O Santos vive mais um capítulo turbulento em sua história recente. Após a humilhante derrota por 6 a 0 para o Vasco, resultado que expôs, de forma quase cruel, as fragilidades estruturais e técnicas do elenco, a diretoria optou pela demissão de Cleber Xavier. Em seu lugar, assume o argentino Juan Pablo Vojvoda, técnico que fez história no Fortaleza.
A grande pergunta agora é: o estilo de Vojvoda encaixa com as atuais carências do Santos? E mais importante, ele será capaz de reerguer esse time?
Antes de tudo, é necessário reconhecer o mérito da escolha no campo teórico. Vojvoda, que chegou ao futebol brasileiro com pouco alarde, rapidamente mostrou capacidade de montar equipes organizadas, compactas e competitivas. No Fortaleza, construiu um modelo de jogo com identidade própria: defesa sólida, linhas compactas, boa saída de bola e ataques rápidos pelos lados. Seu melhor trabalho foi o de 2021, quando levou o time à inédita classificação para a Libertadores. Ainda assim, o cenário que encontrará na Vila Belmiro é, no mínimo, desafiador.
O atual elenco do Santos carece de peças fundamentais para sustentar o estilo de jogo preferido por Vojvoda. A defesa é lenta e desorganizada, o meio-campo tem pouca combatividade, e o ataque sofre com a ausência de um centroavante confiável. Posições vitais para qualquer treinador, ainda mais para alguém que aposta tanto em transições rápidas e intensidade. Sem uma zaga que saiba sair jogando sob pressão e um camisa 9 que consiga finalizar jogadas com consistência, o modelo do argentino pode empacar.
Do Castelão à Vila: como adaptar o modelo de Vojvoda ao Santos
Para que Vojvoda tenha sucesso, será preciso mais do que transplantar o modelo de Fortaleza para o litoral paulista. Ele terá que ajustar suas convicções às limitações do elenco santista. No Fortaleza, ele contava com zagueiros rápidos e volantes combativos. No Santos, essas figuras não existem.
A primeira missão de Vojvoda será reorganizar o sistema defensivo. Mesmo com nomes limitados, será necessário estabelecer um padrão mínimo de compactação e posicionamento e contar com contratações que cheguem para jogar. Não se pode mais ver a equipe tomando gols com tanta facilidade em transições simples do adversário.
É provável que o argentino opte por uma linha de três zagueiros, como fez no Fortaleza, utilizando laterais como alas mais avançados. Mas precisa ter defensores rápidos e confiáveis, fazendo com que a diretoria santista tenha que trabalhar em caráter de urgência para esses reforços.
No meio, a ausência de um cão de guarda que tenha vitalidade e saiba sair jogando é um problema crônico. A falta de um primeiro volante que proteja a zaga e faça a bola girar com qualidade compromete o funcionamento de qualquer esquema tático. Zé Rafael não tem mais físico para defender como o time precisa, Rincon e João Schmidt são muito lentos e erram muito com e sem a bola, enquanto Willian Arão ainda não conseguiu começar nenhuma partida.

Com esses problemas, Vojvoda pode ficar refém novamente da diretoria, que precisa urgentemente reforçar o setor. Caso jogue com três zagueiros, talvez Arão seja a proteção que o time precisa, mas só jogando para saber. Se a zaga é um problema grave, o meio-campo é uma deficiência vital para essa equipe desde o início do ano. Os buracos seguem aparecendo jogo após jogo, desde Pedro Caixinha até Cleber Xavier.
O ataque é outro ponto crítico. Sem um centroavante intenso, o Santos não consegue prender a defesa adversária nem criar espaços, Tiquinho Soares e Deivid Washington revezam sem convencer. No Fortaleza, Vojvoda apostava em movimentação intensa e atacantes que entravam na área com frequência. No Santos, talvez precise lançar mão de um “falso 9”, sendo ele Neymar, pois em um futebol intenso como o que vivemos, não dá para o ídolo jogar no meio sem obrigações de marcação.
A aposta pode dar certo, mas o risco é alto
A chegada de Juan Pablo Vojvoda é promissora à primeira vista, mesmo com o Santos sendo de longe o maior time que ele assumiu na carreira. Nos trabalhos em Defensa y Justicia, Talleres, Huracán, Unión La Calera e Fortaleza, a pressão era infinitamente menor do que no Peixe.
A contratação de Vojvoda é vista de maneira positiva, pois trata-se de um treinador moderno, com ideias claras e histórico de superação. No entanto, o cenário que ele encontra no Santos é de terra arrasada. Sem reforços pontuais, especialmente dois zagueiros confiáveis, um volante de marcação “box to box” e, se possível, um centroavante goleador e móvel, sua missão será quase impossível.
Para que a aposta funcione, Vojvoda terá que ser mais pragmático do que foi no Fortaleza. Terá que abrir mão de certas convicções, adaptar seu esquema ao que tem em mãos e, principalmente, recuperar a confiança de um elenco emocionalmente devastado.
O Santos, mais do que nunca, precisa de alguém que vá além do tático. O clube necessita de liderança, resiliência e ideias novas. Vojvoda tem potencial para ser esse nome, mas só o tempo, e o mercado, dirão se ele terá as ferramentas para isso.