Chile, Seleção Chilena
Futebol Copa do Mundo

Chile, um colapso sem fim: fora de três Copas seguidas e números piores que San Marino

O futebol sul-americano sempre teve espaço para surpresas, mas o que acontece com a seleção chilena desde o fim da chamada “Generación Dorada” deixou de ser um simples tropeço para se transformar em um verdadeiro colapso. O Chile, que há menos de uma década erguia duas Copas América consecutivas e colocava medo em qualquer adversário, ficará fora de sua terceira Copa do Mundo seguida – agora a de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, México e Canadá. A Roja, que marcou época com Alexis Sánchez, Arturo Vidal, Claudio Bravo, Gary Medel e Mauricio Isla, não conseguiu realizar a transição para uma nova geração competitiva e paga caro por isso.

Os números recentes explicam melhor do que qualquer análise: desde 2024, a seleção chilena venceu apenas uma partida oficial – desempenho inferior até mesmo ao de San Marino, tradicionalmente considerada a equipe mais fraca da Europa. Para um país que se acostumou a competir em alto nível e que quase eliminou o Brasil em pleno Mineirão no Mundial de 2014, trata-se de um declínio difícil de aceitar.

Chile e um 2024 para esquecer

O ano de 2024 simboliza bem a derrocada chilena. Na Copa América, o time caiu ainda na fase de grupos, somando apenas dois empates e uma derrota. Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, os números foram igualmente constrangedores: quatro derrotas seguidas, um empate e apenas uma vitória – sobre a modesta Venezuela, em novembro de 2024. O saldo geral do ano terminou com três empates, quatro derrotas e só um triunfo.

Enquanto isso, San Marino, conhecido por seus recordes negativos, venceu duas partidas na Nations League – ambas contra Liechtenstein – e ainda conseguiu um empate diante de Gibraltar. O contraste estatístico virou motivo de piada nas redes sociais e ilustrou a gravidade da crise chilena: um gigante continental com números inferiores ao de uma das menores seleções do planeta.

O cenário não melhorou em 2025. Foram mais quatro derrotas e um empate nas partidas oficiais disputadas. Com isso, a Roja chega às vésperas da Copa América 2028 com um retrospecto desastroso e uma necessidade urgente de reconstrução.

Do auge à queda livre

A queda do Chile contrasta com o auge vivido entre 2015 e 2016, quando a equipe conquistou a Copa América no Chile e depois, nos Estados Unidos, a Copa América Centenário, derrotando a Argentina de Lionel Messi nas duas finais. Aquela geração, comandada por Jorge Sampaoli e depois por Juan Antonio Pizzi, era símbolo de intensidade, disciplina tática e personalidade. O ápice veio no Mundial do Brasil, em 2014, quando os chilenos estiveram a um trave de eliminar a seleção anfitriã nas oitavas de final.

Mas a travessia para uma nova era não aconteceu. Pizzi, que dirigiu a equipe entre 2015 e 2017, não conseguiu classificá-la para a Copa de 2018. Seus sucessores – Reinaldo Rueda, Martín Lasarte, Eduardo Berizzo e Nicolás Córdova – tampouco conseguiram estancar o declínio. Sem planejamento de longo prazo e com dificuldades para revelar novos talentos à altura dos medalhões, a Roja se afastou do protagonismo.

Um ataque sem gols e uma defesa vulnerável

O desastre das Eliminatórias para 2026 é sintomático: em 17 partidas, apenas 10 pontos conquistados, com duas vitórias, quatro empates e nada menos que 11 derrotas. O ataque fez míseros nove gols, enquanto a defesa sofreu 27. Alexis Sánchez e Eduardo Vargas até somaram mais de 600 minutos cada nas Eliminatórias, mas não marcaram nenhum gol.

As promessas Dario Osorio e Gonzalo Tapia surgem como esperança para o setor ofensivo, mas ainda estão longe de fazer a diferença. Na defesa, Maripán e Suazo não conseguem garantir solidez, e a equipe sofre para encontrar equilíbrio entre juventude e experiência. A falta de um líder técnico e emocional, como Bravo ou Vidal no auge, deixa o time exposto tanto dentro quanto fora de campo.

O desafio da reconstrução

Ficar fora de três Copas consecutivas é um baque histórico. Depois do quarto lugar na Copa América de 2019 e dos quartos de final em 2021, o Chile caiu já na fase de grupos em 2024, mostrando que o problema não é passageiro. A pressão sobre a federação e sobre os técnicos é enorme, mas sem um plano consistente para desenvolver novos jogadores, o risco é que a Roja siga patinando.

Para 2028, quando a Copa América voltará a ser disputada, a missão é clara: apresentar uma nova geração capaz de recolocar o Chile entre as principais forças do continente. Se a transição não acontecer, o país pode completar um ciclo de 12 anos sem títulos e com uma presença cada vez mais discreta nas grandes competições.

O que antes era uma seleção temida hoje virou um alerta para todos os vizinhos: sem renovação e planejamento, até mesmo uma geração campeã pode se esgotar rapidamente. O Chile precisa se reinventar para não continuar colecionando recordes negativos – inclusive sendo comparado a San Marino – e recuperar o orgulho de um futebol que já foi referência na América do Sul.