Santos x Velo Clube
Futebol

Santos volta a mostrar problemas da temporada, mas mudança de atitude ajuda equipe a melhorar

O Santos deu, enfim, um sinal concreto de reação em 2026. A goleada por 6 a 0 sobre o Velo Clube, que garantiu a classificação às quartas de final do Campeonato Paulista, foi construída com autoridade e intensidade raramente vistas na temporada até aqui.

Mais do que o placar elástico, o que chamou atenção foi a postura: o Santos foi ativo do início ao fim, agressivo na pressão, vertical nas transições ofensivas e dominante territorialmente. Ainda assim, por trás da noite de gala na Vila Belmiro, permanecem problemas estruturais que exigem atenção, sobretudo a exposição dos volantes e a vulnerabilidade na transição defensiva.

Santos responde aos protestos da torcida com mudança de atitude

A partida foi precedida por protestos da torcida contra a diretoria, um termômetro da insatisfação acumulada nas dez rodadas anteriores. O ambiente era de cobrança explícita. Uma eventual eliminação poderia aprofundar a crise política e esportiva. Em campo, a resposta veio com intensidade rara. Logo nos primeiros minutos, o Santos adiantou linhas, encurtou espaços e sufocou o adversário. Aos 22 minutos, já vencia por 3 a 0, resultado que praticamente selou o confronto ainda no primeiro tempo.

As mudanças promovidas por Juan Pablo Vojvoda tiveram impacto direto na dinâmica coletiva. A entrada de Gabigol trouxe mobilidade e agressividade ao setor ofensivo. Atuando como centroavante móvel, ele não apenas marcou em cobrança de escanteio, como também participou da construção das jogadas e pressionou a saída de bola adversária. Sua movimentação abriu espaços para infiltrações de meias e pontas, algo que o time vinha tendo dificuldade para executar.

Willian Arão, por sua vez, ofereceu mais qualidade na primeira fase de construção. Com melhor leitura posicional, ajudou a organizar a saída de bola e deu maior equilíbrio à equipe. A defesa, que vinha sendo alvo constante de críticas, também teve atuação mais segura, muito em função da postura coletiva de marcação adiantada, que reduziu o número de ataques sustentados do Velo Clube.

No segundo tempo, a entrada de Neymar elevou ainda mais o nível técnico. O camisa 10 mostrou estar fisicamente recuperado, buscou o jogo, driblou, acelerou e participou ativamente das ações ofensivas, ainda que tenha desperdiçado uma chance clara de gol. Sua presença muda a relação do time com a bola: o Santos passa a ter alguém capaz de romper linhas em jogadas individuais, quebrando sistemas defensivos mais fechados. Gabriel Menino e Benjamín Rollheiser também aproveitaram o contexto favorável para ganhar confiança e protagonismo.

O Santos foi mais ativo em todos os fundamentos do jogo. Recuperou bolas no campo ofensivo, aumentou o número de finalizações, teve mais presença na área adversária e mostrou maior coordenação na pressão pós-perda. A equipe, que em outras rodadas parecia reativa e dispersa, apresentou intensidade competitiva do primeiro ao último minuto. A mudança de atitude foi clara e, sobretudo, necessária.

Problemas voltam a aparecer

Entretanto, mesmo com a goleada, os problemas táticos não desapareceram. A principal fragilidade segue sendo a exposição dos volantes no meio-campo. Em diversas situações, a pressão alta não foi sincronizada, o que abriu espaços centrais quando o adversário conseguia superar a primeira linha de marcação. Os volantes, muitas vezes, ficaram em inferioridade numérica ou distantes da primeira linha de pressão, gerando campo aberto para infiltrações.

A transição defensiva continua sendo um ponto crítico. Quando perde a bola no ataque, o Santos ainda apresenta lentidão na recomposição. Laterais projetados simultaneamente e meias avançados deixam o setor central desprotegido. Contra o Velo Clube, essa fragilidade não foi explorada com eficiência. Contra adversários mais organizados e tecnicamente superiores, o risco é considerável.

Há também uma questão estrutural relacionada ao espaçamento entre linhas. Em momentos de maior empolgação ofensiva, a equipe se estica demais, criando uma distância excessiva entre defesa e ataque. Esse desequilíbrio compromete a compactação, elemento fundamental para manter controle territorial da partida.

Outro ponto que merece análise é a dependência de talento individual para acelerar o jogo. Embora a movimentação tenha melhorado, o Santos ainda carece de mecanismos coletivos consolidados para controlar partidas em diferentes cenários, seja administrando vantagem, seja reagindo a adversidades. A goleada traz confiança, mas não substitui ajustes estratégicos necessários para sustentar regularidade.

Santos tem testes importantes para a sua evolução

O próximo desafio, contra o Grêmio Novorizontino, fora de casa, será o teste real dessa evolução. Em confronto único, a margem para erro diminui. Diferentemente do Velo Clube, o Novorizontino apresenta organização tática consistente e capacidade de explorar transições rápidas, justamente o ponto vulnerável do Santos.

A vitória por 6 a 0 funciona para o emocional. O elenco ganha moral, a torcida recupera parte da confiança e a comissão técnica encontra argumentos para sustentar suas escolhas. No entanto, a temporada não será definida por uma atuação isolada, mas pela capacidade de transformar intensidade episódica em consistência estrutural.

O Santos mostrou que pode ser protagonista, agressivo e dominante. Mostrou também que ainda convive com problemas táticos que, se não corrigidos, podem comprometer objetivos maiores. A mudança de atitude foi evidente e representou avanço importante. Agora, o desafio é transformar essa energia em equilíbrio coletivo — protegendo melhor seus volantes, ajustando a transição defensiva e encontrando estabilidade entre ataque e defesa.

Se conseguir alinhar intensidade com organização, o Peixe pode, de fato, reencontrar o caminho competitivo em 2026. Caso contrário, a goleada será lembrada apenas como um lampejo em meio a uma temporada instável.

(Foto: Reinaldo Campos/Santos)