Oliver Glasner Crystal Palace
Futebol Premier League

A fase do Crystal Palace em números: como Oliver Glasner transformou os Eagles em um time difícil de ser batido

O Crystal Palace atravessa um momento histórico, talvez o melhor de sua trajetória na Premier League. Desde o fim da última temporada, quando embalou uma sequência de oito jogos sem derrota coroada com o título da FA Cup, o time comandado por Oliver Glasner não parou de surpreender.

No início de 2025-26, a equipe soma nove jogos sem perder, ampliando a invencibilidade para 17 partidas em todas as competições. Caso consiga evitar a derrota diante do Liverpool no próximo fim de semana, rival que já superou na conquista da Community Shield, o Palace igualará a sua maior sequência invicta: 18 jogos, registrada em 1969.

Os feitos do Crystal Palace

Os feitos recentes não se limitam às taças nacionais. O clube alcançou a fase de liga da UEFA Europa Conference League em sua primeira aventura continental, está vivo na Copa da Liga Inglesa e ocupa a quinta posição da Premier League. A leitura fria da tabela já seria suficiente para consolidar o momento como histórico, mas as estatísticas avançadas sugerem algo ainda mais surpreendente.

De acordo com o modelo de “expected points” (xPts) da Opta, que simula os jogos milhares de vezes com base nas chances criadas, o Palace deveria estar na liderança do campeonato. Ou seja, se os resultados refletissem exatamente a qualidade das oportunidades, a equipe de Glasner seria, neste momento, a melhor da liga.

A métrica não é perfeita, pois ignora fases de pressão ofensiva que não terminam em finalização, mas ajuda a revelar o desempenho real das equipes para além da pontuação. O modelo também indica, por exemplo, que a campanha perfeita do Liverpool não é sustentável no longo prazo, já que seus pontos deveriam ser bem menores. No caso do Palace, as projeções reforçam que a boa fase não é acaso: os londrinos estão entregando desempenho de elite.

O time de Oliver Glasner não depende de talentos individuais

O pilar central dessa transformação é a defesa. O Palace sofreu apenas dois gols nas primeiras cinco rodadas, ostentando o melhor sistema defensivo ao lado do Arsenal. Mais impressionante ainda é a solidez do trio Marc Guéhi, Maxence Lacroix e Chris Richards, que juntos iniciaram 19 partidas de Premier League na linha de três zagueiros e garantiram 11 jogos sem sofrer gols. Curiosamente, Guéhi quase deixou o clube rumo ao Liverpool na última janela, mas sua permanência fortaleceu ainda mais um setor que já era referência.

A consistência, no entanto, não se explica apenas por nomes. Glasner conseguiu construir uma equipe que vai além das individualidades. A saída de Eberechi Eze para o Arsenal poderia ter deixado um vazio criativo difícil de preencher, mas o Palace mostrou que funciona como engrenagem coletiva. A estratégia é clara: menos posse de bola (apenas 42,4% em média), linhas de pressão médias em vez de um bloco baixo permanente e ataques em transição com velocidade.

As estatísticas ajudam a ilustrar: é o segundo time que menos pressiona alto, mas ao mesmo tempo não se retranca demais, preferindo ocupar zonas intermediárias para limitar o espaço dos rivais. É um estilo que casa perfeitamente com o perfil do elenco e com a ideia de jogo do treinador austríaco.

Apesar de ser frequentemente caracterizado como uma equipe de contra-ataques, os números revelam nuances. O Palace, até aqui, não foi eficiente em ataques relâmpago — apenas um chute e nenhum gol em transições rápidas —, mas encontra consistência ao chegar ao terço final e pausar as jogadas para tomar decisões melhores.

A produção ofensiva também impressiona: todos os cinco gols sem contar pênaltis surgiram a partir de cruzamentos, incluindo dois em bolas paradas. O time figura entre os que mais geram cuacesnde gol em jogadas de escanteio ou faltas laterais, mas, ao mesmo tempo, aparece em quinto lugar na liga em xG oriundo de lances de bola rolando, à frente de clubes de maior investimento como Chelsea e Tottenham.

Se no ataque o equilíbrio é notável, na defesa chama atenção o controle em campo aberto. Em cinco jogos, o Palace cedeu apenas 1,7 de xG em jogadas com bola rolando, uma média de 0,3 por partida — números de candidato ao G4. A fragilidade, por outro lado, aparece justamente nas bolas paradas defensivas: com 3.0 xG cedidos, a equipe está entre as piores da liga nesse quesito. Ainda assim, trata-se de um problema pontual e possivelmente corrigível com ajustes de posicionamento.

Ao olhar para o retrospecto desde janeiro de 2025, o Crystal Palace soma 42 pontos, quarto melhor desempenho da liga, atrás apenas de Liverpool, Arsenal e Manchester City. A projeção é ainda mais animadora: caso mantenha a média atual, poderá quebrar seu recorde histórico de pontos em um ciclo de 38 partidas. Em temporadas recentes, a pontuação prevista seria suficiente para garantir um lugar no top 6, algo inédito para o clube na era Premier League.

A torcida do Palace pode sonhar

O cenário, portanto, é de otimismo justificado. Não se trata de um acaso momentâneo, mas da consolidação de um projeto que soube transformar limitações financeiras e a perda de peças importantes em força coletiva. Glasner moldou um time pragmático, mas não limitado, que sabe sofrer sem a bola e que se aproveita de cada espaço concedido pelos adversários. A estatística pode não garantir títulos, mas indica que o Palace já atua em nível de equipe europeia.

Diante disso, a invencibilidade em curso e a possibilidade de igualar o recorde histórico de jogos sem derrota são apenas parte da narrativa. O Crystal Palace vive um momento em que a história, a estatística e a tabela convergem para um mesmo ponto: este é um dos melhores períodos do clube em décadas. Se continuará até maio, só o tempo dirá. Mas, pela primeira vez em muito tempo, os torcedores dos Eagles têm motivos concretos para sonhar mais alto do que nunca.

(Foto: Getty Images)