Miguel Angel Russo Boca Juniors
Futebol Copa do Mundo de Clubes

Boca Juniors anuncia volta de Miguel Ángel Russo e escancara colapso criativo com o presidente Riquelme

O anúncio da recontratação de Miguel Ángel Russo como treinador do Boca Juniors para a disputa da Copa do Mundo de Clubes da FIFA 2025 gerou mais preocupação do que entusiasmo entre torcedores e analistas. Aos 69 anos, Russo retorna ao clube onde conquistou a Copa Libertadores em 2007, em um momento de profunda crise esportiva e institucional. Para muitos, esse retorno representa mais uma tentativa de resgatar um passado glorioso, mas que pouco dialoga com as exigências táticas e estruturais do futebol atual.

A decisão é vista como mais um erro de gestão por parte de Juan Román Riquelme, ídolo eterno do clube e atual presidente. Desde que assumiu o comando da instituição, Riquelme tem acumulado decisões questionáveis que resultaram em campanhas decepcionantes, fracassos continentais e um Boca cada vez mais distante da elite técnica do futebol sul-americano.

Eliminação vexatória e uma temporada humilhante

A temporada 2025, até aqui, tem sido um pesadelo para o Boca Juniors. O episódio mais simbólico foi a eliminação na fase preliminar da Libertadores para o modesto Alianza Lima. Jogando em plena La Bombonera, o time argentino perdeu o primeiro jogo, e, apesar de ter vencido em La Bombonera, foi eliminado nos pênaltis. O resultado foi tratado como vexatório por imprensa e torcida, escancarando uma crise esportiva que se arrasta desde o final de 2024.

A queda precoce na Libertadores não foi um acidente isolado. O Boca já vinha dando sinais de instabilidade, com um futebol apático, problemas de vestiário e uma diretoria que parece incapaz de traçar um plano coerente para o futuro. Os fracassos na Copa Sul-Americana e no Campeonato Argentino em 2024 já haviam gerado críticas, mas a eliminação continental foi o estopim de uma onda de revolta interna.

Nesse cenário, a escolha por Russo soa menos como um projeto e mais como um desespero.

Russo e a nostalgia improdutiva

Miguel Ángel Russo entrou para a história do Boca Juniors ao conquistar a Libertadores de 2007. Mas vale lembrar: aquele time jogava mal, mesmo com Riquelme em campo, e dependia fortemente de lampejos individuais para vencer. A equipe apresentava sérias limitações ofensivas e se sustentava em uma estrutura defensiva rígida, herança da escola mais pragmática do futebol argentino.

Na época, a crítica já apontava para a falta de criatividade e de um plano de jogo mais elaborado. Agora, quase duas décadas depois, Russo retorna em um futebol ainda mais dinâmico, físico e taticamente exigente. Seu estilo conservador, baseado em marcação baixa, posse de bola burocrática e transições lentas, contrasta fortemente com o que se espera de um time competitivo em uma Copa do Mundo de Clubes.

O Boca enfrentará adversários operam em um nível muito superior de organização ofensiva e intensidade, como o Bayern e o Benfica. Colocar um time de características reativas e previsíveis nesse cenário beira a irresponsabilidade tática.

Riquelme: entre o mito e a má gestão

A figura de Juan Román Riquelme continua dividindo a torcida do Boca. Ídolo incontestável como jogador, Riquelme parece perdido como dirigente. Desde que assumiu a presidência do clube, suas decisões têm seguido um padrão: olhar para trás. A cada problema, a resposta parece ser uma tentativa de reviver tempos antigos — ex-jogadores nos cargos técnicos, ex-treinadores nos bancos, e pouca inovação nos processos.

A volta de Russo não é um caso isolado. É a terceira vez que o treinador assume o comando técnico do clube. Em sua passagem anterior, em 2020, apesar de ter conquistado o campeonato local, o futebol já apresentava sinais de envelhecimento tático. O Boca jogava em marcha lenta, com pouca profundidade, e não resistia frente a adversários mais bem organizados.

Ao insistir em figuras conhecidas e em modelos ultrapassados, Riquelme mostra dificuldade em romper com o ciclo de dependência nostálgica que consome o clube. Enquanto outros gigantes sul-americanos apostam em treinadores jovens, com ideias modernas e sistemas de jogo bem definidos, o Boca parece preso a um loop de decisões anacrônicas.

Um elenco sem identidade e sem comando

A volta de Russo ainda esbarra em um elenco desequilibrado. Com jogadores veteranos como Edinson Cavani e Ander Herrera, além de um time que ainda conta com um limitado Carlos Palacios, o time carece de intensidade e renovação. Jovens promissores estão sendo colocados aos poucos, mas, com um time de pouca criatividade, quel espaço eles terão para se desenvolver?

A tendência, com Russo no comando, é que o time aposte ainda mais em uma postura defensiva, buscando empates sofridos e vitórias magras. Em um torneio de elite como o Mundial de Clubes, esse tipo de abordagem pode resultar em mais humilhações — algo que a torcida xeneize já não está mais disposta a tolerar.

No final, a recontratação de Russo representa mais do que uma aposta arriscada — simboliza o fracasso de um modelo de gestão baseado na memória e não na competência. O Boca Juniors precisava de reconstrução, inovação e coragem para se reinventar. Recebeu mais do mesmo. E o “mesmo”, no futebol moderno, já não é suficiente.

A gestão Riquelme, que começou com esperança e prestígio, corre o risco de terminar marcada por estagnação, retranca e resultados constrangedores. Para um clube com a história do Boca, isso não é apenas decepcionante — é inaceitável.

(Foto: Divulgação/Boca Juniors)