Ibrahimovic, Milan
Futebol Serie A

O peso da 9 no Milan: de símbolo a maldição

Por décadas, vestir a camisa 9 do Milan era sinônimo de prestígio e responsabilidade. Era o número reservado ao centroavante, ao homem-gol, ao jogador que carregava nas costas a missão de decidir clássicos e títulos. Hoje, porém, essa mesma camisa parece ter virado um fardo. Desde a saída de Luka Jovic, no verão europeu, ninguém se atreveu a assumir o número. É a primeira vez em mais de cem anos que o clube inicia a temporada sem dono para uma das camisas mais tradicionais do futebol italiano. A cena que antes era marcada pela disputa dos atacantes para vesti-la virou, agora, um silêncio desconfortável: medo de falhar, peso da história e lembranças recentes de tentativas frustradas.

Esse contraste se torna ainda mais evidente quando lembramos o que representava esse número. No passado, a 9 era um trono: do tempo dos números fixos no futebol até a adoção definitiva da numeração na Serie A em meados dos anos 1990, ser o “nove” significava ser o herói da torcida. Jogadores como Gunnar Nordahl, Altafini, Sormani e Van Basten fizeram dessa camisa um símbolo de glória. Eles marcaram não só gols, mas também a identidade do clube, transformando a 9 em uma instituição. A cada gol, a cada título, a lenda crescia – e a expectativa para o próximo ocupante também.

Luka Jovic, Milan

Dos anos dourados aos tempos de ouro com Weah

Quando avançamos na linha do tempo, percebemos como essa tradição foi construída. Nos anos 1980, Joe Jordan, o escocês apelidado de “tubarão” pela ausência dos dentes, viveu altos e baixos: caiu para a Serie B com o Milan e voltou a subir com o time logo depois.

Depois veio Mark Hateley, que cravou seu nome na história ao decidir um derby contra a Inter com um gol de cabeça que encerrou um jejum de seis anos sem vitórias em clássicos. Era o início do Milan de Berlusconi e Sacchi, e com ele nasceram novas lendas da camisa 9: Pietro Paolo Virdis e, claro, Marco Van Basten. Esses nomes elevaram o número a um status absoluto, marcando gols que renderam scudetti e títulos internacionais.

A lista é tão rica que até jogadores fora do perfil tradicional usaram a 9 em momentos marcantes. Boban, por exemplo, entrou em campo com esse número na final da Champions de 1994 contra o Barcelona, vencida por 4 a 0. Com a numeração fixa implementada em 1995, a camisa 9 encontrou um novo “proprietário” ilustre: George Weah. O liberiano brilhou com gols memoráveis, como o lendário contra o Verona, venceu scudetti e ainda conquistou o Ballon d’Or de 1995. Era a prova de que a tradição seguia viva e que a camisa 9 do Milan ainda era uma das mais desejadas do mundo.

A virada do século e os primeiros sinais de desgaste

Os anos 2000 começaram com uma lembrança agridoce. Gianni Comandini, que marcou apenas dois gols pelo Milan, fez justamente os dois no histórico 6 a 0 sobre a Inter, um jogo que entrou para a memória da torcida. Mas o grande nome dessa fase foi Pippo Inzaghi. Por 11 anos ele honrou a 9, com gols decisivos, inclusive em final de Champions League. Seu faro de gol fez da camisa um símbolo de confiança.

Mas, a partir da temporada 2012/13, algo mudou. A saída de Pato marcou o início de um túnel de instabilidade. Desde então, uma longa lista de atacantes tentou assumir o peso da camisa e fracassou: Matri, Fernando Torres, Destro, Luiz Adriano, Lapadula, André Silva, Higuaín, Piatek, Mandzukic, Giroud e, por último, Jovic. Poucos conseguiram deixar uma marca real; entre todos, apenas Olivier Giroud, em três temporadas, conseguiu interromper a “maldição” com gols pesados, incluindo uma dobradinha em um derby que valeu praticamente um scudetto.

O presente sem dono e o futuro do Milan incerto

Neste verão, o Milan procurou um novo dono para a camisa 9, mas acabou ficando sem opções. Nenhum jogador quis ou teve coragem de assumi-la, e pela primeira vez o número ficou vago. O que antes era sinal de orgulho agora virou um alerta para quem ousar vesti-la. Talvez, no momento, isso seja o melhor para o clube: permitir que o peso histórico esfrie e que um novo nome se prepare para assumi-la com mais confiança no futuro.

Essa pausa também serve como um reflexo para o próprio Milan. A história da camisa 9 é a história dos seus centroavantes, mas também do momento do clube. De grandes craques a apostas frustradas, ela conta um ciclo de glórias, quedas e reconstruções. Hoje, sem um nome para defendê-la, o número simboliza mais do que uma posição em campo: simboliza a busca do Milan por um novo herói capaz de romper a maldição e devolver à 9 o status que ela sempre teve.