Enfrentar 4.090 metros acima do nível do mar nunca é tarefa simples. Em Potosí, o Botafogo sentiu os efeitos da altitude, mas saiu de campo com a sensação ambígua de que poderia ter voltado ao Brasil com resultado melhor. Na noite desta quarta-feira, o Glorioso foi derrotado por 1 a 0 pelo Nacional Potosi, na ida da eliminatória da Libertadores, e agora precisará reverter a desvantagem mínima no estádio Nilton Santos.
Dadas as circunstâncias, o placar é administrável. O desempenho, porém, deixa claro que o time carioca desperdiçou oportunidades importantes e poderia ter encaminhado a classificação mesmo em condições adversas.
O jogo
Como era esperado, a altitude foi fator determinante no ritmo do jogo. A bola corre mais rápida, o ar rarefeito compromete a recuperação física e qualquer erro de concentração tende a ser ampliado. Ainda assim, o Botafogo conseguiu sofrer menos do que muitos projetavam nos primeiros 45 minutos.
O Nacional teve maior posse de bola e controle territorial, mas mostrou limitações técnicas evidentes. Faltou criatividade e qualidade no último passe para transformar domínio em pressão real. A principal chance boliviana no primeiro tempo veio em bola alçada na área, quando Baldomar desviou e acertou a trave.
No mais, o Botafogo conseguiu manter linhas compactas e explorar os espaços deixados pelo adversário. Quando tinha fôlego para acelerar, encontrava campo aberto para transições rápidas.
A melhor oportunidade da etapa inicial foi do próprio Botafogo. Em lançamento preciso de Barboza, Matheus Martins arrancou ainda antes do meio-campo, venceu na velocidade e saiu cara a cara com o goleiro. A finalização, porém, saiu para fora. Um erro que simbolizou a noite alvinegra: criação eficiente, execução falha.
Mesmo limitado fisicamente, o time de Martín Anselmi mostrou organização tática e conseguiu chegar com relativa facilidade ao último terço. Faltou, no entanto, capricho na definição.
Em jogos de mata-mata continental, especialmente fora de casa, oportunidades como essa costumam ser decisivas.
Se o primeiro tempo terminou equilibrado, o segundo começou da pior forma possível para o Botafogo. Logo no primeiro minuto, Rojas levantou bola da esquerda e encontrou Baldomar, que testou firme na primeira trave para abrir o placar.
O gol expôs uma fragilidade defensiva pelo alto e mudou completamente a dinâmica da partida. O Nacional ganhou confiança, enquanto o Botafogo precisou se lançar mais ao ataque, mesmo sob desgaste físico evidente.
A resposta alvinegra foi quase imediata. Após boa jogada pela direita, Vitinho invadiu a área e cruzou rasteiro para Montoro. Com o gol aberto, praticamente sem goleiro, o atacante conseguiu acertar a trave. Um dos lances mais inacreditáveis da temporada até aqui.
O empate naquele momento teria mudado o panorama da eliminatória. Em vez disso, manteve o Botafogo em desvantagem e deu novo ânimo aos bolivianos.
Pouco depois, o Nacional chegou a ampliar em chute cruzado de Restrepo, mas a bola desviou em Álvarez, que estava impedido, e o gol foi corretamente anulado. O susto serviu como alerta adicional.
Nos minutos finais, o Botafogo ainda tentou pressionar. Alex Telles levou perigo em cobrança de falta, mas a equipe já demonstrava sinais claros de desgaste físico. A altitude cobra seu preço, especialmente quando o jogo exige transições constantes.
O Nacional, mesmo com limitações técnicas, conseguiu administrar o resultado até o apito final. O 1 a 0 foi comemorado como vantagem importante pelos bolivianos, mas longe de ser decisiva.
Botafogo tem resultado administrável, mas execução precisa melhorar
O saldo da noite em Potosí é ambíguo para o Botafogo. Por um lado, a derrota mínima mantém o confronto totalmente aberto. No Nilton Santos, com apoio da torcida e em condições normais, o time tem totais condições de reverter o placar.
Por outro, o desempenho ofensivo deixa lições claras. O Botafogo criou as melhores chances do jogo, especialmente no primeiro tempo, e não soube convertê-las. Em competições continentais, eficiência é fator determinante.
A organização defensiva foi razoável, mas o gol sofrido logo no início do segundo tempo evidencia a necessidade de maior concentração em bolas aéreas, ponto que pode ser explorado novamente no duelo de volta.
A eliminatória segue viva. O Botafogo precisará de postura agressiva desde o início no jogo de volta, pressionando, impondo ritmo e evitando que o Nacional se sinta confortável em explorar contra-ataques.
A diferença é mínima. A confiança, apesar do revés, permanece intacta. Se conseguir repetir a criação ofensiva apresentada na Bolívia, e, desta vez, caprichar nas finalizações, o Glorioso tem tudo para transformar a desvantagem em classificação.
Em Potosí, a altitude castigou. No Rio de Janeiro, o Botafogo terá a chance de mostrar que o sonho continental segue respirando, agora ao nível do mar.
(Foto: Staff Images/CONMEBOL)