O Bodø/Glimt se tornou uma das maiores surpresas da história recente da UEFA Champions League ao bater a Inter por 2 a 1 no San Siro e vencer a eliminatória por 5 a 2 no placar agregado, tornando-se o primeiro clube norueguês a alcançar as oitavas de final da Champions desde o Rosenborg, na temporada 1995/96.
Apesar de ser uma equipe taticamente organizada e de acumular resultados expressivos nos últimos anos — incluindo um 6 a 0 sobre a Roma de José Mourinho e uma semifinal de Europa League — o Bodø/Glimt, e principalmente seu técnico Kjetil Knutsen, ainda são frequentemente subestimados nos grandes centros do futebol europeu. No entanto, isso pode mudar após a grande atuação contra um dos times mais fortes do continente.
A Inter de Cristian Chivu, atual líder isolada da Serie A, possui um modelo de jogo complexo e difícil de enfrentar. Ainda assim, Knutsen mostrou como neutralizá-lo com dois conceitos fundamentais do futebol moderno: a vantagem numérica (overload) e a ocupação inteligente dos espaços. Neste texto, vamos explorar como o Bodø/Glimt desmantelou o 3-5-2 de Chivu.
Como o Bodø/Glimt entrou em campo?
Knutsen é conhecido por variar suas formações ao longo dos quase dez anos à frente do Bodø/Glimt. No entanto, o 4-3-3 é seu esquema-base, e foi dessa forma que a equipe iniciou a partida contra a Inter. A principal característica de seus jogadores é a versatilidade, algo que se tornou um dos grandes trunfos do time.
No 4-3-3, o Bodø/Glimt contou com dois laterais capazes de atacar os espaços com inteligência, mas também eficientes na recomposição defensiva. Pelo lado direito atuou Fredrik Sjøvold, que pode deixar o clube na próxima janela de transferências. Do outro lado, Fredrik Bjørkan apresentou características semelhantes. A dupla de zaga foi formada por Jostein Gundersen e Odin Bjørtuft.
O meio-campo foi peça central nas duas vitórias. Patrick Berg deu sustentação às subidas dos companheiros e foi essencial nos movimentos pendulares que abriram espaços no setor central da Inter. Autor de um dos gols na Itália, Håkon Evjen desempenhou o papel clássico de meio-campista box-to-box, enquanto Sondre Fet atuou mais próximo do trio ofensivo.
No ataque, três perfis complementares. A criatividade e a habilidade de Jens Petter Hauge se uniram à eficiência de Ole Blomberg pelo lado direito, enquanto Kasper Høgh, que já havia sido decisivo contra o Manchester City, ajudava a formar um losango no meio-campo em fase ofensiva, liberando espaços para os pontas prenderem os alas da Inter e permitindo ao Bodø/Glimt criar a vantagem numérica tão determinante.
O overload e a ocupação inteligente de espaços como arma ofensiva
Jogando em casa no primeiro confronto, o Bodø/Glimt sabia que apenas se defender não seria suficiente e estruturou seu ataque para explorar uma fragilidade do 3-5-2 de Chivu: o meio-campo defensivo. Quando organizada para marcar, a Inter recua os alas e forma uma linha de cinco defensores, configurando um 5-3-2. Na Noruega, o trio central foi composto por Petar Sučić, Nicolò Barella e Henrikh Mkhitaryan.
A estratégia de Knutsen foi manter Hauge e Blomberg bem abertos, prendendo os alas da Inter na marcação e impedindo que eles participassem da superioridade numérica no meio. Com isso, os laterais do Bodø/Glimt, inicialmente posicionados mais por dentro, passaram a atacar os espaços criados.
Ao circular a bola para um dos lados do campo, um dos meio-campistas da Inter era obrigado a sair para marcar o lateral, já que os alas estavam fixados nos pontas. Nesse momento, o lateral do lado oposto atacava o espaço livre. Assim, o Bodø/Glimt criava superioridade numérica no setor central. Foi justamente esse movimento que permitiu a Bjørkan iniciar a jogada do primeiro gol na Noruega.
O conceito de overload se mostrou decisivo. A partir do momento em que a equipe estabelecia a vantagem numérica, os espaços surgiam com maior facilidade. Embora seja um princípio cada vez mais comum no futebol atual, poucos o executam com tanta precisão quanto Knutsen.
A ocupação de espaços como base da solidez defensiva
Se ofensivamente o Bodø/Glimt ocupava bem os espaços, defensivamente isso também se manteve. A equipe se organizou em um 4-4-2 sem a bola, alternando entre dois momentos: pressão alta e bloco baixo. Ambos dependiam de gatilhos específicos e de uma coordenação coletiva precisa.
Na fase de pressão, o gatilho era o passe para trás em direção aos zagueiros da Inter. Ao povoar o meio-campo e fechar as linhas de passe, os noruegueses induziam o recuo da bola. Quando esse passe ocorria, a linha subia de forma coordenada para pressionar. Foi dessa maneira que surgiu o erro que originou o primeiro gol em Milão.
No primeiro jogo, quando defendia em bloco baixo, a vantagem numérica voltava a ser determinante. Os dois meio-campistas centrais do 4-4-2 encaixavam a descida dos atacantes da Inter ao meio-campo, neutralizando a movimentação e impedindo a criação de novas linhas de passe.
No segundo confronto, houve ajuste por parte da Inter, com Barella atacando mais a linha dos volantes para liberar espaço às descidas dos atacantes. Embora isso tenha gerado alguns momentos de superioridade italiana, o Bodø/Glimt passou a concentrar sua vantagem numérica dentro da própria área. O foco de Knutsen foi impedir que qualquer jogador estivesse livre nos cruzamentos — principal arma da Inter no primeiro duelo. Assim, apesar do volume de bolas levantadas na área, a equipe italiana foi pouco efetiva.
Tudo isso evidencia um sistema de jogo extremamente bem estruturado por Knutsen, baseado em princípios claros e execução coletiva disciplinada. Até onde o Bodø/Glimt pode chegar ainda é uma incógnita, mas o clube já escreveu mais um capítulo histórico no futebol europeu. Mais uma vez.