Unai Emery precisa ganhar um troféu para ser considerado um “grande” da história recente do Aston Villa? A pergunta começou tímida, quase como quem não quer parecer ingrato. Mas agora já está nos debates de rádio, nos fóruns e nas arquibancadas de Villa Park, colocando uma pulga na orelha dos torcedores, e neste caso, fazendo todos refletirem.
A discussão ganhou força depois de mais um capítulo de uma temporada que pode terminar histórica, ou frustrante, dependendo do desfecho. A eliminação na FA Cup doeu, claro. Mas dentro do clube há uma hierarquia clara: a Premier League está no topo das prioridades. E, logo atrás, a caminhada europeia, com o Villa apontado como favorito na UEFA Europa League, obviamente um lugar que Unai Emery tem o costume de terminar em primeiro, são quatro títulos até o momento.
Então a pergunta fica ainda mais interessante: o que realmente define grandeza?
O argumento do “não precisa”
Boa parte da torcida parece convicta: “Obviamente que não”. Não, Emery não precisa levantar uma taça para já ser visto como um dos grandes da história do Aston Villa.
David, torcedor de 48 anos, foi direto: são os melhores tempos que ele consegue lembrar acompanhando o clube. E olha que ele viveu eras como as de Ron Atkinson, Martin O’Neill e John Gregory. Segundo ele, o Villa hoje compete de igual para igual com gigantes, joga competições europeias com regularidade e fez tudo isso sem investimentos extravagantes.
E isso pesa. Estamos falando de algo que não aconteceu agora, neste ano, é um projeto interessantíssimo de Unai Emery, que já contou com alguns rostos de líderes, mas sempre continuando a progredir e crescer.
Antes de Emery chegar, o Villa ainda buscava estabilidade após anos turbulentos. Subiu da Championship, lutou na parte de baixo da tabela sob Dean Smith e depois viveu um período inconsistente com Steven Gerrard. Unai Emery assumiu basicamente a mesma base de elenco e transformou o time em candidato real a estar na próxima Champions League.
Chris também reforça esse ponto: terminar no top-4 da Premier League, mesmo com metade do time titular lesionado em vários momentos da temporada, já seria um feito gigantesco. Um título europeu? A cereja do bolo.
Martyn foi ainda mais enfático: existem treinadores que ganharam troféus em outros clubes sem deixar metade do impacto que Unai Emery já deixou no Villa. Para ele, a transformação estrutural e emocional do clube pesa tanto quanto uma medalha. E convenhamos: impacto é algo que não se mede só com metal.
O argumento do “precisa, sim”
Mas há o outro lado, e ele não é pequeno.
Dylan representa essa corrente: para ser chamado de “ótimo”, precisa levantar algo. Se vier a Europa League, o debate acaba. Se não vier, fica a sensação de que faltou o capítulo final, e é claro que dá para colocar a realidade do Tottenham nesta conversa, uma equipe sem tantos ativos e tempo, conseguiu levar para casa o título com Ange Postecoglou, rendendo a ele no final das contas, uma demissão, pelo seu trabalho na Premier League.
Darren lembra que, segundo o livro Rise of the Villans, de Guillem Balague, o próprio Emery é movido por troféus. Ele quer ganhar. Ele vive para competir. E isso conversa diretamente com a mentalidade da torcida. E aqui está o ponto delicado: faz quase 30 anos que o Aston Villa não conquista um grande troféu. Tirando o acesso via play-off da Championship e a InterToto Cup, bons momentos, mas de outra escala, a sala de troféus está em jejum pesado.
Durante esse período, mesmo nos picos sob Gregory ou O’Neill, o clube não parecia tão consistente quanto agora. Então a pergunta volta: se não ganhar agora, quando?
A temporada que pode mudar tudo
Apesar da eliminação na FA Cup, o cenário geral ainda é promissor. O Villa segue muito bem posicionado para buscar vaga na próxima Champions League, algo que, em agosto, parecia ambicioso demais.
Na Europa League, começou como favorito e confirmou essa expectativa na primeira fase. Claro, houve tropeços recentes. A equipe andou flertando com o perigo em alguns jogos, contou com certa dose de sorte antes do erro de Marco Bizot contra o Newcastle e ainda enfrenta o problema físico recorrente de Emi Martínez.
Mas o potencial está lá. Mesmo com lesões constantes, o Villa continua competitivo. Continua organizado. Continua acreditando. E isso tem assinatura clara.
Grandeza é troféu ou transformação?
Talvez a pergunta esteja mal formulada. Talvez não seja “precisa ganhar?”, mas sim “como queremos medir grandeza?”.
Se for por transformação estrutural, identidade de jogo, mentalidade competitiva e reconexão com a torcida, Unai Emery já carimbou seu nome. Ele elevou o padrão interno do clube. Se for por história imortalizada em fotos com taça levantada, aí ainda falta a imagem icônica.
E é curioso: existe um sentimento quase culposo entre alguns torcedores. Como se exigir um título fosse falta de gratidão. Mas não é. Pode ser apenas ambição. Thrills, noites mágicas na Europa e campanhas memoráveis alimentam a paixão. Mas o que sela uma era é algo que você pode colocar na prateleira e limpar a poeira anos depois.
E o que pensa Emery?
Ele não precisa que ninguém o defenda. Seu currículo fala alto, especialmente em competições europeias. Mas é difícil imaginar que ele não esteja obcecado por dar esse passo final no Villa. Porque técnicos desse nível não trabalham apenas por estabilidade. Trabalham por legado, por essas e outras, que investidas de equipes maiores não seriam capazes de colocar um ponto final em seu projeto.
Anos no futuro, é possível que os torcedores olhem para este período como uma era dourada independentemente de troféu. Mas também é verdade que uma única conquista pode transformar um “grande trabalho” numa “era histórica”. No fim, talvez a resposta seja simples e complexa ao mesmo tempo.
Emery já mudou o Aston Villa. Mas, no futebol, a eternidade quase sempre vem com medalha no peito.
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