A vitória do Mirassol sobre o Vasco por 3 a 2, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro, não foi apenas mais um resultado positivo dentro de uma boa campanha. Foi a prova prática de que, mesmo em um ambiente tão volátil quanto o futebol brasileiro, planejamento, visão de longo prazo e decisões bem fundamentadas ainda funcionam.
Em um confronto que testou emocional e taticamente a equipe paulista, o Mirassol confirmou sua fase espetacular e consolidou sua presença na parte de cima da tabela, chegando a 28 pontos e ficando colado no G-4 do Brasileirão.
O triunfo, conquistado no Estádio Municipal José Maria de Campos Maia, coroou uma sequência de nove jogos sem perder — com seis vitórias e três empates — e revelou o amadurecimento de um projeto que começou de forma hesitante, mas ganhou corpo a partir de mudanças decisivas.
Mirassol foge do “mais do mesmo” rapidamente
No início da temporada, o Mirassol seguiu o caminho tradicional de muitos clubes que sobem da Série B: apostou em nomes mais experientes, trouxe reforços considerados “medalhões” e entregou o comando técnico a Eduardo Barroca, treinador rodado, conhecido por seu estilo posicional.
A tentativa de se manter com segurança, no entanto, esbarrou em más atuações e falta de identidade dentro de campo. O time não evoluía, e os resultados não apareciam. A diretoria percebeu rapidamente que o modelo precisava ser reformulado e apostou na chegada de Rafael Guanaes, em março. O treinador, que já havia mostrado qualidade em passagens por Atlético-GO e Operário, trouxe ao Mirassol um estilo coletivo, dinâmico e adaptável, resgatando peças da base que veio da Série B, como Danielzinho, Neto Moura, Gabriel, João Victor e Lucas Ramon.
Com Guanaes, o time ganhou estabilidade defensiva e liberdade ofensiva. As linhas passaram a funcionar em bloco, com intensidade sem a bola e mobilidade com ela. A nova fase teve mais um ponto de inflexão em junho, quando o ex-volante Paulinho — ídolo do Corinthians e com passagens marcantes por seleção brasileira e futebol europeu — assumiu como executivo de futebol.
A função já havia sido ocupada por ele interinamente na função de coordenador técnico, mas ao ser oficializado como o homem forte do futebol, Paulinho passou a aplicar sua experiência prática e seu conhecimento de vestiário com precisão na estrutura organizacional.
Os novos reforços que deram uma cara nova ao Mirassol
Sob sua gestão, o clube não saiu ao mercado em busca de nomes de impacto midiático. Pelo contrário, o foco foi claro: encontrar boas oportunidades, atletas que combinassem com a proposta de jogo de Guanaes e que pudessem entrar de imediato na rotação do elenco. Três nomes chegaram e rapidamente se tornaram protagonistas: Chico da Costa, Alesson e Carlos Eduardo.
Chico da Costa, centroavante de força e boa leitura de espaço, já soma quatro gols em cinco jogos, sendo um deles na vitória contra o Vasco. Alesson, atacante veloz e técnico que atuava no futebol russo e teve passagem destacada pelo Vila Nova, também deixou sua marca diante dos cariocas, anotando o terceiro gol do Mirassol, logo após cruzamento certeiro de Carlos Eduardo.
Este, por sua vez, tem passagens por clubes como Goiás, Palmeiras e Athletico-PR, e chegou como peça versátil de ataque, oferecendo assistência logo em sua estreia. A movimentação dos três durante a partida foi decisiva para que o Mirassol resistisse ao momento de pressão vivido após o empate parcial do Vasco e retomasse o controle da partida com eficiência.
Outro aspecto que explica o sucesso do time é a manutenção de uma espinha dorsal que já vinha sendo trabalhada desde a Série B. Ao invés de desmontar o elenco após o acesso, a diretoria manteve boa parte do grupo e deu ao novo treinador tempo e respaldo para aprimorar o que já funcionava. Essa continuidade gerou o entrosamento que tem sido visto em campo, e que se traduz não só em resultados, mas em atuações consistentes contra equipes mais tradicionais. Vale lembrar que, antes de vencer o Vasco, o Mirassol já havia superado Santos, Corinthians e São Paulo, além de empatar com o Palmeiras.
O desempenho contra o Vasco foi emblemático: um time que sabe sair jogando com qualidade, aproveita os espaços deixados pelos adversários, e responde com intensidade quando precisa correr atrás do placar. A reação vascaína no segundo tempo mostrou o quanto o Mirassol ainda precisa de ajustes, especialmente na defesa, mas também evidenciou a maturidade de uma equipe que não se desespera e consegue reagir com bola no pé, em vez de chutões e desorganização.
Os desafios pela frente
O Brasileirão, no entanto, não dá folgas. O Mirassol tem pela frente o Flamengo, e agora a chance de consolidar sua posição como uma das gratas surpresas do campeonato. Mais do que uma campanha acima das expectativas, o clube apresenta um modelo que combina competência executiva, planejamento técnico e aproveitamento eficiente do mercado — elementos que, se mantidos, poderão levar o Leão a patamares ainda maiores.
A vitória sobre o Vasco, então, não é acaso: é consequência. É o reflexo de uma gestão que aprendeu rápido com os próprios erros, fez apostas certas e agora colhe os frutos de um time que tem cara, proposta e ambição. Se continuar nesse ritmo, o Mirassol deixará de ser surpresa para se tornar referência.
Foto: Iago Ferreira/Mirassol