O Spaten Fight Night 2 trazia a dúvida se seria uma luta para valer ou uma réplica da primeira versão, que teve Anderson Silva e Chael Sonnen fazendo uma exibição morna e sem emoção.
Entretanto, o que se viu, foi uma animosidade muito grande entre Wanderlei Silva e Popó, desde as coletivas pré-combate até momento antes da luta propriamente dita. Minutos antes do duelo, Acelino Popó Freitas zombava do oponente.
No ringue, Popó, infinitamente mais técnico e 20 quilos mais leve, bailava e machucava Wanderlei Silva, que não conseguia reagir, tendo ataques lentos, descoordenados e pouco cacoete para o pugilismo. Só que quando Wand percebeu que não daria dentro da regra, começou a dar cabeçadas, tentou joelhada, segurada de cabeça travestida de clinche, cotovelada, transformando a luta em um verdadeiro circo.
A sequência horrível de cabeçadas de Wanderlei fez o árbitro desqualificar o lutador e, além disso, revoltou a equipe de Popó, que invadiu o ringue para xingar o adversário, mas aí a equipe do curitibano, formada por André Dida, Fabrício Werdum e Thor Silva, foi para o confronto e a briga se tornou generalizada.
Dida bateu em Popó, Werdum bateu em todo mundo, o confronto virou briga de rua, mas quem levou a pior foi Wanderlei Silva, agredido primeiro por trás e depois pela frente pelo filho de Popó, que nocauteou o ex-campeão do Pride, fazendo o “Cachorro Louco” sair do evento direto para o hospital.
O pior, tudo isso ao vivo para todo o Brasil na maior emissora do país. Nós, do mundo da luta, apaixonados por artes marciais, que sempre buscamos reconhecimento para o MMA e o Boxe, patrocínio e aumento de interesse do público, levamos este golpe no fígado que doeu muito. Será que agora a Ambev vai querer continuar com esse tipo de evento, vai seguir com os olhos voltados ao mundo dos esportes de combate? Ainda não temos essa resposta, mas acho difícil.
Mas isso não é fruto do acaso, o Spaten Fight Night 2 teve erros desde a concepção que “ajudaram” nesse desfecho deprimente que pudemos assistir.
O Spaten Fight Night 2: Uma série de irresponsabilidades
O Boxe há muitos e muitos anos é dividido em categorias. Neste combate, alem de Popó ter aceitado a luta em cima da hora, ele pesou 73kg, o que o enquadraria no peso médio, enquanto Wanderlei Silva, com 93kg, estaria no peso ponte, o último antes do pesado.

Só essa diferença já inviabilizaria esse combate em qualquer organização séria. Só que isso, somado ao bônus de nocaute, trazia um pouco de querosene a mais para essa fogueira. Digo isso, porque para promover a luta e mostrar que o desfecho seria diferente da primeira edição, a promoção do evento incitou a provocação e discussão entre os atletas, que culminou nas cenas lamentáveis que assistimos.
Outro ponto é a curadoria do evento. Colocar Wanderlei Silva contra Vitor Belfort sob o ponto de vista de marketing era um golaço, mas como esporte, não precisava ser muito especialista para ver que Wand não sabia boxear, mas sabe lutar e não é muito gentil com seus oponentes. Se fosse Belfort, que é bom de boxe, o desfecho poderia ter sido pior, pois a rivalidade é maior e chance de Vitor nocautear seria grande o que também poderia gerar uma confusão.
Ou seja, colocar Wanderlei Silva no evento foi um erro. E não era difícil de prever esse erro. Com a saída de Vitor Belfort, a luta poderia mudar para as regras de MMA e o evento colocar algum rival da categoria de Wand, nas regras em que ele está acostumado, como Quinton Rampage Jackson por exemplo.
E agora, como fica o futuro do evento?
Do ponto de vista regulatório, é possível que autoridades esportivas e órgãos de fiscalização iniciem investigações para apurar responsabilidades, tanto dos envolvidos diretamente na briga quanto da organização.
Se forem identificadas falhas de segurança ou omissão no controle da situação, o evento pode ser multado, ter sua licença suspensa ou enfrentar exigências mais rigorosas para futuras edições. Além disso, existe o risco de que os envolvidos na briga respondam criminalmente por agressão ou lesão corporal, o que agravaria ainda mais a crise.
Outro ponto crítico é o impacto junto a patrocinadores e à mídia. Marcas geralmente evitam se associar a eventos que geram repercussão negativa, especialmente quando envolvem violência fora das regras esportivas. A depender da reação dos patrocinadores, o evento pode sofrer perda de apoio financeiro, o que comprometeria diretamente sua viabilidade.
A Globo, que transmitiu a confusão ao vivo, também pode rever sua parceria, seja exigindo cláusulas de conduta mais rigorosas ou até mesmo rompendo o contrato, caso a reputação do evento não seja recuperada. E, provavelmente, é isso que acontecerá.
A imagem institucional do Spaten Fight Night saiu abalada, o que pode provocar queda de interesse do público e atrair maior pressão por mudanças estruturais. Caso a organização aja de forma rápida, transparente e eficaz, implementando regras mais rígidas, reforçando a segurança e punindo exemplarmente os envolvidos, é possível que o evento continue existindo, mas sob novas condições. Esse seria o cenário mais provável: a manutenção do evento com uma série de ajustes e reposicionamento de imagem.
No entanto, se a resposta for fraca ou demorada, o risco de suspensão temporária ou até cancelamento se torna real. Um colapso institucional, sanções legais, rompimento com a TV e rejeição do público, pode levar à extinção do Spaten Fight Night.
Portanto, apesar de ainda ser cedo para afirmar que o evento vai acabar, é inegável que ele enfrenta uma crise grave. O que vai determinar seu futuro é a capacidade da organização de reagir de forma profissional, assumir responsabilidades, corrigir erros e mostrar ao público e ao mercado que episódios como o da última edição não vão se repetir. Se falhar nisso, o Spaten Fight Night corre sério risco de desaparecer do calendário esportivo nacional.
(Imagem de capa: Reprodução Spaten Fight Night 2)