O Tottenham apertou o botão vermelho. Thomas Frank foi demitido após apenas 38 jogos no comando, deixando os Spurs perigosamente perto da zona de rebaixamento. A paciência acabou numa temporada em que o time somou míseros 1,12 ponto por jogo na Premier League, o pior índice entre todos os técnicos da história do clube na competição. Para piorar, o West Ham, que perdeu só uma das últimas cinco partidas, está apenas cinco pontos atrás, ocupando a última vaga do Z-3.
O dinamarquês chegou no verão como substituto de Ange Postecoglou, respaldado pelo excelente trabalho no Brentford: acesso à Premier League e consolidação sem sustos, simplesmente batia de frente contra os principais times do Campeonato Inglês, com um elenco longe de ter os mesmos investimentos. Mas o roteiro não se repetiu no Tottenham Hotspur Stadium. Agora, com a corda no pescoço e a temporada pedindo reação imediata, a pergunta é inevitável: quem vem aí?
Abaixo, dividimos os nomes em três prateleiras, sonhos, escolhas realistas e aqueles “plot twists” que fariam a torcida olhar duas vezes.
Tottenham e suas infinitas realidades
Nome dos sonhos
Mauricio Pochettino
Voltar com o ex é sempre uma caso a parte, mas Pochettino ainda mora no coração de muita gente no norte de Londres. Entre 2014 e 2019, colocou o Tottenham no top-4 em quatro de cinco temporadas completas (algo raríssimo na história recente do clube) e levou o time à final da Champions em 2019. Média de 1,89 ponto por jogo, algo que dá para considerar como sólido.
Hoje, comanda a seleção dos EUA rumo à Copa do Mundo. Um retorno imediato parece improvável, pra não dizer impossível, porque o foco do argentino é fazer sucesso “em casa” no mundial. Mas se a diretoria topar um interino até o verão, Pochettino voltaria como o “salvador” que a torcida canta até hoje, a dúvida é como os Spurs estariam até ver o retorno dele.
Xabi Alonso
O cargo no Real Madrid é cruel com qualquer um, e Xabi saiu de lá com 71% de vitórias (24 em 34 jogos). Não é pouca coisa. Antes, fez história com o Bayer Leverkusen no título invicto da Bundesliga 2023-24. Entretanto, não conseguiu conviver com a pressão do vestiário na equipe merengue, algo que dificilmente pode acontecer no Tottenham…
Taticamente, é organização pura: papéis definidos, estrutura, flexibilidade (já alternou entre linha de cinco e quatro). No Spurs, teria menos egos para administrar e um ambiente mais “projeto”. É difícil? Sim. Mas sonhar é de graça, sem contar que estaria numa equipe com capacidade de investir, e dar mais vida a um projeto com a cara do espanhol.
Andoni Iraola
Antigo alvo do clube, Iraola transformou o Bournemouth com pressão alta e verticalidade, sendo inseridos na veia. Bateu recordes de pontos na PL e, mesmo após perder peças importantes, tem conseguido manter o time competitivo (56 pontos em 2024-25 e dois pontos do top-6).
Seu estilo é intenso e direto, mais próximo do modelo atual do que da construção mais lenta de Postecoglou. A dúvida é a transição para um clube maior, com cobrança diária por protagonismo com a bola. Ainda assim, seria um baita golpe de mercado. Se trataria das melhores opções “disponíveis”, porém, a situação não é das mais fáceis para trilhar esse caminho, ainda mais depois do fracasso de Thomas Frank.
Enzo Maresca
Passagem por rival sempre pesa, mas o italiano fez um trabalho consistente no Chelsea: top-4, campeão da Conference League e título do Mundial de Clubes. A média de 1,74 ponto por jogo na Premier não é espetacular, mas seria um upgrade considerável sobre os 1,12 de Frank.
Saiu por divergências com a diretoria. Se a ponte do Tottenham e Blues for atravessada de novo, daria pano pra manga e debate nas arquibancadas.
Opções realistas
Roberto De Zerbi
De saída do Marseille por “acordo mútuo”, o italiano já conhece a Premier League (Brighton) e entrega futebol dominante: 61,1% de posse média e volume alto de xG sem pênaltis. Pressão alta, saída curta, coragem com a bola. É o que parte da torcida pede. Depois de um certo tempo com Frank, o Tottenham já parece estar vivendo mais essa realidade de ser reativo, algo que a torcida não gosta nenhum pouco.
Se a ideia for retomar o controle do jogo e dar identidade clara, De Zerbi encaixa, pode ter dificuldades, mas vai fazer os Spurs jogarem um futebol mais bonito.
Oliver Glasner
No Crystal Palace, quebrou recorde de pontos e conquistou a FA Cup 2025, o primeiro grande troféu do clube, batendo o Manchester City na final. Usa muito linha de três e transições rápidas. Oscilou recentemente por lesões e calendário, mas o trabalho geral é positivo. Contrato acabando, negociação facilitaria. A questão: não seria “mais do mesmo” em termos de proposta reativa?
Ruben Amorim
Saiu do Manchester United pela portas dos fundos em meio a ruídos com a hierarquia, mas deixou evolução ofensiva (xG sem pênalti subiu para 1,6 por jogo antes da saída). Seu 3-4-3 poderia casar melhor com os laterais do Spurs do que casou em Old Trafford.
Está livre, tem algo a provar e toparia o desafio. Risco? Sim. Potencial de impacto? Também. Basta saber o que o Tottenham está planejando para o futuro, se gostaria de terminar calmamente a Premier League, ou quer ir com tudo de novo, porque ainda conta com uma vaga direta na Champions League, após ter terminado a fase de grupos entre os oito melhores times.
John Heitinga
Interino é sempre solução de emergência. Heitinga chegou como assistente e já treinou o Ajax, experiência curta e turbulenta (5 vitórias em 11 jogos na Eredivisie; campanha ruim na Champions). Em luta contra o rebaixamento, apostar num nome ainda “verde” é ousado demais?
O que dá força para ele é o momento de Michael Carrick, apesar de ter feito trabalhos medianos na Championship, tem conseguido brilhar com o Manchester United. Será que as coisas andariam da mesma forma no Tottenham?
Plot twists
Robbie Keane
Ídolo eterno (100+ gols pelo clube), campeão em Israel e Hungria recentemente. No Ferencváros, desde janeiro de 2025, ninguém somou mais vitórias (22) ou pontos (75) que seu time. Ainda levou o clube aos playoffs da Europa League, batendo Salzburg e Rangers no caminho.
Coração diria sim. Razão pediria calma, sobrando nas mãos do Tottenham saber o caminho que deseja seguir.
Kieran McKenna
Ex-base do Tottenham, levou o Ipswich de League One à Premier com dois acessos seguidos. Caiu depois (0,58 ponto por jogo na elite), mas é treinador de ideias fortes e crescimento comprovado. Desde que assumiu o Ipswich, só Guardiola, Arteta e Dave Challinor venceram mais jogos nas quatro primeiras divisões.
É “curveball”? Sim. É loucura? Dá pra dizer que é, mas até certo ponto também.
Ange Postecoglou
A grama do vizinho nem sempre é mais verde pelo o que parece. Ange entregou a Europa League e um título grande após 17 anos de jejum, mas pagou pela campanha terrível na liga (17º). Hoje, o time não está muito melhor e sem troféus no horizonte.
Seria o retorno mais caótico da história recente? Talvez. Mas no Tottenham, caos nunca foi exatamente novidade, ainda mais depois de Harry Kane ter saído, então, todos os mundos são imagináveis, sem contar que, poderia ser uma carta na manga para não ver Cristian Romero deixar o time ao término desta temporada.
O que o Spurs precisa agora?
Mais do que nome, o Tottenham precisa de direção, se encontra completamente sem rumo, com atuações fracas na Premier League, mas sólidas na Champions League, isso que é um time copeiro. A luta contra o rebaixamento é real, o elenco sofre com lesões e a identidade do time está em debate. A escolha vai dizer muito sobre o que a diretoria enxerga: reconstrução paciente, choque imediato ou aposta emocional.
Uma coisa é certa: o próximo técnico não terá tempo para testes ou um projeto com a sua cara de imediato. No norte de Londres, a temporada já está no modo “urgente”.
E aí, Tottenham: sonho grande, passo seguro ou carta fora do baralho?
Foto: Getty Images