A seleção da Argentina está em apuros? As recentes transferências de Rodrigo De Paul para o Inter Miami, na Major League Soccer (MLS), e de Leandro Paredes para o Boca Juniors agitaram o mundo do futebol. Ambos os jogadores foram pilares das conquistas da Copa do Mundo de 2022 e das Copas América de 2021 e 2024 pela Seleção Argentina, integrando a famosa “Scaloneta” – apelido dado ao time de Lionel Scaloni.
Agora, com a dupla deixando o futebol de elite europeu para atuar em ligas menos competitivas, surge um debate: essas mudanças podem prejudicar a seleção argentina e o desempenho de Lionel Messi? Do ponto de vista tático e técnico, por que as saídas de De Paul e Paredes para MLS e futebol argentino, respectivamente, podem representar um problema para a Argentina?
A fórmula da “Scaloneta”: Messi, De Paul e Paredes em sintonia
Sob o comando de Lionel Scaloni, a Argentina desenvolveu um estilo de jogo coletivo e equilibrado que potencializa o melhor de Lionel Messi. Essa filosofia, carinhosamente chamada de Scaloneta, tem como base um meio-campo combativo e solidário, no qual Rodrigo De Paul e Leandro Paredes desempenham papéis fundamentais para liberar Messi das obrigações defensivas e permitir que o craque brilhe no ataque.
Rodrigo De Paul se consolidou como o “motor” do meio-campo argentino. Incansável na marcação e preciso na transição ofensiva, ele cobre grandes espaços do campo, pressiona os adversários e dá proteção ao lado direito – zona onde Messi costuma flutuar. De Paul atua quase como um “guarda-costas” de Messi, garantindo que o camisa 10 receba a bola em condições favoráveis e não precise recuar excessivamente para buscá-la.
Sua entrega tática e intensidade permitem que Messi economize fôlego para ser decisivo no terço final do campo. Além disso, De Paul possui ótima visão de jogo e qualidade no passe vertical, contribuindo diretamente na criação de jogadas e somando assistências importantes.
Já Leandro Paredes exerce a função de volante organizador, oferecendo equilíbrio ao setor. Posicionado geralmente como primeiro homem do meio-campo, Paredes dita o ritmo da equipe com passes curtos e longos, faz a saída de bola limpa e tem boa leitura de jogo defensivo. Sua presença libera outros meio-campistas para avançarem – caso de Alexis Mac Allister ou Enzo Fernández – sabendo que Paredes cobre os espaços à frente da zaga. Ele também agrega forte marcação quando necessário e personalidade para segurar a bola em momentos de pressão.
Paredes é daqueles jogadores “invisíveis” para quem olha só números, mas cruciais para o funcionamento coletivo: com ele em campo, Messi e cia. recebem a bola redonda e a defesa fica protegida. Não é à toa que Scaloni sempre destacou a importância de Paredes, confiando nele inclusive para bater pênaltis decisivos (como vimos na campanha do título mundial).
Em suma, a química entre Messi, De Paul e Paredes tornou-se um alicerce da Scaloneta. Os três, junto a outros nomes, criaram um ambiente de solidariedade em campo: todos correm e combatem pelo astro ter liberdade criativa. Essa sinergia foi forjada enfrentando as maiores potências e se provou vencedora. Porém, mudanças de clube dos coadjuvantes de luxo de Messi podem ameaçar esse equilíbrio.
Rodrigo De Paul na MLS: riscos de queda de rendimento
A transferência de Rodrigo De Paul para o Inter Miami, concretizada em julho de 2025, levou um dos melhores meio-campistas da seleção para a MLS, uma liga em ascensão mas ainda distante do nível técnico e competitivo dos principais campeonatos europeus. Apesar do projeto ambicioso do Miami (que já conta com Messi, Busquets, Alba e outros), a mudança de ambiente competitivo gera dúvidas sobre o impacto no desempenho de De Paul.
Primeiramente, o ritmo de jogo na MLS é diferente. A intensidade tática e física na liga norte-americana tende a ser mais baixa se comparada à La Liga espanhola, onde De Paul atuava pelo Atlético de Madrid. No Atlético de Diego Simeone, ele jogava em alto nível de exigência: só na última temporada europeia, De Paul participou de mais de 50 partidas oficiais, incluindo Liga dos Campeões e um calendário repleto de duelos tensos.
Esse volume de jogos e pressão competitiva manteve o meio-campista em topo de forma e concentração máxima. Na MLS, embora existam jogos disputados, a média de qualidade dos adversários é inferior, e alguns períodos da temporada são menos intensos. Há o risco de De Paul perder um pouco de ritmo e competitividade por não ser mais desafiado semanalmente contra a elite mundial.
Além ddisso, existe a adaptação de estilo de jogo. No Inter Miami de Javier Mascherano, De Paul possivelmente assumirá protagonismo, porém em um contexto tático menos rígido do que o que vivia sob Simeone. Há um receio de que, em um ambiente mais relaxado taticamente, ele perca parte daquele rigor defensivo e concentração que o tornaram peça-chave da seleção. Se o nível de cobrança diária baixar, pode ser difícil para o jogador “ligar o modo competição máxima” de imediato quando vestir a camisa argentina em um mata-mata de Copa. Manter a intensidade elevada será um desafio pessoal para De Paul na MLS.
Por fim, há o aspecto motivacional. Rodrigo De Paul conquistou tudo pela seleção recentemente e agora, aos 31 anos, opta por um novo desafio de vida e carreira fora da Europa. Embora ele deixe claro que chega para “competir e ganhar títulos” nos EUA, é natural que a mudança traga conforto e menos pressão midiática. Cabe ver como isso se refletirá em campo: a Argentina precisa do De Paul aguerrido e incansável de sempre. Qualquer queda de rendimento ou condicionamento do “motor” do time pode significar um Messi mais sobrecarregado em funções que não são as suas.
Leandro Paredes no Boca: nível competitivo vs. conforto em casa
A decisão de Leandro Paredes retornar ao Boca Juniors em definitivo, oficializada no meio de 2025, leva outro campeão mundial a um ambiente abaixo do patamar técnico da elite europeia. Paredes, de 31 anos, troca a Roma e as ligas europeias pela liga argentina num momento em que a seleção mira manter-se no topo mundial. Essa escolha traz vantagens e preocupações distintas.
Por um lado, voltar ao Boca significa para Paredes atuar no clube que o formou, diante de sua torcida apaixonada e em um contexto no qual certamente será titular absoluto e líder em campo. Ele encontrará motivação em vestir a camisa xeneize e disputar títulos como a Copa Libertadores, que embora seja uma competição continental importante, tem nível técnico oscilante e inferior à Serie A italiana no geral. No Boca, Paredes terá ritmo de jogo constante e a responsabilidade de comandar o meio-campo, algo positivo para manter sua forma individual. Além disso, estar em casa, perto da família e das raízes, pode trazer bem-estar psicológico – um fator que às vezes se traduz em boas atuações.
Entretanto, o nível de competitividade da liga argentina e até da Libertadores não se compara ao dos campeonatos europeus. Na Europa, Paredes enfrentava regularmente alguns dos melhores jogadores do mundo na Serie A italiana. Esse grau de desafio forja uma acuidade tática e rapidez de execução que são imprescindíveis no futebol de seleções de elite.
No contexto local, ele pode acabar se acomodando a um ritmo menos intenso, com mais tempo para pensar as jogadas do que teria contra um Napoli ou Inter da vida. O perigo é que, ao encarar seleções europeias ou mesmo Brasil em um Mundial, Paredes sinta a diferença de velocidade e intensidade, sofrendo para acompanhar o ritmo após um ano atuando contra adversários menos qualificados tecnicamente.
Outro fator é a exposição a estilos de jogo variados. Na Europa, Paredes estava habituado a diferentes esquemas e escolas táticas, aprimorando sua versatilidade defensiva e leitura de jogo contra o ataque de equipes diversas. No futebol sul-americano, embora haja muita garra e talento, o jogo pode ser mais truncado e menos organizado taticamente em certas partidas.
Isso pode afetar a manutenção do nível de excelência de Paredes em aspectos como posicionamento e marcação em zona, fundamentais na seleção Argentina. Scaloni precisará ficar atento para que seu volante mantenha os padrões exigidos no cenário internacional.
Consequências para a Seleção Argentina e Messi
A Seleção Argentina de Lionel Scaloni depende de uma engrenagem coletiva bem ajustada para tirar o máximo de Messi, que aos 38 anos (em 2025) gerencia seu físico cuidadosamente. Rodrigo De Paul e Leandro Paredes são peças dessa engrenagem – não apenas pelo talento, mas pelo entrosamento construído e pelo entendimento perfeito do plano tático que os cerca. Se ambos não estiverem em plena forma ou ritmo ideal por conta das escolhas de carreira, o time nacional pode sentir.
Uma das consequências imediatas pode ser a queda na intensidade de marcação e pressão no meio-campo quando a Argentina enfrentar seleções fortes. De Paul, atuando em uma liga menos exigente, pode perder parte daquele ímpeto competitivo que o fazia disputar cada bola como se fosse a última. Paredes, jogando em um contexto doméstico, pode não estar tão habituado ao pique de jogadores europeus de elite.
Com isso, Messi teria menos “escudeiros” para dividir a carga defensiva e de meio-campo. Poderíamos ver um Messi precisando recuar mais para armar jogadas ou até para buscar a bola, caso o meio-campo não consiga impor o mesmo domínio de outrora. Isso tira Messi da zona em que é mais letal – próximo à área adversária – e prejudica o rendimento ofensivo do time.
Outra preocupação é quebra de entrosamento e liderança. De Paul e Paredes, além da questão tática, são confidentes de Messi e líderes do grupo. Ambos têm longa trajetória com a camisa albiceleste (De Paul acumula quase 80 partidas pela seleção, enquanto Paredes tem mais de 70 jogos) e são voz ativa no vestiário.
Se eventualmente perderem espaço na equipe por não estarem em alto nível, o grupo pode sentir falta de sua experiência e da ligação afetiva que eles proporcionam. Eles fazem parte do círculo de confiança de Messi – aquela base de amigos que ajuda a criar o ambiente positivo na seleção. A Scaloneta foi construída também na união do elenco, e mudanças forçadas por questões de desempenho poderiam abalar essa química.
A espinha dorsal experiente foi o que deu sustentação a Messi nos títulos recentes. Ter Paredes e De Paul abaixo do seu melhor nível obrigaria o treinador a repensar o esquema: talvez reforçar a marcação com um volante mais defensivo no lugar de Paredes, ou buscar em outros jogadores a dinâmica que De Paul oferece. Isso pode alterar o estilo de jogo que vem dando certo, um risco antes de competições importantes como a Copa do Mundo de 2026.
Desafio para Scaloni e o futuro da Albiceleste
Em resumo, as transferências de Rodrigo De Paul para a MLS e de Leandro Paredes para o Boca Juniors acendem um sinal de alerta para a seleção argentina. A curto prazo, a presença destes dois jogadores em ligas menos competitivas pode afetar sua forma física e técnica, colocando em xeque a manutenção do estilo intenso e solidário da Scaloneta. Consequentemente, Lionel Messi poderia sentir mais dificuldades em campo sem o mesmo suporte incansável desses pilares do meio-campo.
Entretanto, nem tudo está perdido ou garantido. Cabe aos próprios jogadores e à comissão técnica mitigar esses efeitos. De Paul terá que se desafiar a manter o padrão elevado na MLS, usando a motivação de jogar ao lado de Messi também no clube para não relaxar. Paredes, por sua vez, precisará encarar cada jogo pelo Boca como uma preparação para os desafios internacionais, mantendo sua intensidade e concentração no auge. Já Scaloni deverá monitorar de perto o desempenho de ambos e ter planos alternativos prontos, caso precise renovar a equipe sem descaracterizar o que foi construído.
A Seleção Argentina entra em uma nova fase, onde administrar a transição de alguns campeões mundiais para contextos diferentes será fundamental. O objetivo é claro: continuar competitiva e dar a Messi condições de brilhar na Copa 2026. Se De Paul e Paredes conseguirem equilibrar a balança entre satisfação pessoal e alto rendimento esportivo, o impacto negativo poderá ser minimizado. Do contrário, a Argentina terá que encontrar soluções internas para que a máquina da Scaloneta não perca sua engrenagem, mantendo acesa a chama de campeã na próxima Copa do Mundo, em um ano. O desafio está lançado para Scaloni e seus comandados: adaptar-se sem perder a essência vencedora.
Créditos foto de capa: Marcelo Endelli / Getty Images