Manchester City, Pep Guardiola
Futebol Premier League

Manchester City: Caos no Cottage expõe lado frágil do time de Guardiola

O Manchester City viveu uma tarde daquelas em Craven Cottage. O time venceu por 5 a 4, num jogo que parecia controlado até virar um pequeno drama nos minutos finais. A atuação ofensiva foi daquelas que assustam qualquer rival, mas o desempenho defensivo contou uma história completamente diferente — e uma história que, sem dúvida, deixa Pep Guardiola com várias preocupações.

O time chegou a abrir 5 a 1 no início do segundo tempo. Erling Haaland marcou seu 100º gol na Premier League — marca alcançada em apenas 111 jogos, algo surreal — enquanto Phil Foden balançou a rede duas vezes, Tijjani Reijnders deixou o dele e Sander Berge acabou desviando contra o próprio patrimônio. Para qualquer observador, parecia a tarde perfeita, um massacre que se encaminhava para outro daqueles placares “mecânicos” típicos do City.

Mas o futebol resolveu mostrar seu lado mais imprevisível. Fulham, empurrado pela entrada de Samuel Chukwueze, encaixou uma reação que deixou a defesa do City completamente perdida. Foram três gols sem resposta, além de uma bola salva em cima da linha nos acréscimos. O jogo que era festa virou susto, e o City só respirou aliviado quando o árbitro finalmente apitou o fim.

Uma vitória que deixa dúvidas

Haaland falou após a partida sobre a beleza do futebol, sobre como um lance perdido ou um vacilo defensivo muda tudo em minutos. Para ele, o jogo representou essa montanha-russa emocional que o esporte pode produzir. E, de fato, do ponto de vista do entretenimento, o duelo foi impecável.

Mas para Guardiola, a sensação é outra. O treinador brincou dizendo que os jogadores “não respeitam mais o técnico”, porque quase o fizeram passar mal no banco depois de quase sofrer uma virada histórica. A verdade é que o City oscilou de forma preocupante, principalmente quando precisou controlar o jogo defensivamente.

O resultado final colocou o City a dois pontos do Arsenal, com chance desse gap voltar a cinco caso os Gunners vençam o Brentford. E essa diferença pode ficar cada vez mais difícil de tirar se o time de Guardiola continuar sofrendo tantos gols.

Números de um jogo completamente fora da curva

A partida em Craven Cottage produziu estatísticas que mostram bem como ela fugiu do normal. Foi o primeiro jogo do Fulham com nove gols na elite desde 1968 e o primeiro em casa desde 1965. Para o City, marcar cinco gols em um jogo não é exatamente novidade — isso já aconteceu 41 vezes sob o comando de Guardiola — mas vencer uma partida de Premier League sofrendo quatro gols? Isso não rolava desde 1957.

O confronto também entrou para um grupo pequeno: foi o sexto jogo do City na Premier League com pelo menos nove gols. Só o Manchester United participou de mais partidas desse tipo.

No papel, parece até uma partida absurda e divertida. Mas dentro das quatro linhas, o alerta está ligado.

A defesa vira ponto de preocupação real para o City

É impossível negar que o City continua com um ataque digno de candidato ao título. Haaland e Foden estão num nível tão alto que praticamente qualquer toque deles perto da área vira ameaça. Contra o Fulham, as primeiras quatro finalizações no alvo resultaram em gol. Um aproveitamento absurdo.

Só que, do outro lado, o problema é evidente. O time está sofrendo gols demais, e isso destoa completamente do padrão das campanhas campeãs que Guardiola construiu.

Enquanto o Arsenal tomou apenas sete gols em 13 rodadas, o City já sofreu 16 em 14 partidas. Em apenas uma das seis temporadas de título com Guardiola o time havia levado tantos gols nesse ponto da competição. Isso não combina com a receita que o clube se acostumou a seguir: solidez atrás, domínio no meio e eficiência no ataque.

E a crítica não vem só de quem observa de fora. Ex-jogadores também têm falado. Clinton Morrison, por exemplo, afirmou que “não dá pra pensar em título defendendo desse jeito”, comparando diretamente com a frieza defensiva mostrada pelo Arsenal nas últimas rodadas. O comentário é simples, mas bate fundo: ninguém espera que o City entregue vantagens como a que quase escapou contra o Fulham.

Por que isso importa tanto para a briga pelo título?

O City pode até compensar muitos defeitos com o talento que tem na frente, mas em um campeonato longo, erros defensivos acumulados cobram um preço. E nessa temporada, o Arsenal parece justamente o oposto: um time que concede poucas chances, controla ritmos e mata jogos com inteligência.

A diferença entre os dois tem passado muito pelo comportamento sem a bola. O City perdeu consistência, algo que era marca registrada, especialmente nas campanhas mais recentes. É como se o time tivesse voltado no tempo para temporadas em que precisava vencer marcando três, quatro ou cinco gols porque não conseguia evitar levar um ou dois do outro lado.

Guardiola sabe que isso não funciona no longo prazo. Para disputar o título até o fim, especialmente contra um Arsenal tão regular, o City precisa reencontrar a solidez que desapareceu.

E agora?

A vitória contra o Fulham valeu três pontos e isso, no fim das contas, é o que mantém o City vivo. Mas o susto serve como alerta. Guardiola não é do tipo que ignora problemas. Vai tentar ajustar posicionamento, recuperar jogadores fisicamente, reorganizar a última linha e diminuir os espaços que o time vem concedendo.

A questão é se isso vai acontecer rápido o bastante para manter o City dentro do alcance do Arsenal — e também evitar que Liverpool, Tottenham ou Aston Villa voltem para a conversa.

O que ficou claro em Craven Cottage é que o time ainda tem força para decidir jogos no ataque, mas precisa desesperadamente de equilíbrio. E enquanto esse equilíbrio não chega, o City vai vivendo no limite entre o espetáculo e o caos.