (que, segundo versões de torcedores palmeirenses, tentou tomar para si o antigo estádio Parque Antártica em 1942).
O segundo seria a manutenção de uma marca que somente o time do Morumbi ostenta desde a instauração dos pontos corridos, em 2003: conseguir um tricampeonato consecutivo. Em 22 edições (já contando com a atual), apenas o São Paulo conseguiu o tri com os históricos times de 2006, 2007 e 2008. Logo, uma derrota ou empate no Rio de Janeiro impediria o Palmeiras de alcançar a mesma marca.

Os dois primeiros motivos foram inclusive pauta na entrevista de Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, logo após a vitória de virada por 2 a 1 sobre o Cruzeiro, na última quarta-feira (4), onde Abel descarta praticamente a possibilidade da terceira conquista seguida alviverde.
“Está praticamente definido, o Botafogo joga em casa e vocês conhecem o futebol brasileiro. No jogo que tivemos em casa não fomos competentes nas quatro ou cinco chances que tivemos antes do adversário fazer gol”, falou Abel.

Já o terceiro e o quarto motivos têm relação com acontecimentos passados envolvendo São Paulo e Corinthians, outro rival tricolor. Caso você, querido leitor, não conheça essas histórias, poderá conferir abaixo um resumo delas em dois curtos capítulos.
Capítulo I: Os gols que foram xingados
Paulistão de 2004, última rodada da fase classificatória: o favorito e já classificado São Paulo enfrentava o ameaçado pelo rebaixamento Juventus, sem maiores pretensões. Contudo, a própria torcida tricolor pedia a derrota do time. O motivo? A real possibilidade de rebaixar o rival Corinthians, que assim como o Moleque Travesso, também penava para se manter na elite do estadual.
O Timão, que enfrentava a Portuguesa Santista (sensação daquele campeonato) no mesmo horário do jogo entre Juventus e São Paulo, perderia para a Lusinha por 1 a 0 dentro do Pacaembu e, definitivamente, dependeria de uma vitória do rival para se salvar. E foi justamente o que aconteceu.
Grafite, então centroavante da equipe do Morumbi, anotou dois gols ainda no primeiro tempo para a irônica revolta da própria torcida, que o vaiou e proferiu todos os xingamentos possíveis contra o então camisa 7 (Luís Fabiano era o 9 daquele time). O Juventus ainda diminuiria na etapa final, mas não foi suficiente para evitar o descenso, visto que o time da Mooca ficou com seis pontos contra oito da equipe de Parque São Jorge.

Devido aos gols que evitaram a queda do Corinthians, Grafite passou a ser odiado por parte dos são-paulinos e taxado de corintiano pela torcida tricolor, que mesmo após mais de 20 anos ainda lembra com pesar do faro artilheiro do centroavante naquele jogo. Bem diferente de Grafite, que não se arrepende de ter ido às redes, mesmo ajudando um rival histórico.
“Fiz o que achei certo de acordo com os princípios e com a educação que os meus pais me deram. Não me arrependo nem um pouco. Um profissional digno e de bom caráter jamais irá fazer o contrário em seu trabalho. Eu estava ali para defender o São Paulo, clube que me pagava para jogar, ganhar jogos e marcar gols. As oportunidades apareceram e eu apenas fiz o que deveria ter sido feito. Simples”, disse Grafite, que o hoje atua como comentarista do Sportv, em entrevista ao ge.com, em 2010.

Capítulo II: “A honestidade não compensa”
Paulistão de 2017, Morumbi, primeira partida das semifinais entre São Paulo e Corinthians. Rodrigo Caio protege a bola do atacante Jô para o goleiro Renan Ribeiro ficar com ela dentro da área. Na conclusão da jogada, o arqueiro do São Paulo rola no chão de dor após ser atingido por um pisão na coxa.
Prontamente, o árbitro Luiz Flávio de Oliveira puniu o atacante alvinegro com o cartão amarelo, fato que o tiraria do segundo jogo das semifinais, na Neo Química Arena (então sem naming rights definido). Festa nas arquibancadas pelo fato do principal nome do rival (que fez um dos gols na vitória corintiana por 2 a 0 no Morumbi) estar suspenso. No entanto, um raro ato de honestidade mudou completamente o cenário.
Isso porque o zagueiro Rodrigo Caio se dirigiu até o árbitro e o informou que não havia sido Jô a pisar em Renan, mas sim ele próprio. Logo após a revelação do são-paulino, o cartão de Jô foi retirado e o centroavante ficou livre para jogar a partida de volta.

A honestidade de Rodrigo causou um misto de reações de torcedores, adversários, companheiros de equipe, imprensa e diretores do São Paulo devido à rivalidade existente. Foram ouvidos elogios, principalmente dos corintianos, pela atitude nobre, mas duras críticas por parte da torcida do São Paulo, que o chamou de inocente, para dizer o mínimo.
Após o jogo, quando elogiado pelos repórteres que o entrevistaram em campo, o defensor enfatizou que apenas fez o que era certo.
“Não fiz nada de mais, fiz só o que deveria fazer”, disse o zagueiro após a derrota por 2 a 0 no jogo de ida.
No dia seguinte ao lance, Maicon, à época companheiro de zaga de Rodrigo e hoje no Vasco, disse em entrevista que preferia ver a mãe de seu adversário chorando ao invés da sua, em uma clara crítica à atitude do companheiro. Já Jô, que havia parabenizado o adversário em campo por sua atitude, falou que o episódio deveria servir de exemplo.
“Ontem foi a nosso favor, nós que fomos beneficiados. Então, se acontecer com a gente, a gente tem que fazer igual. A gente tem que ganhar a vida com dignidade, sem tirar nada de ninguém para poder tirar vantagem”, disse o centroavante.
Para piorar a situação, foi justamente Jô quem marcou o gol corintiano no empate em 1 a 1 em Itaquera, que definiu a eliminação do São Paulo. Muitos lembraram disso ao fim do jogo, visto que se Rodrigo não tivesse agido com honestidade, Jô estaria suspenso e não marcaria. O Corinthians terminaria campeão paulista de 2017 ao bater a Ponte Preta nas finais.

Não bastasse o episódio no Paulistão, mais tarde, no Brasileirão do mesmo ano, Jô se envolveu em novo lance polêmico contra o Vasco, ao marcar um gol com o braço pela 24ª rodada que deu a vitória a um Corinthians que brigava pelo título e que não vencia há três rodadas. Após o jogo, o camisa 7 alvinegro foi questionado sobre o lance da honestidade de Rodrigo no qual ele foi parte, mas, “se esquecendo” do que havia falado meses antes, utilizou da boa e velha malandragem para sair pela tangente.
“Se eu tivesse convicção (de que a bola bateu no braço) eu iria falar. Mas eu não tenho convicção. Tanto é que eu me joguei, fui parar dentro do gol, então não tinha como te falar se foi mão ou não foi. Eu me joguei, aí o árbitro vai interpretar se foi mão ou não. Ele deu o gol, então não foi”, falou Jô com um sorriso no rosto.

Nos dias seguintes ao não fair play por parte de Jô, o assunto da “ingenuidade” de Rodrigo Caio voltou à tona e o zagueiro voltou a ser criticado pelos são-paulinos e até por parte da imprensa. Assim como no Paulistão, o Corinthians também saiu com a taça de campeão brasileiro naquele ano e Jô foi eleito o Bola de Ouro daquela edição.
Conclusão
Por mais que os princípios éticos sejam valorizados na sociedade, os mesmos não são levados em consideração no meio do futebol brasileiro (e mundial), onde a cultura de obter uma vantagem para vencer – vide as diversas simulações de pênaltis e agressões para forçar uma expulsão que vemos ao longo de décadas a cada jogo – não é vista com maus olhos, mas como meio para alcançar o objetivo maior.
Os pedidos de “entrega” feitos pela torcida para prejudicar um rival são comuns e corriqueiros, principalmente em fases sensíveis das competições, sejam elas para definir títulos ou rebaixamentos. Está errado? Socialmente falando, sim. Mas no campo, a resposta é: depende. E justamente por esse “depende” que o futebol (ainda) é o esporte que mais mexe com a emoção das pessoas.