A Inter está de volta à final da UEFA Champions League. Sob o comando de Simone Inzaghi, o time nerazzurro chega à decisão de 2024/25 praticando um futebol moderno, ofensivo e dominante em posse de bola. A equipe impressiona pela movimentação intensa, troca rápida de passes e variações ofensivas, que a colocam entre as mais agradáveis de se ver jogar na Europa.
Mas nem sempre foi assim.
A trajetória tática da Inter é marcada por fases bem distintas — algumas quase antagônicas ao estilo atual. De Helenio Herrera e o lendário catenaccio dos anos 60 até a revolução silenciosa de Inzaghi, o clube de Milão passou por estilos diversos que moldaram sua identidade competitiva. Entender essa transformação é compreender como a Inter deixou de ser símbolo da rigidez defensiva para se tornar sinônimo de criatividade e volume de jogo em 2025.
Do “catenaccio” de Herrera à velocidade de Trapattoni
A história tática da Inter começa com um nome incontornável: Helenio Herrera, técnico franco-argentino que comandou o clube entre 1960 e 1968. Foi ele quem consolidou a Inter como potência europeia e estabeleceu o catenaccio como símbolo do clube — um sistema extremamente defensivo, estruturado em um 3-5-2 com líbero, linhas compactas e ataques baseados em contra-ataques rápidos.
A “Grande Inter” venceu duas Champions League (1964 e 1965) e três Scudettos com esse estilo. Embora criticado por seu conservadorismo, o modelo foi funcional e moldou a cultura tática da equipe pelas décadas seguintes.
Já nos anos 80, foi a vez de Giovanni Trapattoni liderar a Inter. Já consagrado na Juventus, Trapattoni levou sua abordagem mais equilibrada ao clube de Milão entre 1986 e 1991. O time valorizava a disciplina tática, mas com um pouco mais de liberdade criativa no meio-campo.
Foi com ele que a Inter conquistou o Scudetto de 1988/89, com um time que mesclava força defensiva e transições rápidas com Lothar Matthäus e Aldo Serena. Trapattoni manteve parte da herança defensiva de Herrera, mas começou a abrir espaço para variações ofensivas.
O controle de Mancini e a eficiência de Mourinho: a Inter do começo do século XXI
O salto de mentalidade começa a se desenhar com Roberto Mancini, técnico da Inter entre 2004 e 2008. Seu time deu os primeiros sinais de uma Inter mais protagonista. Com domínio doméstico absoluto (três Scudettos seguidos), Mancini priorizava posse de bola e construção paciente, ainda que dentro de uma estrutura segura e vertical.
Não era um futebol exuberante, mas trouxe a Inter para o século XXI, com linhas mais altas e meias participativos na criação. Era o início de um novo perfil.
Se a Inter de Mancini apontava para o controle, a de José Mourinho (2008–2010) combinou esse controle com pragmatismo e eficácia cirúrgica. A histórica tríplice coroa de 2009/10, com Champions, Serie A e Copa Itália, foi conquistada com um time que sabia sofrer sem a bola e matar o jogo nos momentos certos.
Com jogadores como Sneijder, Eto’o e Milito, Mourinho armou um 4-2-3-1 que alternava linha baixa compacta e transições velozes, especialmente nas fases decisivas da Champions. A semifinal contra o Barcelona, onde a Inter passou 90 minutos se defendendo no Camp Nou, virou símbolo da “eficiência tática” mourinhista.
A Inter moderna: os três zagueiros de Conte e um Inzaghi revolucionário
De 2019 a 2021, Antonio Conte recolocou a Inter no topo da Itália com uma abordagem híbrida. Usando um 3-5-2 moderno, estruturado na força física de Lukaku, na velocidade de Hakimi e na construção com Barella e Brozovic, Conte trouxe o intensidade, pressão alta e verticalidade imediata.
Seu time era reativo quando necessário, mas também sabia propor o jogo — especialmente contra adversários mais frágeis na Serie A. Em 2021, após 11 anos, a Inter voltava a ser campeã italiana.
Se Conte usava o 3-5-2 com foco em verticalidade e físico, Inzaghi refinou o sistema. Técnico da Inter desde 2021, ele passou por uma transição gradual até chegar ao modelo atual: um time que valoriza a posse, ataca com muitos jogadores e pressiona alto de forma coordenada.
A Inter finalista da Champions 24/25 é resultado dessa evolução. O trio de zaga sai jogando com qualidade e aparece bastante no ataque. Barella é o motor do meio-campo. Calhanoglu virou regista. E os alas, como Dumfries e Dimarco, oferecem amplitude e profundidade. No ataque, Lautaro Martínez comanda um setor dinâmico, muitas vezes ao lado de Thuram.
A equipe ataca em bloco, defende com intensidade e tem repertório para controlar o jogo ou acelerar quando necessário. É o ápice de uma construção tática que começou lá atrás, com Herrera — mas que agora olha para frente, com identidade ofensiva.
A chegada à final da Champions não é obra do acaso. É o produto de uma evolução tática constante, que teve seus altos e baixos, mas sempre girou em torno de uma ideia: vencer. Agora, com Inzaghi, a Inter faz isso com a bola nos pés, e o controle do jogo nas mãos.
(Foto: Gabriele Maltinti/Getty Images)