Nesta sexta-feira (4), Alex Ovechkin atingiu uma marca que por décadas pareceu inalcançável: igualou Wayne Gretzky como o maior artilheiro da história da NHL, com 894 gols. É o tipo de feito que transcende estatísticas. Trata-se de um jogador que, ao longo de quase duas décadas, conseguiu se adaptar, evoluir e se manter no topo, mesmo em uma liga que mudou radicalmente ao longo dos anos. Dos primeiros passos como o mais promissor dos snipers até o papel de líder maduro, Ovechkin moldou uma das carreiras mais marcantes da história do esporte.
A história de Ovechkin na NHL começa em 2005, ano em que ele estreou no Washington Capitals após ser a primeira escolha do Draft de 2004. Já no primeiro jogo, ele marcou dois gols, um cartão de visitas claro de quem estava chegando para fazer história. Seu primeiro gol foi uma bomba de média distância contra o Columbus Blue Jackets, mostrando o tipo de finalização que logo se tornaria sua marca registrada. Em sua temporada de estreia, terminou com 52 gols e 106 pontos, faturando o Calder Trophy de melhor novato.
Nos anos seguintes, Ovechkin consolidou seu nome como o sniper mais letal do hóquei. Sua posição preferida no power play, no círculo esquerdo de ataque, virou território conhecido como “Office”, o escritório de Ovechkin, de onde ele disparava com precisão e força brutais. Sabia-se o que ele faria, mas isso não impedia os gols. Com temporadas que variaram entre 50 e 65 gols, o camisa 8 dos Capitals rapidamente entrou para a elite da NHL e parecia ter como único foco bater redes adversárias.
No entanto, essa imagem de artilheiro absoluto, por vezes, gerava críticas. Ovechkin era visto como um jogador espetacular individualmente, mas que não conseguia conduzir seu time ao sucesso nos playoffs. Os Capitals colecionaram eliminações precoces e traumáticas, e muitos se perguntavam se ele teria o que fosse necessário para liderar um time até a Stanley Cup. Paralelamente, havia também o estigma sobre jogadores russos na NHL — de que seriam geniais tecnicamente, mas faltaria a eles o comprometimento tático e físico exigido em jogos decisivos.
A mudança no estilo de jogo e o título
Essa visão começou a mudar na segunda metade da década de 2010. Ovechkin, já mais experiente, passou por uma transformação importante no seu estilo de jogo. Deixou de ser apenas o finalizador isolado para se tornar um líder em todos os sentidos. Começou a trabalhar mais defensivamente, se posicionar melhor em zonas neutras e apoiar os companheiros mesmo longe do puck. A entrega nos dois lados do rinque se tornou visível, ele bloqueava chutes, brigava nas bordas e vibrava a cada jogada certa da equipe, não apenas com seus próprios gols.
Essa evolução culminou na temporada 2017-18, quando o Washington Capitals finalmente quebrou a barreira mental dos playoffs. Superaram o rival Pittsburgh Penguins, venceram o Tampa Bay Lightning em uma série dramática e chegaram à final da Stanley Cup contra o Vegas Golden Knights.
Ovechkin foi o líder da equipe em todos os aspectos, técnico, emocional e físico. Marcou gols decisivos, inspirou o elenco e, ao fim da série, levantou a taça tão esperada. Foi o ponto alto da sua carreira. Aquela conquista encerrou de vez as críticas de que ele era apenas um colecionador de gols.
O que é interessante é que Ovechkin superou alguns estigmas nessa campanha de playoffs. Muito se falava sobre o seu poder de decisão, mas foi dele o gol que venceu o jogo mais difícil daquela campanha, contra os Penguins fora de casa. Muito se falava sobre a sua parceria com Nicklas Backstrom, mas os dois não jogaram na mesma linha naquela campanha. Enfim, não havia mais o que se questionar sobre o russo.
A busca de Ovechkin pela história
A partir dali, seu foco voltou para outro objetivo que já começava a parecer possível: alcançar Wayne Gretzky. Durante anos, o recorde de 894 gols era considerado inalcançável. Gretzky jogou em uma era onde os goleiros usavam equipamentos menores, as táticas defensivas eram menos sofisticadas e os jogos tinham mais espaços. A NHL atual é muito mais competitiva, com defesas compactas e atletas mais preparados fisicamente. O que torna o feito de Ovechkin ainda mais impressionante é que ele fez isso em um cenário de dificuldade maior.
Com o passar dos anos, naturalmente, Ovechkin perdeu velocidade e explosão. A idade pesa. Mas ele compensou isso com inteligência. Hoje, ele é um mestre em se posicionar, em encontrar o espaço no momento certo. Não precisa mais correr o tempo inteiro, sabe onde vai surgir a chance e está lá quando ela aparece. Ainda tem um dos chutes mais pesados da liga, mas aprendeu a usá-lo com mais estratégia. O jogador de força se tornou um jogador cerebral.
Além dos recordes, Ovechkin tem um impacto simbólico. Ele é, com folga, o maior jogador russo da história da NHL e uma figura global. Inspirou gerações, quebrou estigmas, foi referência técnica e de personalidade. E mesmo com tantos anos de carreira, segue relevante, dentro e fora do gelo.
Empatar com Gretzky não é só alcançar uma marca. É se colocar no mesmo patamar de uma lenda absoluta. E se Alex Ovechkin mantiver o ritmo atual, deve ultrapassar o antigo número 99 em breve. Quando isso acontecer, será apenas a confirmação de algo que os fãs já sabem há anos: estamos vendo um dos maiores jogadores da história, fazendo história, um gol de cada vez.
(Foto: Site NHL)