Enquanto Ilia Topuria reina como novo campeão dos leves e símbolo de uma nova geração europeia, outro georgiano desponta como um dos nomes mais dominantes do UFC: Merab Dvalishvili. Após mais uma vitória convincente sobre Cory Sandhagen no UFC 320, o “Machine” consolidou-se como o principal nome do peso-galo e um dos lutadores mais consistentes de toda a organização.
Agora, a provocação vem do próprio compatriota e amigo Topuria: e se Dvalishvili subisse para o peso-pena e desafiasse o lendário Alexander Volkanovski? A ideia de uma superluta entre dois dos melhores grapplers e wrestlers da atualidade desperta curiosidade — mas também levanta dúvidas. Afinal, Dvalishvili teria realmente chances contra o australiano?
Topuria acredita: “Merab venceria 100%”
Durante entrevista recente ao Betsson Sport, Ilia Topuria foi categórico: “Merab é diferente, não é normal. Eu disse a ele que precisa mudar de categoria, porque ele com certeza conquistaria um segundo cinturão. Eu não tenho dúvidas do que aconteceria nessa luta: Merab venceria.”
A declaração do campeão dos leves não é apenas uma demonstração de patriotismo georgiano. Topuria conhece bem Volkanovski — foi ele quem destronou o australiano, no que muitos consideram uma das performances mais técnicas dos últimos anos. Ele sabe o que é preciso para vencê-lo e, ao ver em Dvalishvili um perfil de intensidade e preparo físico semelhante, acredita que o compatriota teria armas suficientes para causar problemas ao ex-campeão dominante.
Mas a pergunta é: será que isso se sustentaria dentro do octógono?
Volkanovski enfrenta bem grapplers, mas Dvalishvili é diferente
Alexander Volkanovski não é apenas um dos maiores pesos-pena da história; é um dos lutadores mais inteligentes que já competiram no UFC. Seu QI de luta, capacidade de ajuste durante os rounds e equilíbrio entre força e técnica o tornaram um adversário quase impossível de ser dominado no auge.
Mesmo após perder o cinturão para Topuria, Volkanovski rapidamente se reinventou, retomando o título ao vencer Diego Lopes no UFC 314. A vitória mostrou que, mesmo aos 37 anos, ele segue afiado — com movimentação refinada, timing impecável e uma defesa de quedas ainda entre as melhores da organização.
Contra Dvalishvili, o australiano provavelmente enfrentaria o tipo de luta que mais o desafia: um duelo de pressão constante, volume de quedas e ritmo sufocante. Ainda assim, Volkanovski tem demonstrado uma habilidade incrível em lidar com grapplers agressivos. Basta lembrar o que fez contra Chad Mendes e Brian Ortega — ambos especialistas em luta agarrada, que acabaram neutralizados pela versatilidade do campeão.
Por outro lado, Dvalishvili é um caso à parte. Nenhum outro lutador do UFC consegue manter o ritmo e a intensidade do georgiano por cinco rounds. Ele é o líder histórico em tentativas de quedas por luta, com uma média absurda que beira as 15 por combate, e raramente mostra sinais de cansaço.
Contra Sandhagen, um striker de elite, Dvalishvili mostrou que evoluiu também no controle posicional e na transição entre wrestling e ground and pound. Sua capacidade de “esmagar” o adversário contra o cage e anular o jogo em pé é comparável à de Khabib Nurmagomedov, ainda que com menos refinamento técnico, mas com maior volume e resistência.
O problema é que essa estratégia, tão dominante no peso-galo, talvez não tenha o mesmo efeito no peso-pena. Volkanovski é naturalmente mais forte, mais baixo (o que dificulta quedas limpas) e tem centro de gravidade muito estável — algo que já impediu grapplers maiores de controlá-lo.
Fatores técnicos e físicos: onde Dvalishvili pode sofrer
A principal dúvida sobre essa hipotética superluta seria como Dvalishvili lidaria com o tamanho e a força dos penas. Ele nunca competiu acima dos 61 kg, e o corte de peso para os galos ainda é administrável. Subir para 66 kg exigiria ajustes físicos significativos — mais massa, mais poder de absorção de golpes, mas possivelmente perda de velocidade.
Além disso, Volkanovski tem uma das defesas de quedas mais sólidas do UFC, e é excelente em reverter posições. Dvalishvili, que depende do controle no chão, teria dificuldades em manter o australiano preso.
No striking, o georgiano evoluiu, mas ainda está longe da precisão de um Topuria ou até de um Max Holloway. Volkanovski, com seu footwork e volume de golpes, teria vantagem clara em pé — especialmente se conseguir manter a luta no centro do octógono.
Por outro lado, o ritmo pode ser a chave
Mesmo assim, há um cenário em que Dvalishvili poderia surpreender. Se conseguisse impor seu ritmo e levar Volkanovski ao limite do cansaço — algo que quase ninguém fez —, a luta poderia mudar de rumo nos rounds finais. O georgiano tem um “motor” aparentemente infinito, e se o combate se tornasse uma guerra de volume e resistência, ele teria uma chance real de desgastar o australiano.
O problema é chegar até lá: Volkanovski raramente permite que o adversário dite o ritmo. Ele é o tipo de lutador que lê o oponente, ajusta o tempo e neutraliza o jogo adversário antes que o plano se estabeleça.
Ainda assim, o simples fato de Topuria — hoje campeão e um dos nomes mais respeitados do esporte — acreditar na vitória do compatriota mostra o quanto Dvalishvili evoluiu. Ele é, de fato, uma máquina competitiva. E mesmo que nunca suba ao peso-pena, já é um dos lutadores mais temidos e consistentes do UFC.
(Foto: Matt Davies/PxImages)