Na véspera de mais uma final da Copa Libertadores da América — a terceira do Abel Ferreira à frente do Palmeiras desde sua chegada em outubro de 2020 — o cenário não poderia ser mais emblemático. Neste sábado (29), em Lima (Peru), o Verdão enfrenta o Flamengo em busca de mais um título internacional.
Em pouco mais de cinco anos, Abel já ergueu 10 taças que confirmam sua força no clube: entre os destaques estão conquistas expressivas de 2 Libertadores, 2 Brasileiros, da Recopa Sul-Americana, além de torneios nacionais e estaduais — reafirmando a potência do Palmeiras sob seu comando.
Mas o que sustenta esse protagonismo constante? A resposta passa, sobretudo, pela adaptabilidade e pela solidez defensiva, pilares que reciclados jogo após jogo fazem do Palmeiras um concorrente quase sempre presente nas decisões.
Versatilidade tática como resposta aos desafios
Desde 2020, Abel Ferreira demonstrou uma capacidade notável de reinventar seu time, ajustando esquemas e funções conforme as circunstâncias. Um exemplo recente dessa adaptação ocorreu em 2025: insatisfeito com a queda de rendimento de Raphael Veiga, um jogador-chave no seu esquema, ele reconfigurou o sistema sem mudar o desenho base — mantendo o tradicional 4-2-3-1, mas adotando uma postura ofensiva com posse de bola em 3-2-5.
No decorrer da temporada, Abel Ferreira perdeu Estevão, o atual principal jogador da Seleção Brasileira atualmente – o garoto foi vendido ao Chelsea e já se destaca na Liga dos Campeões. Mesmo com a grande baixa, o comandante do Alviverde se adaptou novamente, mudando de formação para o 3-5-2 e potencializando outros atletas, como o meia Felipe Anderson e a dupla de ataque Flaco López e Vitor Roque.
Nesse sentido, é possível dizer que o Palmeiras de Abel não é rígido a ponto de quebrar diante de perdas – muito pelo contrário. Ele se molda: preserva a identidade defensiva e a capacidade ofensiva, mesmo quando o elenco muda. Isso é uma vantagem essencial diante do caótico calendário do futebol brasileiro, com campeonatos sobrepostos, desgaste e pressão constante.
O treinador lusitano, é verdade, não passou imune a esse caos. Depois da queda no Mundial de Clubes e de alguns resultados negativos, como a eliminação na Copa do Brasil para o Corinthians, ele viu parte da torcida pedir sua saída. Com resiliência e seu poder de adaptação, Abel Ferreira soube lidar com o momento e voltou a ser prestigiado na “bolha palmeirense”.
Defesa como base da consistência
Se a adaptabilidade permite o Palmeiras sobreviver — e competir — em diferentes frentes, é a consistência defensiva que o torna perigoso e confiável. Em 2022, por exemplo, o Palmeiras terminou o Campeonato Brasileiro com a melhor defesa: apenas 27 gols sofridos em 38 rodadas — média de 0,71 gol por jogo. Em 2023 e 2024, mesmo com oscilações, o Verdão manteve entre as duas defesas mais eficazes da Série A.
Essa solidez defensiva não é mero acaso: reflete a mentalidade implantada por Abel — em diversos momentos, o lema “baliza a zero” volta como mantra nos treinos e cobranças. Mesmo em 2025, embora os números mostrem uma certa degradação (o clube figura entre as defesas medianas do Brasileirão), o histórico acumulado e a estrutura defensiva continuam sendo referência: 59 gols sofridos em 65 jogos até o momento.
Regularidade e domínio nas fases de grupos
A adaptabilidade e o bom sistema defensivo acarreta em resultados importantíssimos. Com Abel Ferreira, o Palmeiras demonstra excelente regularidade em fases de grupos, especialmente da Libertadores. O clube coleciona campanhas consideráveis: desde 2021, o Verdão terminou consistentemente entre os melhores nas fases iniciais — inclusive sendo o líder em 2022, 2023 e 2025, e segunda melhor equipe em 2021.
Neste ano, por exemplo, o Palmeiras garantiu 100% de aproveitamento na fase de grupos: seis vitórias em seis jogos, com 17 gols marcados e apenas quatro sofridos. Essa consistência não é trivial: terminar em primeiro no grupo confere a vantagem de decidir mata-matas em casa, o que aumenta as chances de avançar e chegar longe — algo que o clube soube aproveitar ao longo da era Abel.
Além disso, no Brasileirão, o time demonstra força contra adversários “menores” ou de menor expressão, garantindo pontos cruciais para manter a regularidade quando os jogos contra grandes rivais não vêm bem. Esse comportamento permite que, mesmo com tropeços pontuais — especialmente contra equipes do chamado “G6” —, o Palmeiras permaneça competitivo pelos títulos nacionais.
Final da Libertadores
O Palmeiras não chega ao momento decisivo da Libertadores em melhores condições que o rival. Após a última rodada do Brasileirão, o Flamengo colocou a mão na taça, ganhando ainda mais confiança para a final continental. No acumulado do ano, o Rubro-Negro também apresenta melhores números defensivos e ofensivos, além de contar com um elenco mais estrelado.
Apesar disso, por todos esses fatores envolvendo Abel Ferreira, o Palmeiras não pode ser tratado como “azarão” na decisão. O conjunto alviverde tem ferramentas de sobra para fazer um grande jogo em Lima e surpreender o Flamengo. Vale lembrar que, na decisão da Libertadores de 2021, os flamenguistas também chegaram como favoritos… Apenas os palmeirenses gostam de recordar daquele duelo.
Foto: Cesar Greco/Palmeiras


