Em La Liga, os grandes nomes são fáceis de listar: Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid. Com centros urbanos densos, investimentos milionários e uma base de torcedores global, esses clubes transformaram a La Liga em uma vitrine para os supertimes da Europa. Mas fora desse eixo privilegiado, há uma outra realidade — mais silenciosa, mais difícil, e talvez mais fiel à essência do futebol: a dos clubes que vivem para resistir.
Cidades como Pamplona, Cádiz, Palma de Mallorca, Vitoria-Gasteiz e Girona abrigam clubes que, por décadas, lutam não para conquistar a liga, mas para continuar nela. Para esses times, a permanência é uma forma de sucesso. O orçamento é apertado, os recursos são limitados e o planejamento é quase sempre pragmático. Mas mesmo nesse cenário restritivo, alguns começam a mostrar que é possível sonhar mais alto — como faz, por exemplo, o Mallorca.
Entre a sobrevivência e o milagre: como vivem os “pequenos” da La Liga
A diferença de estrutura entre os clubes do eixo Madrid-Barcelona e o restante da Espanha em La Liga é brutal. Real Madrid e Barcelona operam com orçamentos que superam os €800 milhões anuais. Clubes como Cádiz ou Alavés, por outro lado, às vezes não chegam a 10% disso.
Esse abismo financeiro se traduz em escolhas duras. Não há espaço para apostas caras. Os elencos são montados com jogadores emprestados, veteranos livres no mercado, e jovens da base que precisam amadurecer rápido. A prioridade quase sempre é a defesa sólida, a consistência tática e a luta por empates suados fora de casa.
Um estudo recente do The Guardian mostrou que entre os 15 menores orçamentos das cinco grandes ligas europeias, seis são de clubes de La Liga. É o retrato de uma liga com uma divisão de receitas altamente desigual. O sistema atual concentra os maiores repasses de direitos de TV nas mãos dos gigantes, mesmo após as reformas do modelo centralizado implantadas em 2015.
O caso Mallorca: entre a estabilidade e o sonho
O RCD Mallorca é talvez o exemplo mais interessante dessa resistência com ambição. O clube, que já viveu momentos de crise severa — inclusive com rebaixamento à terceira divisão em 2017 — passou por uma transformação profunda desde a aquisição por investidores americanos, liderados por Robert Sarver e Andy Kohlberg, e com figuras como Steve Nash no conselho.
A reestruturação não foi apenas financeira, mas também cultural. O Mallorca adotou um modelo de gestão profissional, com foco na sustentabilidade, aproveitamento da base e reforços pontuais. O clube manteve salários sob controle, investiu em modernização do estádio e conseguiu duas promoções seguidas, voltando à elite com estabilidade e competitividade em La Liga.
Em 2024, o time chegou à final da Copa do Rei, perdendo para o Athletic Bilbao nos pênaltis, e flertou com vaga nas competições europeias por boa parte da temporada. Mais do que o desempenho em si, impressionou o modelo: elenco enxuto, técnico experiente (Javier Aguirre) e protagonismo de jogadores locais como Abdón Prats, ídolo da ilha.
O presidente Andy Kohlberg, em entrevista ao AS, declarou que “não é preciso gastar fortunas para ser competitivo na Espanha, desde que o clube tenha uma identidade clara e um plano de longo prazo”. O Mallorca, por ora, é a prova disso.
Osasuna, Girona, Alavés: outras formas de resistência em La Liga
O Osasuna, de Pamplona, também é exemplo de gestão coerente. O clube basco, fundado em 1920, é um dos poucos na Espanha ainda operando como associação de sócios — o que exige responsabilidade fiscal redobrada. O foco do Osasuna sempre foi a formação de atletas locais e a construção de uma equipe combativa, com grande apoio popular. Em 2022, o clube chegou à final da Copa do Rei, sendo derrotado pelo Real Madrid, mas mostrou que ainda é capaz de competir em alto nível com um orçamento modesto.
O Girona, por sua vez, vive uma realidade híbrida. Embora esteja em uma cidade pequena, com menos de 100 mil habitantes, o clube faz parte do City Football Group, o conglomerado que também controla o Manchester City. Esse apoio permitiu ao Girona montar um projeto mais ambicioso, com contratações inteligentes, forte estrutura de análise de dados e uma identidade tática moderna. A equipe terminou a temporada 2023/24 no G-4 da La Liga, à frente do Atlético de Madrid, garantindo vaga inédita na Champions League.
Já o Alavés, de Vitoria-Gasteiz, e o Cádiz, do sul da Andaluzia, representam o lado mais sofrido dessa luta. O primeiro sobrevive à base de empréstimos de grandes clubes e ajustes táticos. O segundo caiu em 2024 após quatro anos de tentativas de permanência, derrotado mais pela falta de gols do que por falhas defensivas. Para esses clubes, um ponto fora de casa contra o Getafe ou um empate com o Valencia em La Liga são momentos a celebrar.
O futebol longe dos holofotes ainda pulsa
Para muitos torcedores, especialmente fora da Espanha, os clubes pequenos parecem figurantes. Mas para as cidades que eles representam, esses times são o coração cultural e emocional da comunidade. Eles dão sentido aos domingos, ocupam os bares, aquecem a economia local e oferecem algo raro no futebol moderno: identidade.
Esses clubes não compram estrelas. Não disputam rodadas de gala. Mas, em meio à desigualdade brutal do futebol europeu, ainda conseguem emocionar. Quando o Mallorca empata com o Real Madrid, quando o Osasuna elimina o Sevilla, ou quando o Girona joga de igual para igual com o Barcelona, o impossível parece um pouco mais alcançável.
A La Liga, para continuar vibrante, precisa deles. Precisa dos que lutam para não cair. Dos que sonham com uma final de Copa. Dos que fazem o máximo com o mínimo. Em um futebol cada vez mais dominado por cifras, sobreviver, para esses clubes, já é uma forma de vitória. E às vezes, a vitória realmente acontece.
(Foto: Getty Images)