Quando o técnico do Brentford da temporada passada, Thomas Frank deixou o clube rumo a Londres para assumir o Tottenham, muita gente já começou a preparar o roteiro do desastre, como se a mágica tivesse acabado, da mesma forma como se o maestro deixasse a orquestra. “Agora a conta chega”, diziam. “Sem ele, o time cai.” No caso, estavam todos errados, e a realidade não ocorreu desta forma.
O Brentford fez o que tem feito há mais de uma década: escolheu alguém pouco badalado, bancou a decisão e seguiu o plano. O nome da vez? Keith Andrews, até então visto por muitos como “apenas” um membro da comissão técnica. Resultado: sétimo lugar na Premier League e com uma campanha sólida na FA Cup. Nada mal para quem era apontado como candidato ao rebaixamento.
A pergunta que fica é simples e direta: como o Brentford continua acertando tanto?
Um clube que confia no próprio método
Sob a liderança do proprietário Matthew Benham, o Brentford construiu uma reputação quase cult no futebol inglês. O clube é conhecido por sua abordagem baseada em dados, decisões frias e planejamento estratégico de longo prazo. Nada de agir por impulso ou contratar o “nome da moda” para agradar a torcida, sem contar que, se seguisse esses termos, teria problemas financeiros, procura ter algo mais inteligente e controlado.
Quando Andrews foi promovido, houve desconfiança externa. Internamente? Quase zero pânico, simplesmente mais um início estava pela frente. Ele já estava lá. Conhecia o elenco, entendia o modelo, sabia como a engrenagem funcionava. E, talvez o mais importante: não chegou querendo reinventar a roda.
No Brentford, o técnico não é um rockstar. Ele é parte de uma estrutura maior. Uma peça importante, claro, mas não o centro do universo. Apesar da saída de algumas peças importantíssimas, os Bees não pensaram duas vezes, e moldaram mais nomes, conseguiram mais peças, sendo esse, um dos principais pontos desta bela fórmula.
A linha do tempo dos “desconhecidos” que deram certo
Se olharmos os últimos 15 anos, o histórico impressiona. Foram apenas seis técnicos permanentes. Em um cenário onde clubes trocam de treinador como quem troca de camisa, isso já diz muito. Lá atrás, Uwe Rosler recebeu sua primeira grande chance no futebol inglês e levou o time a brigar por acesso. Depois veio Mark Warburton, outro nome sem histórico de elite, que subiu o time para a Championship.
Houve um tropeço com Marinus Dijkhuizen, mas o clube agiu rápido. Sem drama, sem novela mexicana. Errou? Corrige e segue. Depois apareceu Dean Smith, que consolidou o Brentford como força competitiva na segunda divisão antes de sair rumo à Premier League. E, claro, Thomas Frank, que conquistou o acesso histórico em 2020-21 e estabilizou o clube na elite por sete temporadas.
Agora, com Andrews, a história parece se repetir. Novo nome, pouca experiência como número um, mas total alinhamento com a filosofia da casa.
Continuidade acima de ego
Talvez o grande segredo esteja justamente aí: continuidade, tempo para trabalhar. É muito comum ver treinadores tendo seu tempo encerrado antes do esperado, ou melhor, assinando vínculo de apenas um ano. Enquanto isso, os jogadores contam com ofertas de quatro ou cinco anos, a depender, colocando algumas dúvidas nessa realidade.
O Brentford não quer um técnico que chegue dizendo “agora vai ser do meu jeito”. O modelo já existe. Já deu certo. O treinador precisa potencializar o sistema, não desmontá-lo, se possível, melhorá-lo, mas nada muito além disso não.
Compare isso com o que acontece no Tottenham. Em poucos anos passaram por ali técnicos com estilos completamente diferentes: Ange Postecoglou, Antonio Conte, Nuno Espirito Santo e Jose Mourinho. Cada um com ideias próprias, filosofias distintas e exigências específicas.
Fica a dúvida: será que todos falharam individualmente ou o ambiente nunca ofereceu estabilidade suficiente? Enquanto isso, o Brentford mantém o rumo. Não tenta ser algo que não é. Não promete títulos europeus da noite para o dia. A expectativa é clara: competir, evoluir, sobreviver e, se der, surpreender.
Pressão diferente, resultado diferente
Outro fator importante é o contexto. Os Spurs vivem sob pressão constante por títulos e vagas em competições europeias. Já o Brentford está, realisticamente, vivendo o melhor período de sua história moderna, sem querer dar passos maiores que as pernas, só anda de acordo com o flow, o que está destinado a eles no momento. Só de competir de igual para igual na Premier League já é um feito gigantesco.
Isso não significa falta de ambição. Significa coerência. O torcedor entende o tamanho do clube e confia no processo. Mesmo após um início irregular de temporada, quando o time somou poucos pontos e flertou com a zona de rebaixamento, não houve revolta generalizada. Houve paciência.
E paciência no futebol inglês atual é quase uma espécie em extinção.
Dá para copiar o modelo?
Essa é a pergunta de um milhão de libras. Se é tão lógico, por que todo mundo não faz igual?
Porque exige convicção. Exige resistir à pressão externa. Exige aceitar que o técnico não é maior que o projeto. E, principalmente, exige competência na tomada de decisão, algo que parece simples até você errar três contratações seguidas e ver o caos se instalar.
O Brentford mostra que não existe “toque de Midas”. Existe método, coerência e alinhamento. O técnico certo, no momento certo, dentro de um sistema já estruturado.
No fim das contas, talvez o segredo não seja escolher sempre o nome perfeito. Talvez seja criar um ambiente onde o nome escolhido tenha todas as condições para dar certo.
E aí, quando o resto do campeonato entra em crise existencial, o Brentford segue fazendo o básico bem feito, o que, no futebol moderno, já é quase revolucionário.
Foto: Getty Images