Quando foi confirmado, em janeiro, que Casemiro deixaria o Manchester United ao fim da temporada, muita gente se surpreendeu com o tom da discussão. Ao invés de piadas ou críticas pesadas, o sentimento dominante passou a ser o de perda. O volante brasileiro, que em outro momento parecia descartável, agora era tratado como alguém que faria falta no elenco de Old Trafford.
Isso representa uma virada enorme de percepção. Não faz muito tempo que Casemiro era visto como um dos principais problemas do time. A idade, o ritmo mais baixo e as dificuldades defensivas do United o colocaram no centro das críticas, especialmente em jogos grandes da Premier League.
O exemplo mais marcante aconteceu em maio de 2024, na goleada por 4 a 0 sofrida contra o Crystal Palace, em Selhurst Park. Naquele dia, Casemiro foi duramente atacado por comentaristas ingleses, que chegaram a dizer que ele não tinha mais nível para atuar em alto nível no futebol europeu.
As críticas pesadas e o risco de virar símbolo negativo
Jamie Carragher foi um dos mais duros. O ex-zagueiro do Liverpool afirmou que Casemiro deveria estar vivendo seus últimos jogos no futebol de elite. Pouco antes, Jamie Redknapp já havia ironizado o ritmo do brasileiro, comparando sua atuação a um jogo beneficente. A situação piorou quando imagens de uma câmera acoplada ao árbitro mostraram Casemiro falhando na tentativa de roubar a bola de Michael Olise, lance que terminou em gol e viralizou nas redes sociais.
Internamente, o Manchester United também já pensava em encerrar o ciclo naquele momento. O alto salário pesava muito. Casemiro recebe cerca de 350 mil libras por semana, o maior vencimento do elenco. Para um clube tentando reorganizar suas finanças e sua identidade esportiva, isso virou um ponto sensível.
Assim, o brasileiro caminhava para sair pela porta dos fundos, visto por parte da torcida como um erro de planejamento. Mas o futebol, como sempre, deixou espaço para reviravoltas.
Amorim ajusta o sistema e recupera o brasileiro
Na época a chegada de Ruben Amorim mudou muita coisa em Old Trafford. No início, Casemiro chegou a perder espaço, principalmente porque o treinador português não o via como ideal para atuar em um meio-campo de dois jogadores dentro do seu 3-4-3. As minutagens do volante caíram de forma brusca naquele período.
Aos poucos, porém, Amorim foi adaptando o sistema às características do elenco. Ele entendeu que Casemiro não poderia pressionar alto o tempo todo e ajustou o posicionamento do time para protegê-lo melhor. Em várias fases do jogo, o brasileiro passou a atuar quase como um terceiro zagueiro, enquanto os alas subiam a pressão.
Essa mudança foi fundamental. O Manchester United ficou mais compacto, diminuiu os espaços entre defesa e meio-campo e deixou Casemiro menos exposto às transições rápidas dos adversários. Com isso, seus problemas de mobilidade deixaram de ser tão evidentes.
Menos exposição, mais eficiência coletiva
Os números ajudam a explicar essa evolução. O United passou a usar menos o bloco alto, reduzindo o tempo pressionando perto da área adversária. Ao mesmo tempo, a linha defensiva jogou mais próxima do meio, encurtando o campo. Isso fez com que Casemiro não precisasse cobrir tantos metros em situações de contra-ataque.
Mesmo com uma das menores velocidades máximas entre os meio-campistas da Premier League, o brasileiro voltou a ser competitivo. Ele passou a aparecer mais no lugar certo, no momento certo, usando leitura de jogo e posicionamento, algo que sempre foi sua grande virtude.
Essa reorganização coletiva ajudou não só Casemiro, mas todo o sistema defensivo do Manchester United, que passou a sofrer menos com bolas infiltradas pelo centro.
Importância ofensiva surpreende e muda percepção
Além da melhora defensiva, Casemiro passou a ser decisivo no ataque. Desde fevereiro de 2025, ele participou diretamente de 11 gols em todas as competições, com sete bolas na rede e quatro assistências. Dentro do elenco, só Bruno Fernandes teve mais participações em gols nesse período.
Chamou atenção também sua força aérea. Poucos jogadores da Premier League marcaram mais gols de cabeça do que Casemiro na temporada, o que ajudou o United a se tornar mais eficiente em bolas paradas, algo que vinha sendo um problema nos anos anteriores.
No passe, o brasileiro também seguiu sendo relevante. Mesmo com menos minutos que muitos concorrentes, ele aparece entre os líderes em passes que quebram linhas defensivas. Algumas dessas bolas resultaram diretamente em gols, como a assistência recente para Matheus Cunha contra o Fulham.
Casemiro: de quase descartado a peça-chave do elenco
Essa sequência de boas atuações fez Casemiro sair do fim da fila e virar novamente um nome importante no elenco. Ele passou de alguém atrás de jovens como Toby Collyer na hierarquia para uma referência técnica e mental dentro do grupo comandado por Amorim.
Apesar disso, a decisão de não renovar o contrato parece correta. O Manchester United precisa evitar erros do passado, quando insistiu demais em jogadores veteranos e perdeu o timing ideal de saída. Manter Casemiro por mais tempo poderia ir contra a ideia de renovação e modernização do projeto.
Ao mesmo tempo, sua despedida acontece no momento certo. Casemiro não sai como um problema, mas como alguém que superou críticas, se reinventou e voltou a ser útil em alto nível.
Fim de ciclo positivo para todos os lados
No balanço final, a passagem de Casemiro por Old Trafford termina de forma positiva. Ele teve altos e baixos, enfrentou desconfiança, virou alvo de piadas, mas respondeu dentro de campo quando muitos já o davam como acabado.
O Manchester United segue em frente sem o peso de um contrato alto e sem a sensação de ter errado feio. Casemiro, por sua vez, deixa o clube com a reputação recuperada, respeito da torcida e até críticos revendo discursos antigos.
Em um clube acostumado a errar o tempo das decisões, essa história acaba sendo rara. Desta vez, jogador e instituição parecem ter acertado juntos o momento de encerrar o capítulo.