Simone Inzaghi Al-Hilal
Futebol Serie A

Análise tática: a Inter e o rolo compressor de Simone Inzaghi

Um dos times mais divertidos de acompanhar na Europa nos últimos anos, a Inter de Simone Inzaghi é um exemplo claro de como o futebol moderno depende muito menos do jogo posicional e muito mais da ocupação correta dos espaços, independentemente da posição original do jogador.

Desde que assumiu a Inter em 2021, Inzaghi vem implementando um estilo de jogo muito interessante, já presente em seus tempos de Lazio. Trata-se de uma pressão inteligente, aliada a um estilo de posse de bola que prioriza o controle total do campo, sem que os jogadores fiquem “robotizados” em um só lugar. Pelo contrário, seu sistema é extremamente fluido.

Esse sistema já levou a Inter a se tornar, de longe, o time mais dominante da Itália nos últimos anos, além de colocá-la em uma surpreendente final de Champions League há dois anos. No total, são três títulos da Supercopa da Itália, dois da Coppa Italia e um da Serie A. Neste texto, vamos explorar como esse time joga, apresentando os conceitos que fizeram dos nerazzurri um verdadeiro rolo compressor.

(Foto: Getty Images)

O sistema de Simone Inzaghi

Embora o padrão de jogo não seja a principal virtude da Inter de Inzaghi, o time quase sempre começa com três zagueiros, formando um 3-5-2. Inzaghi vê o meio de campo como a principal área do jogo e, por isso, sempre busca preenchê-lo com mais jogadores. Seu sistema busca constantemente criar “overloads” nessa região, o que facilita o controle da partida.

Na fase defensiva, os três zagueiros da Inter geralmente se juntam aos alas para formar uma linha de cinco defensores quando necessário, configurando um 5-3-2. No entanto, o time gosta de pressionar de forma inteligente. Ou seja, os defensores têm liberdade para avançar na pressão, enquanto os atacantes e alas ocupam espaços no meio-campo para reforçar a marcação.

Como já citado, o estilo de jogo de Inzaghi é fluido e, apesar da ênfase na posse de bola, o espaço entre os defensores é sempre o mais importante. A Inter tenta atrair os adversários para uma linha mais alta de marcação e, quando consegue, ataca rapidamente com passes velozes. No entanto, a forma como faz isso foge do convencional.

Defensores pressionando no ataque, meias iniciando a saída de bola, alas e atacantes ocupando espaços no meio-campo… Embora tudo isso possa parecer confuso, Inzaghi segue três conceitos básicos em sua filosofia de jogo, que vamos destrinchar abaixo.

Os conceitos da Inter de Inzaghi

1 – A posição não é definitiva

Francesco Acerbi Inter
Mapa de calor de Francesco Acerbi, zagueiro central da Inter (Foto: Divulgação/Sofascore)

Embora Inzaghi inicie seus jogos com um 3-5-2, é muito comum ver seus jogadores ocupando diferentes espaços ao longo da partida. A Inter de Inzaghi não se baseia na posição fixa, mas sim na ocupação inteligente dos espaços, permitindo que todos os jogadores atuem em diferentes funções.

No momento ofensivo, muitas vezes, são os próprios zagueiros que aparecem entre os defensores adversários, invadindo o meio-campo para encontrar espaços, já que os adversários estão preocupados com a construção dos meias. Outro conceito frequente é a movimentação dos alas para o meio, enquanto os meias iniciam a saída de bola. Até mesmo o goleiro, Yann Sommer, pode ocupar uma posição mais adiantada, assumindo o papel de um zagueiro.

Portanto, o sistema fluido da Inter de Inzaghi segue um padrão cada vez mais difundido no futebol mundial, com treinadores como ele, Fernando Diniz e Thiago Motta como alguns dos pioneiros dessa abordagem: o futebol “aposicional”, ou “relacionismo”.

2 – Ocupação do espaço disponível, e não do espaço pré-definido

Embora a ideia de ocupação de espaço não seja nova, há diferenças claras entre treinadores posicionais e aposicionais. No futebol posicional, o espaço é pré-determinado, e os jogadores se movimentam dentro desses espaços organizados. Por exemplo, em um ataque de um time posicional, os meias atacam determinados espaços quando o ponta recebe a bola, de maneira coordenada e ensaiada nos treinamentos.

Já no futebol aposicional, especialmente no modelo de Inzaghi, os jogadores buscam explorar os espaços disponíveis com base na estrutura defensiva do adversário. Na saída de bola da Inter, há uma rotação constante entre defensores e meias até que se encontre um espaço favorável para atacar. Esse espaço não é pré-definido, e a movimentação ocorre de acordo com as brechas que essa própria movimentação gera.

Por isso, para Inzaghi, o conceito de espaço muda a cada jogo, mas há um tipo de espaço que se destaca e é o mais importante — e é sobre ele que falaremos agora.

3 – Ataque rápido e letal

Existem quatro tipos de microespaços no campo, que surgem em toda partida:

  • O espaço entre o jogador e a bola;
  • O espaço entre o portador da bola e o marcador;
  • O espaço nas costas do marcador;
  • O espaço nas costas do portador da bola.

Dentre esses, o mais importante para a Inter de Inzaghi é o espaço nas costas do marcador. É nele que o time constrói seus ataques.

Como mencionado anteriormente, a Inter frequentemente leva seus defensores ao ataque para explorar esse espaço, mas eles não são os únicos a fazê-lo. Muitas vezes, Denzel Dumfries e Federico Dimarco também avançam pelo meio ou pelas pontas, enquanto a movimentação fluida de Lautaro Martínez atrai defensores para a marcação. Romelu Lukaku soube explorar esse espaço com eficiência, e agora Marcus Thuram ocupa esse papel.

Mas como esse espaço surge? Através de ataques rápidos. A Inter gosta de trocar passes na defesa para atrair os adversários à pressão e, assim, encontrar espaços às costas dos marcadores para criar jogadas. Como esses espaços não são pré-definidos, torna-se extremamente difícil prever qual jogador os atacará, dificultando o trabalho da defesa adversária.

No final, o ataque fluido da Inter é o principal motivo pelo qual o time é tão perigoso. No entanto, os conceitos de Inzaghi mostram que a ocupação das posições fixas não é essencial para otimizar o jogo, além de indicar que o futebol do futuro será cada vez mais baseado nos espaços e menos na rigidez das posições. A revolução tática já está em curso, e a Inter de Inzaghi é um dos seus maiores expoentes.