Ange Postecoglou, Nottingham Forest
Futebol Premier League

O novo Nottingham Forest de Postecoglou

Ange Postecoglou chegou ao Nottingham Forest com a fama de treinador ousado e amante da posse de bola — e os números já mostram isso. No empate por 1 a 1 com o Burnley, a equipe teve 63,3% de posse, o maior índice em qualquer jogo da Premier League desde o retorno ao torneio em 2022. Para quem acompanhava o Nottingham Forest mais direto e reativo dos últimos anos, foi um choque ver tanta paciência na troca de passes.

E não ficou só na posse. Elliot Anderson completou 98 passes, enquanto Oleksandr Zinchenko, titular pela primeira vez na liga, fez 88. São marcas inéditas para o clube nesse período. Para se ter ideia, ninguém havia chegado a 80 passes certos desde que o Nottingham Forest voltou à Premier League. Pela primeira vez em quatro temporadas, o time ultrapassou a barreira das 500 trocas de bola num jogo, batendo o recorde anterior de 484, estabelecido numa derrota para o Everton na era Steve Cooper.

Passes longos viram sequência curta

Os dados deixam ainda mais evidente a revolução silenciosa. Foram 24 sequências de pelo menos 10 passes contra o Burnley — seis a mais que o recorde anterior. Na última visita ao Turf Moor, contra um Burnley já rebaixado, o Forest não havia registrado nenhuma sequência desse tipo, mesmo vencendo com dois gols de Chris Wood. Desta vez, a história foi outra.

E não é um caso isolado. Já no jogo de estreia de Postecoglou, fora de casa contra o Arsenal, o Nottingham Forest teve 13 sequências longas — um número que entrou no top 12 das 119 partidas do clube desde 2022/23. Isso mostra que não é acaso, é uma mudança de filosofia. O time que era 18º e 19º em métricas de construção lenta agora lidera em “build-up attacks”, que são as jogadas longas que terminam em finalização ou toque dentro da área.

Entre otimismo e cautela

Para os otimistas, é o sinal de que finalmente o Nottingham Forest tem um treinador capaz de potencializar jogadores técnicos como Anderson e Morgan Gibbs-White, dando um passo além do estilo mais direto que marcou a subida do clube. Postecoglou sabe trabalhar com a bola no pé e parece querer tornar o Forest menos previsível.

Já os mais cautelosos lembram que esse mesmo estilo direto e agressivo levou o time a ocupar o terceiro lugar da Premier League até abril da temporada passada. Abrir mão dessa identidade pode custar caro. É um Forest bem diferente agora, e ninguém sabe ao certo se esse caminho vai render pontos suficientes. Até aqui, apesar do domínio territorial, o time ainda não venceu com Postecoglou.

O exemplo do Crystal Palace

O texto da Sky também lembra que outras equipes passaram por mudanças radicais. O Crystal Palace, por exemplo, trocou o drible pelo jogo coletivo. Sob Oliver Glasner, perdeu nomes como Zaha, Olise e Eze — jogadores que colocavam o time entre os melhores em dribles bem-sucedidos em 2021/22 e 2022/23. Agora, o Palace é o último do ranking nesse quesito.

Ainda assim, os resultados aparecem. Os alas viraram protagonistas, como Tyrick Mitchell no gol contra o West Ham, e Jean-Philippe Mateta assumiu o papel de referência ofensiva. O Palace mostra que dá para se reinventar sem perder competitividade, mesmo que a torcida sinta falta dos velhos tempos.

Okafor: o driblador que Leeds precisava

No outro extremo, o Leeds encontrou em Noah Okafor um driblador capaz de mudar jogos. Na vitória por 3 a 1 sobre o Wolves em Molineux, o suíço tentou 14 dribles — 12 só no primeiro tempo — e ainda marcou o terceiro gol. Não é um jogador pronto, apenas seis dribles foram bem-sucedidos, mas sua ousadia trouxe um elemento diferente para um time recém-promovido.

Okafor custou 18 milhões de libras ao Leeds e ainda alterna altos e baixos, mas pode ser o tipo de peça que garante pontos preciosos na luta para se manter na elite. Wolves, sem Cunha, Aït-Nouri e Sarabia, sente falta de jogadores assim. O Leeds pode ter encontrado o seu desequilibrante.

Postecoglou tem uma escolha difícil à frente do Nottingham Forest

Para Postecoglou, o recado está dado. Mudar a cara do Forest é possível — os dados mostram que ele já fez isso. Mas sem vitórias, essa transformação corre o risco de ser vista apenas como estética. O desafio é encontrar o equilíbrio entre controle e efetividade, fazer o time jogar bonito sem perder o poder de fogo que o levou a resultados surpreendentes recentemente.

Se der certo, o Forest pode se tornar um time mais completo e menos dependente de contra-ataques. Se não, pode ficar com a posse e os passes sem transformar isso em triunfos. Como Postecoglou já mostrou no Celtic e no Tottenham, ele não tem medo de mexer em estruturas antigas. Resta saber se, desta vez, o risco vai se pagar em pontos.