O atacante Mohamed Salah praticamente selou sua despedida do Liverpool após quase nove anos defendendo o clube. A lenda de Anfield caminha para uma saída melancólica depois de partir para um ataque público contra o técnico Arne Slot, ao ser deixado no banco no empate por 3 a 3 com o Leeds United, no último sábado, pela Premier League. Agora, o egípcio também está fora da partida contra a Internazionale nesta terça-feira (9), às 17h (horário de Brasília), no Giuseppe Meazza, pela UEFA Champions League, como consequência direta do atrito com o treinador.
Foi a terceira vez consecutiva que Salah iniciou no banco, o que o levou a denunciar “promessas descumpridas” e alegar ter sido “abandonado” pela diretoria dos Reds. Mas esse foi apenas o estopim. A verdade é que sua trajetória em Liverpool já caminhava para um desfecho há mais de um ano – e isso estava evidente para quem observava atentamente. Além disso, o atacante vinha apresentando queda de desempenho e enfrentando concorrência pesada, especialmente após as chegadas de Alexander Isak e Hugo Ekitiké, que reduziram drasticamente seu espaço na equipe de Slot.
Mesmo assim, o Liverpool decidiu mantê-lo para a temporada 2024/25, o último ano de seu contrato em Anfield, o que naturalmente alimentou rumores sobre uma possível transferência ao longo de toda a campanha. Para sua honra, Salah não permitiu que isso afetasse seu rendimento. Pelo contrário: protagonizou a temporada individual mais impressionante da história da Premier League, registrando 29 gols e 18 assistências, guiando os Reds ao título sob o comando de Slot após anos trabalhando com Jürgen Klopp.
Contudo, após a vitória por 3 a 2 do Liverpool sobre o Southampton na Premier League, Salah fez declarações bombásticas. “Estamos quase em dezembro e ainda não recebi nenhuma proposta para permanecer no clube”, afirmou à NBC Sports após a partida em St Mary’s. “Provavelmente estou mais fora do que dentro. Estou aqui há muitos anos. Não existe outro clube como este. Mas, no fim das contas, não depende de mim. Estamos em dezembro e ainda não recebi qualquer informação sobre o meu futuro“.
O Liverpool evitou responder publicamente e seguiu adiante, mas a questão contratual virou uma sombra constante. Salah voltou a tocar no assunto depois da goleada por 5 a 0 sobre o West Ham, logo após o Natal. “Estamos muito distantes disso”, disse à Sky Sports quando questionado sobre possíveis avanços para um novo contrato. “Não quero falar abertamente e virar manchete, mas nada mudou. Estou focado no time e espero que conquistemos a Premier League”.
Não se sabe ao certo se Salah usava essas declarações como forma de pressionar o clube a lhe oferecer melhores condições, mas, virando o ano, ele voltou a aparecer publicamente com novos recados, reforçando a necessidade de um acordo. Também deixou no ar uma nova bomba. Perguntado na Sky Sports se acreditava que aquela poderia ser sua última temporada em Liverpool, respondeu: “São meus últimos seis meses. Não houve avanço algum. Estamos longe de qualquer progresso. Agora é esperar para ver o que acontece”.
Nesse período, surgiram informações de que a Liga Saudita estaria disposta a apresentar uma oferta “sem precedentes” para transformá-lo no jogador mais bem pago do mundo, superando o salário anual de 200 milhões de euros que Cristiano Ronaldo recebe no Al-Nassr. Enquanto os rumores cresciam, o Liverpool trabalhava silenciosamente para renovar com o atacante. Em abril, o clube anunciou um novo vínculo de dois anos, contrariando tudo o que Salah havia sugerido meses antes.
Apesar de ter treinado normalmente no domingo com o elenco do Liverpool e na segunda-feira após o desabafo, Salah foi cortado da delegação que viajou para enfrentar a Internazionale pela UEFA Champions League, no Giuseppe Meazza, em Milão. A decisão, tomada pela diretoria — embora com aval de Arne Slot — tinha um objetivo claro: deixar evidente ao egípcio que seria inútil tentar pressionar pela queda do treinador dos Reds, que vem fazendo uma campanha irregular na Premier League, onde ocupa a décima colocação com 23 pontos.
Ainda assim, o clube insiste que a situação não é definitiva. A suspensão é considerada temporária, e os Reds afirmam não estar trabalhando ativamente para vender Salah. O atacante, que ficou no banco pela terceira vez seguida no Liverpool e não entrou em campo no empate com o Leeds United no último fim de semana, perdeu a paciência com Arne Slot. Na zona mista, declarou: “Sempre disse que tenho um bom relacionamento com o treinador. De repente, isso deixou de existir. Não sei o motivo”.

Como Salah foi de ídolo a vilão no Liverpool com Slot?
A transformação de Mohamed Salah — de herói incontestável a protagonista de uma crise aberta — reflete a implosão de uma relação que parecia indestrutível. A chegada de Arne Slot, inicialmente vista como uma oportunidade de potencializar o craque, acabou acelerando um desgaste latente marcado por personalidades fortes, divergências sobre funções em campo e decisões que afetaram diretamente a hierarquia interna.
Nos primeiros meses, Salah seguia como referência técnica e liderança natural. No entanto, à medida que Slot sedimentava um modelo de jogo mais coletivo e menos dependente de individualidades, sua influência começou a ser relativizada. Para a comissão técnica, sinais de declínio físico justificavam reduzir sua centralidade no ataque. Para Salah, acostumado ao status de intocável desde 2017, essa mudança soou como desvalorização.
A tensão ficou evidente quando Slot passou a deixá-lo no banco em jogos de peso, tanto na Champions quanto na Premier League. A mensagem era clara: o treinador reorganizava a hierarquia ofensiva. A reação de Salah, contudo, transformou divergência interna em crise pública. Em vez de discutir internamente, expôs o conflito à imprensa, alegando inexistência de relação com o treinador e afirmando sentir-se “sacrificado” pelo clube.
O desabafo detonou a crise. A diretoria considerou o gesto um ato de indisciplina, e Slot classificou as declarações como ruptura definitiva de confiança. O afastamento do elenco para o jogo seguinte, com justificativa oficial de que era consequência de suas atitudes, deixou explícito que a situação ultrapassara o ponto de retorno.
A quebra entre ídolo e clube — antes inimaginável — tornou-se concreta. A torcida, dividida entre a adoração ao maior artilheiro do século no Liverpool e a necessidade de respaldar o treinador, assistiu à rápida erosão de uma figura lendária. Salah, outrora símbolo de profissionalismo, liderança e gols decisivos, passou a ser visto como fonte de turbulência em um elenco que tenta se remodelar.
Assim, uma das trajetórias mais brilhantes da Premier League chega à reta final sob o peso de conflitos administrativos e emocionais. Não se trata apenas de declínio físico, mas do choque entre o legado de um ídolo e o projeto de renovação do clube. No fim, Salah perdeu mais que a titularidade — perdeu a unanimidade. E, para muitos dentro do próprio Liverpool, transformou-se de herói eterno em antagonista inesperado.

Será que Salah terá mais uma chance no Liverpool?
A grande questão que paira sobre Anfield é simples, mas cheia de implicações: Mohamed Salah ainda pode ter uma nova oportunidade no clube? A resposta está longe de ser definitiva — e depende menos de sua qualidade técnica e mais do ambiente político criado após o rompimento com Arne Slot.
Internamente, há quem acredite que a porta não está totalmente fechada. Salah continua sendo visto como ativo valioso, tanto esportiva quanto comercialmente. Seu peso global permanece enorme, e, mesmo em fase turbulenta, ele segue capaz de decidir jogos. Além disso, não há substituto pronto para assumir seu impacto imediato, o que pesa no cálculo da diretoria.
Por outro lado, a relação com Slot está profundamente desgastada. A quebra de hierarquia causada pelas declarações públicas expôs o treinador, que não está disposto a abrir mão de autoridade apenas pelo nome do jogador. Para o técnico, reconstruir a ordem interna é tão importante quanto manter o desempenho esportivo.
O ponto decisivo pode estar nas mãos do próprio Salah. Se ele demonstrar disposição para reatar a relação e aceitar um papel diferente no elenco, a reconciliação ganha força. O clube, conhecido por valorizar estabilidade emocional, não descarta reintegrá-lo caso exista compromisso mútuo. Uma conversa franca é vista como única via possível para restabelecer a normalidade.
Salah, portanto, não está descartado — mas está longe de garantido. Seu futuro em Liverpool dependerá menos da história que construiu e mais da capacidade de abrir mão de protagonismo em nome do coletivo. Se isso ocorrer, há chance de continuação. Caso contrário, o capítulo final do ídolo já pode ter sido escrito, mesmo que ainda não oficialmente anunciado.
(Foto: Getty Images)