Alexander Volkanovski recuperou o cinturão dos penas ao derrotar Diego Lopes no UFC 314, em abril, e com isso consolidou um retorno triunfal após o período turbulento marcado por derrotas duras para Islam Makhachev e Ilia Topuria. No entanto, poucos meses depois, o cenário da categoria já levanta questionamentos: será que a inatividade do australiano pode custar caro e abrir espaço para que a organização avance com novos protagonistas?
O peso-pena vive um momento de efervescência raro na história da divisão. Enquanto Volkanovski projeta uma defesa apenas em 2026, o ranking se movimenta com força: Movsar Evloev continua invicto e cada vez mais pressionando por uma chance; Yair Rodriguez mantém apelo midiático e já mostrou capacidade de entregar lutas empolgantes; e nomes emergentes como Lerone Murphy, Diego Lopes e Jean Silva carregam narrativas que o UFC sabe explorar em termos de marketing e renovação de público.
O impacto da inatividade
Volkanovski sempre foi reconhecido como um campeão ativo. Em 2022, por exemplo, lutou três vezes em apenas 11 meses, defendendo o título contra Max Holloway e Chan Sung Jung, além de desafiar Makhachev pelo cinturão dos leves. Essa característica o transformou em um dos campeões favoritos dos fãs e, também, em peça valiosa para o UFC, que sempre busca manter seus títulos em circulação.
Mas 2025 caminha para encerrar sem que o australiano tenha nova defesa programada. Mesmo com rumores de um possível card em Sydney, em fevereiro de 2026, a espera soa arriscada. Em um esporte onde narrativas mudam de um evento para outro, ficar tanto tempo fora pode fazer com que a figura do campeão perca relevância diante do avanço dos “prospectos” em atividade.
A sombra dos novos desafiantes
Entre os nomes que mais pressionam Volkanovski está Lerone Murphy, que nocauteou Aaron Pico com uma cotovelada giratória no UFC 319, em um dos momentos mais impactantes do ano. Invicto com cartel de 17-0-1, o inglês derrotou também veteranos como Josh Emmett, Dan Ige e Edson Barboza. Hoje número 4 do ranking, Murphy não esconde a frustração com a possibilidade de ser preterido. “Eles vão me evitar como a peste agora, porque sabem que percebi meu potencial”, escreveu em rede social.
Já Movsar Evloev, muitas vezes apontado como o desafiante mais justo, construiu uma trajetória sólida sem derrotas, com vitórias dominantes sobre Bryce Mitchell e Arnold Allen. Tecnicamente seguro, talvez não tenha o mesmo carisma de Murphy ou Lopes, mas representa o tipo de adversário que pode comprometer a aura do campeão australiano em uma luta de alta exigência tática.
Diego Lopes, por sua vez, ainda que tenha sido derrotado por Volkanovski, saiu valorizado da experiência. O brasileiro conquistou os fãs pela agressividade e pela narrativa de ascensão meteórica após estrear no UFC em 2023. A vitória sobre Brian Ortega o credenciou como estrela em formação.
E não se pode esquecer de Jean Silva, que, com seu estilo explosivo, simboliza a chegada da nova geração brasileira ao peso-pena. Embora ainda precise de vitórias de maior calibre para subir no ranking, é um nome que o UFC certamente ainda pretende trabalhar a médio prazo, mesmo com a derrota para Diego.
O dilema do UFC
Para o UFC, a questão é estratégica. Deixar Volkanovski parado até 2026 pode significar travar o crescimento de uma divisão que tem muito a oferecer em termos de novos protagonistas. Ao mesmo tempo, forçar o campeão a lutar antes de estar pronto poderia comprometer sua saúde e longevidade no topo.
A organização já viveu dilemas semelhantes em outras categorias. No peso-leve, por exemplo, a dominância de Khabib Nurmagomedov limitou oportunidades até sua aposentadoria, enquanto no meio-pesado os hiatos de Jon Jones abriram espaço para que nomes como Daniel Cormier e Jan Błachowicz se consolidassem. O UFC sabe que títulos parados por longos períodos tendem a reduzir o interesse do público.
O risco para Volkanovski
Para Volkanovski, a ameaça não é apenas perder o cinturão dentro do octógono, mas perder relevância fora dele. Ficar inativo enquanto os rivais acumulam nocautes espetaculares e narrativas envolventes pode corroer sua imagem de campeão dominante. O próprio australiano já reconheceu o peso disso ao dizer que pretende lutar “o máximo possível enquanto ainda tem energia para treinar”.
O problema é que o tempo não joga a seu favor. Aos 36 anos, cada pausa prolongada aumenta a chance de retorno difícil contra adversários mais jovens, mais rápidos e com fome de título.