Idos de 2003, o Manchester United era uma das sensações do futebol sob o comando de um dos maiores treinadores da história, Sir Alex Ferguson. Na época se encaminhando para seu 17º ano como técnico dos Red Devils, o escocês já havia gabaritado uma série de conquistas como a Liga dos Campeões da Europa e o Mundial Interclubes, derrotando o Palmeiras de Felipão. Entretanto, vivendo uma fase ainda ambiciosa por títulos e protagonismo, coisa que atualmente o United não sabe o que é, trouxe à luz uma história que mudou completamente o destino de três personagens do esporte que até hoje arrastam multidões, e deixaram sua marca por onde estiveram.
Beckham e a briga com Ferguson que o levou para a Espanha
Revelado na base do Manchester United, tornando-se profissional no começo da década de 1990, o ex-meia David Beckham esteve durante dez anos sob a tutela de Sir Alex Ferguson na equipe inglesa, e com ele conquistou 14 títulos, entre eles uma Champions League, um Mundial e cinco Premier League. Premiado pela UEFA na temporada 1998/99 como o melhor jogador da Europa, o britânico despontou nos Red Devils para a seleção da Inglaterra, e disputou três Copas do Mundo, sendo a de 1998 seu maior sucesso.
O sucesso, porém, não ficava apenas dentro de campo, visto que Beckham atingiu uma fama incomum no futebol e no mundo das celebridades, desde que se casou com a ex-Spice Girl Victoria Adams, em 1999, e é considerado o jogador mais pop star do futebol mundial. Tal fama trazia um certo incômodo para Ferguson, diante da sua preocupação com o desempenho do meio-campista em duelos decisivos do United, e seu sistema para conduzir a equipe até “as cabeças”.
Entre 1993 e 2003, Beckham e Ferguson conquistaram muitos títulos no Manchester, mas terminaram sua parceria em Old Trafford de forma polêmica, com o episódio da chuteira que cortou um supercílio do ex-jogador, e teria sido chutada pelo técnico durante uma discussão no vestiário. De acordo com jornais da época, Sir Alex Ferguson havia se irritado com Beckham por um lance que teria culminado na eliminação do Manchester United da Copa da Inglaterra para o Arsenal, e respondeu de maneira ríspida o comandante, além de ter sido contido por colegas antes de revidar a chuteira que o atingiu.
Apesar de anos depois a confusão ter sido superada, e as pazes terem se realizado, na ocasião Ferguson pediu a saída imediata de Beckham, que atendeu o desejo do treinador e logo foi negociado com o futebol espanhol, tendo como destino inicial o Barcelona. Contudo, apesar da equipe catalã tê-lo promovido como a principal contratação do então presidente eleito do clube Juan Laporta naquela janela de transferências de verão em 2003, o inglês surpreendeu a todos ao assinar com o rival Real Madrid, sendo o último contratado da primeira geração de Galáticos. A partir dali, surgem os outros dois astros citados nessa história, e que mudariam por completo suas respectivas carreiras, tendo estes clubes também envolvidos no assunto.

Ronaldinho não veio, mas Cristiano Ronaldo sim, e a história… também!
Para suprir a ausência de Beckham após a saída do craque rumo à Espanha, Alex Ferguson tratou como um dos seus principais alvos o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, na época vivendo um excelente momento no Paris Saint-Germain e pentacampeão mundial, mas em busca de novos ares no futebol europeu. Tendo como seu agente o irmão e ex-jogador Roberto Assis, R10 teria ignorado o contato do Manchester United, e gerado incômodo em Ferguson, conforme o próprio declarou naquele momento e anos depois se confirmou por meio de um dos seus atletas no período, o ex-zagueiro Rio Ferdinand, numa entrevista.

Deixando de lado a Premier League, Ronaldinho deixou a França para se aventurar na Espanha defendendo o Barcelona, vivendo seu auge e conquistando cinco títulos, além de ser eleito duas vezes o melhor jogador do mundo, com uma habilidade única que enchia os olhos de quem o assistiu. Nesse meio tempo, ainda na luta por um atleta que pudesse atingir o que Ferguson exigia, o United trouxe o até então desconhecido português Cristiano Ronaldo, e o também brasileiro Kléberson, apresentado junto ao que viria a se tornar um dos principais jogadores da história, mas no evento era o centro das atenções, por também ter sido pentacampeão do mundo e ser um dos principais jogadores do Brasileirão em 2002 e 2003.

Revelado pelo Sporting, Cristiano foi observado por Ferguson durante um amistoso de seu time contra o United, e ter bagunçado a defesa do clube inglês. Diante de tal desempenho, o técnico tratou de indicá-lo para os Red Devils e assegurar sua contratação, estimada na época em 15 milhões de euros, mas que futuramente valeria e muito a aquisição.
Com o desejo inicial de utilizar no United a camisa de número 28, assim como usava no futebol português, Cristiano Ronaldo foi convencido por Ferguson a usar a 7, apesar de seu receio em se apresentar com esta numeração e ser pressionado a corresponder em campo rapidamente. Entretanto, o receio logo passou e se transformou em protagonismo, com a conquista de nove títulos em seis anos, como a Liga dos Campeões, e um histórico feito antes conquistado somente por Ronaldo Fenômeno, de ser premiado como Melhor do Mundo pela FIFA e pela revista France Football, na coroação da Bola de Ouro.
Em Manchester, Cristiano tornou-se de vez o que hoje conhecemos por CR7, e viveu um de seus melhores momentos da carreira, mas se engana quem pensa que “tudo foram flores”. Nos bastidores, o atacante foi repreendido por Ferguson em ocasiões como a derrota do United para o Benfica em Portugal, na Champions League 2005/06, brigou com Nistelrooy num treinamento da equipe ao ser chamado de “fominha”, e foi ironizado pelos colegas pelo excesso de vaidade, levantando semelhanças com David Beckham.

Apesar desses momentos, Cristiano ainda saiu de Old Trafford pela porta da frente, voltando ao Manchester United doze anos depois de se consagrar vestindo a camisa do Real Madrid, e uma breve passagem pela Juventus, da Itália. Contudo, já sem o velho comandante Alex Ferguson, o português não conseguiu repetir o estrondoso sucesso, e se transferiu para o milionário futebol da Arábia Saudita, onde defende o Al-Nassr desde 2023.
Enquanto Cristiano Ronaldo permanece na ativa com seus 40 anos de idade e agora persegue a meta dos 1000 gols, muita coisas mudaram, inclusive o status dos outros personagens envolvidos nessa grande história. Desde a aposentadoria de Ferguson da beira dos gramados, em 2013, Beckham e Ronaldinho penduraram as chuteiras também na década de 2010, e agora rodam o mundo se utilizando das respectivas trajetórias conquistadas.
Sir Alex Ferguson continuou ligado ao United como dirigente até outubro de 2024, quando foi desligado das funções após um corte de gastos e não mais se vinculou ao futebol. Contudo, seu legado permanece vinculado de forma indireta ao clube inglês, e sobretudo aos saudosistas daquele competitivo time que perdurou até sua saída, quando vários treinadores foram chamados, mas não conseguiram alcançar o seu tremendo sucesso.
Foto: Austin Osuide