Tom Aspinall
Lutas UFC

Tom Aspinall é o novo campeão dos pesados; o que esperar do reinado do britânico?

O anúncio da aposentadoria de Jon Jones encerrou um capítulo histórico no UFC e, ao mesmo tempo, abriu um novo, com Tom Aspinall oficialmente reconhecido como o campeão linear dos pesos pesados da organização. Aos 31 anos, o britânico que já carregava o título interino agora assume o posto máximo da categoria mais tradicional do MMA, em um momento em que a divisão carece de nomes realmente competitivos e em ascensão.

Se por um lado o cinturão chega por via indireta, sem uma unificação oficial, por outro não há dúvidas de que Aspinall conquistou o respeito do público e da organização. Ele nocauteou Sergei Pavlovich para conquistar o cinturão interino, depois defendeu o título com autoridade contra Curtis Blaydes e vinha pressionando o UFC para resolver a indefinição causada pela longa ausência de Jon Jones.

Agora, com o caminho livre, ele se vê diante do desafio de liderar uma divisão carente de novos protagonistas — e, ao que tudo indica, com boas chances de reinar por um bom tempo.

Uma divisão de poucos nomes disponíveis para Aspinall

Aspirar ao topo dos pesados no UFC hoje significa enfrentar uma realidade desconfortável: o número de desafiantes reais é extremamente limitado. Jon Jones está fora de cena, assim como Stipe Miocic. Já Curtis Blaydes, Alexander Volkov e Sergei Pavlovich já foram derrotados por Aspinall ou estão em momentos instáveis na carreira.

A única exceção aparente é Ciryl Gane, francês que já disputou o cinturão linear contra Jones e o interino contra Pavlovich, perdendo em ambas. Ainda assim, seu jogo técnico e sua movimentação fluida o colocam como principal candidato a ser o primeiro adversário de Aspinall como campeão linear. O confronto entre os dois ainda não está confirmado, mas é considerado o cenário mais provável, inclusive pela preferência do UFC por lutas com apelo de alto nível técnico.

Mesmo com Gane como ameaça potencial, não há consenso sobre sua capacidade de vencer o inglês. Em diversas entrevistas, Aspinall afirmou não se preocupar com o estilo do francês e já deixou claro que pretende enfrentar todos os principais nomes do ranking, mesmo que tenha que repetir adversários.

O estilo que domina

Parte da expectativa em torno do reinado de Aspinall está ligada à sua combinação rara de atributos. Com 1,96m de altura e excelente mobilidade para um lutador de sua estatura, o britânico alia explosão física, striking preciso e um jogo de chão eficiente, tendo finalizado vários adversários ao longo de sua carreira.

Suas vitórias no UFC não apenas impressionam pelas estatísticas. Ele tem a menor média de tempo de luta entre todos os pesos pesados da história da organização, com pouco mais de dois minutos por combate — como também pela maneira como ele neutraliza os adversários. Contra Pavlovich, por exemplo, Aspinall usou a inteligência tática para evitar os golpes pesados do russo e responder com um nocaute fulminante. Contra Blaydes, mostrou preparo físico e um controle emocional admirável, mesmo sob pressão.

Esse conjunto técnico o diferencia dos demais lutadores da divisão, marcada por perfis mais conservadores e baseados quase exclusivamente na trocação ou na força física. Aspinall é um atleta moderno, capaz de misturar diferentes armas e adaptar seu jogo a diferentes estilos de oponentes.

A falta de renovação na divisão

O que joga a favor de um longo reinado de Aspinall é justamente a falta de renovação dos pesados. Ao contrário de divisões como o peso leve ou meio-médio, que constantemente revelam novos talentos, os pesados vivem um momento de estagnação. A maioria dos nomes do top 10 já está em atividade há mais de cinco anos e são conhecidos entre si, um cenário pouco propício a grandes surpresas.

Não há, neste momento, nenhum prospecto convincente o suficiente para ser preparado como um desafiante nos próximos 12 meses. Por isso, é plausível imaginar que Aspinall, mesmo se alternando entre lutas e períodos de espera por adversários viáveis, possa manter o cinturão por um longo período, especialmente se evitar lesões.

Aspinall como rosto da nova era

Com carisma, inteligência e capacidade técnica, Aspinall já se posiciona como o novo rosto da categoria. Ele tem bom relacionamento com o UFC, é ativo nas redes sociais e mostra vontade de lutar com frequência. Além disso, sua origem britânica amplia o alcance da organização na Europa, mercado que o UFC busca consolidar cada vez mais.

Ainda que muitos torcedores esperassem uma superluta com Jon Jones para legitimar seu status de campeão linear, Aspinall não parece afetado. No final, ele assume o cinturão linear dos pesos pesados com o cenário praticamente ideal: é jovem, está no auge físico, domina a maioria dos estilos de luta da divisão e tem pouca concorrência direta. Enquanto nomes como Gane, Volkov e Blaydes seguem circulando o topo, nenhum deles mostrou até agora ser capaz de realmente ameaçar sua posição.

A expectativa é que Aspinall não apenas defenda com sucesso o cinturão, mas também ajude a revigorar uma categoria historicamente simbólica para o UFC. Se o reinado será longo ou não, só o tempo dirá. Mas o terreno está fértil para que o britânico construa uma era. E tudo indica que ele sabe disso.

(Foto: Richard Sellers/PA via AP)