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Lorran, ex-Flamengo, escolhe o risco na Itália em vez do conforto saudita

Lorran, uma das joias mais recentes das categorias de base do Flamengo, deixou o clube para se juntar ao Pisa, da Itália, recém-promovido à elite do país. Conhecido por muitos como “Rugal”, o atacante chamou atenção por sua decisão justamente por ter em mãos a chance de seguir os passos de Matheus Gonçalves, colega de geração, que foi para o Al-Ahli, da Arábia Saudita. Apesar dessa possibilidade, e da grana pesada envolvida, Lorran optou por um caminho bem mais espinhoso, indo para um lugar onde, sejamos honestos, os brasileiros do meio pra frente não andam em alta.

Mesmo com toda a expectativa em cima do jogador de 19 anos, Lorran não conseguiu firmar sequência no time principal do Flamengo. Depois de colecionar boas atuações no profissional, o ponta caiu de produção e passou por maus bocados sob o comando de Tite. Teve vaias da torcida, substituições-relâmpago e uma perda clara de confiança, nada disso ajudou na continuidade dele no elenco principal.

Ainda assim, o garoto teve lampejos. A atuação contra o Corinthians, no Maracanã, em 2024, é prova disso. No primeiro gol da vitória rubro-negra, deu belo passe para Pedro abrir o placar. Mais tarde, ampliou o marcador após roubar a bola do adversário com categoria, técnica e sangue frio. Jogadaça. Só que momentos como esse foram pontuais. O jovem não conseguiu transformar essas exibições em consistência. Acabou entrando naquele looping cruel: sobe pro profissional, volta pro sub-20, sobe de novo, volta de novo… e por aí vai.

Filipe Luís até tentou recuperá-lo, assim como tenta com outros garotos da base. Existia, ali dentro, uma crença verdadeira de que ele poderia reencontrar o futebol que encantou os torcedores no início. Mas não deu. E a diretoria acabou vendo na venda a melhor solução.

Essa foi, sem dúvida, uma das maiores decisões da curta carreira de Lorran até aqui. E aí entra a pergunta que paira no ar:

Coragem ou estupidez de Lorran?

Lorran Flamengo
Foto: Marcelo Cortes / CRF

 

Sem espaço no Flamengo, Lorran tinha dois caminhos. Um era o futebol italiano, onde atacantes brasileiros vêm penando nos últimos anos. O outro, o conforto da Arábia Saudita, onde já teria Matheus Gonçalves esperando, com estrutura de ponta e o famoso “pix” caindo pesado todo mês. Para surpresa de muitos, o ex-camisa 19 do Mengão escolheu a Itália, mirando a vitrine europeia e apostando na chance de reencontrar o bom futebol, mesmo contra todas as odds.

E olha… motivos pra recuar, ele tinha. Vamos combinar.

Kaio Jorge, por exemplo, teve poucos minutos na Juventus, enfrentou lesões sérias no joelho, passou pelo Frosinone e nunca conseguiu embalar de fato no país. Acabou voltando ao Brasil, e agora vive sua melhor fase no Cruzeiro, o que, ironicamente, pode até dar a ele uma nova chance no Velho Continente.

Outro caso é Gabriel Barbosa. O Gabigol que brilhou com duas Libertadores no Flamengo é o mesmo que foi chamado de “Gabi Não-Gol” na Inter de Milão. A adaptação foi péssima. A pressão, gigantesca. O desempenho, nem se fala. Saiu pela porta dos fundos da Itália.

Reinier, também cria do Ninho, foi outro que tentou a sorte no futebol italiano. Atuou no Frosinone (olha ele aí de novo!), em um movimento bem parecido com o de Lorran: jovem, talento bruto, time recém-subido, esperança de brilhar. No fim, poucas chances e retorno ao Brasil, onde hoje veste a camisa do Atlético-MG.

Pra completar o combo, tem o Brenner. Fez chover com Diniz no São Paulo, foi contratado pela Udinese com pompa, mas… ficou nisso. Lesões, desconfiança da comissão técnica e concorrência de nomes mais consolidados como Thauvin, Alexis Sánchez e Bravo dificultaram a vida do atacante. Resultado: voltou à MLS, onde tenta reencontrar a melhor versão de si.

E é nesse cenário nada animador que Lorran decidiu arriscar.

Lorran pode se reinventar na Itália

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

 

Uma pedra já cantada há tempos pelo Falso Nove é a possibilidade de Lorran atuar como centroavante. No Flamengo, ele quase sempre jogou aberto pelo lado direito, com pouco espaço pra infiltrar e pisar na área com frequência. Mas há quem veja nele um potencial “camisa 9 moderno”.

Ele tem condução de bola firme, boa estatura, força física e, principalmente, capacidade de encarar zagueiros no mano a mano. Dava para sonhar com uma movimentação do clube carioca, sem forçar muito a barra, do Flamengo lapidar o garoto para ser um “Taty Castellanos da Gávea”, ou quem sabe um Lucas Beltrán versão carioca. Entretanto, seria um trabalho que não dependeria apenas da comissão técnica.

Um atacante móvel, que pressiona saída de bola, tem fôlego, se movimenta bem, ataca espaço… e sabe finalizar. O tal “9 que se mexe”. O problema é que quem acabou sendo testado nessa função foi o Juninho, que foi engolido pela pressão e terminou afundado na areia movediça.

Num campeonato conhecido pela fisicalidade como a Série A italiana, Lorran pode não tirar tanto proveito do jogo pelas pontas. É claro que uma mudança brusca de estilo exige tempo e confiança, mas já era nítido, no Brasileirão, que ele tinha dificuldade em furar defesas fechadas quando atuava mais aberto. Não tinha tanto espaço pra pensar, muito menos pra executar.

Agora que a escolha está feita, é esperar pra ver o que ele conseguirá extrair dessa nova experiência. O Pisa, atual 14º colocado da Série A Enilive, é comandado por Alberto Gilardino, ex-atacante da seleção italiana. E será nas costas dele que recairá a responsabilidade de identificar e moldar esse possível novo papel para Lorran.

Será que Gilardino vai enxergar o tal cacoete de centroavante? Ou o Rugal vai ter que se virar sozinho nessa?

Foto: Gilvan de Souza e Marcelo Cortes / CRF