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Premier League: jogar em casa já não mete mais medo em ninguém?

Durante muito tempo, transformar o estádio em um verdadeiro “caldeirão” na Premier League foi praticamente sinônimo de sucesso na competição. Mas será que esse fator ainda pesa como antes? Ou os visitantes estão cada vez mais confortáveis, como quem chega na casa do amigo e já abre a geladeira sem pedir? Simplesmente se “sentindo em casa”.

Os números recentes acendem o alerta. Nos últimos 21 jogos da Premier League, apenas quatro terminaram com vitória do time da casa, míseros 19%. Em um campeonato historicamente marcado pela força dos mandantes, isso chama atenção. Nesse recorte, só Manchester City, Crystal Palace e Aston Villa conseguiram fazer valer o mando e vencer diante da própria torcida.

Enquanto isso, tem time do Big Six da Premier League tropeçando feio no próprio quintal. O Tottenham, por exemplo, levou 4 a 1 do Arsenal no clássico e soma apenas duas vitórias em casa na temporada. Não é exatamente o que se espera de quem sonha alto. O Chelsea também entra na lista: o empate em 1 a 1 contra o Burnley foi o oitavo jogo, em 14 como mandante, em que os Blues deixaram pontos pelo caminho. Resultado? Há equipes somando menos pontos por jogo em casa do que fora. Algo impensável há algumas décadas.

Uma tendência que vem de longe

Se você acha que isso é “coisa dessa geração”, vale olhar para trás. A taxa geral de vitórias dos mandantes nesta temporada está em simplesmente 42%, a quinta mais baixa da história da Premier League. E não é um fenômeno recente. A vantagem de jogar em casa vem diminuindo há mais de um século, já passou o tempo dos ambientes hostis para os visitantes.

Desde a criação da Football League, em 1888, a curva é clara. Em 1895, 65% dos jogos terminavam com vitória do time da casa. Hoje, esse número caiu para 42%. Uma redução de aproximadamente um terço. Ao mesmo tempo, as vitórias dos visitantes cresceram: eram 16% em 1901 e agora chegam a 31%, com aceleração evidente na última década.

O ponto mais simbólico dessa transformação na Premier League aconteceu na temporada 2020/21, impactada pela pandemia. Sem torcida, o impossível virou realidade: as vitórias fora (40%) superaram as vitórias em casa (38%) pela primeira vez na história do futebol inglês de elite. Foi o experimento definitivo para provar que a arquibancada pesa e muito.

O que explica essa mudança?

A resposta não está em um único fator, mas em um combo de evolução estrutural, tecnológica e cultural.

Primeiro: infraestrutura. Viajar já foi uma verdadeira aventura no início do futebol profissional. Hoje, com aviões fretados, hotéis cinco estrelas e logística milimetricamente calculada, a “missão fora de casa” não é mais um pesadelo, as condições não são tão problemáticas mais no momento. Os clubes estão muito mais preparados física e mentalmente para atuar longe de seus domínios.

Segundo: ciência do esporte. Preparação física, análise de desempenho, recuperação muscular, nutrição personalizada… os departamentos são praticamente laboratórios de alta performance, o tempo passou e o mundo evoluiu bastante neste quesito. Jogar fora deixou de ser sinônimo de desgaste extremo.

Terceiro: padronização dos gramados. No começo do século XX, as dimensões variavam absurdamente. Isso dava aos mandantes uma vantagem quase artesanal: eles conheciam cada buraco, cada metro a mais ou a menos. Hoje, as exigências da UEFA determinam campos entre 100 e 105 metros de comprimento e 64 a 68 de largura. Muito mais uniformidade, menos surpresa para o visitante.

Além disso, a qualidade dos gramados, tanto na Premier League quanto em outros lugares do mundo evoluíram drasticamente. Superfícies mais regulares reduzem aquele fator “campo traiçoeiro” que antes era um aliado fiel do time da casa.

E a torcida?

Aí mora o ponto mais interessante. Se a pandemia mostrou algo, é que o torcedor ainda faz diferença. Sem barulho, sem pressão, sem aquele empurrão psicológico, o cenário mudou drasticamente. Mas surge outra questão: os estádios estão menos hostis? Ou parte da torcida, insatisfeita, acaba criando um clima que pesa contra o próprio time? Ou grande parte dos torcedores são turistas, querendo conhecer a suposta atmosfera?

No Tottenham Hotspur Stadium e no London Stadium, por exemplo, houve episódios recentes de protestos e vaias na Premier League. Em alguns casos, a pressão parece atingir mais o elenco da casa do que o adversário. E aí o efeito se inverte: o que deveria ser fortaleza vira um ambiente tenso, e tem se provado com o tempo, principalmente no lado dos Spurs, que se encontram na boca do rebaixamento.

Curiosamente, clubes da Premier League como Everton, Tottenham e West Ham United, que vêm tendo dificuldades como mandantes, também estão em estádios novos ou relativamente recentes. A familiaridade com o antigo “campo raiz” pode ter sido subestimada. Construir identidade em um novo endereço leva tempo.

Então, jogar em casa ainda vale?

Vale, sim. Mas talvez não como antes, ainda se encontra uma vantagem por conhecer mais o ambiente, estar familiarizado. O futebol moderno reduziu distâncias, físicas e psicológicas. O visitante já não chega intimidado só por estar fora de casa, é claro que esse ponto tem a questão da Inglaterra, no Brasil ainda é possível ver esse clima de dificuldade para os visitantes. Mas mesmo assim, eles chegam preparados, estudados e muitas vezes confiantes.

Se antes a frase era “em casa a gente resolve”, agora a lógica parece outra na Premier League: quem estiver mais organizado, concentrado e eficiente levam, seja diante de 60 mil vozes gritando ou de um silêncio constrangedor após o primeiro erro.

A Premier League continua imprevisível, intensa e apaixonante. Mas uma coisa é certa: a velha máxima da fortaleza inexpugnável está cada vez mais em xeque. E talvez o verdadeiro diferencial não seja mais o estádio e sim o mental.

Foto: Getty Images Sport