Se alguém ainda tinha dúvidas sobre João Pedro como referência ofensiva, talvez seja hora de rever os conceitos, pensar um pouco mais sobre essa questão. O brasileiro atravessa o melhor momento desde que chegou ao Chelsea e, sob o comando de Liam Rosenior, deixou de ser aquele atacante “híbrido”, meio 10, meio 9, para se consolidar como o homem de área que o torcedor tanto cobrava.
E os números não mentem.
Evolução clara: menos pênaltis, mais protagonismo
João Pedro já soma 11 gols na Premier League nesta temporada, todos sem a “ajudinha” da marca da cal, entendam como quiser essa indireta. É mais do que o dobro de gols sem pênalti que ele havia marcado em qualquer campanha anterior na elite inglesa. Para quem chegou a perder as cobranças que tinha no Brighton, o recado é simples: ele não precisa mais delas.
O gráfico de desempenho mostra bem essa escalada. Em 2021/22, marcou 3 gols sem pênalti. Depois, 5 em 2023/24. Agora? 11 e contando. Um salto que coincide diretamente com a chegada de Rosenior ao banco. E não é coincidência.
João Pedro e sua mudança de função
Sob Enzo Maresca, João Pedro dividia funções, flutuava, buscava jogo, aparecia fora da área. Era participativo, mas diluía sua principal virtude: o faro de gol.
Com Rosenior, a conversa foi outra. O técnico praticamente o fixou como centroavante, mesmo com Liam Delap disponível no elenco. Resultado? Menos toques na bola, menos passes… e muito mais finalizações.
Hoje, João Pedro finaliza quase o dobro em comparação ao início da temporada. Está mais tempo dentro da área adversária, mais próximo do gol, vivendo de oportunidades. E, convenhamos, centroavante bom é aquele que aparece onde a bola sobra.
O mapa de calor deixa isso evidente: ele passou a ocupar muito mais a região central e o espaço dentro da área, deixando de lado as escapadas constantes pelos lados do campo.
Eficiência em alta
A melhora não é só em volume, mas em qualidade. No Brighton, ele tinha média de 0,12 xG (gols esperados) por finalização. No Chelsea, esse número saltou para 0,21. Traduzindo: ele está chutando em condições muito melhores.
Parte disso é mérito coletivo, o Chelsea oferece um volume ofensivo e uma qualidade de serviço superior ao antigo clube. Mas também é mérito individual. João Pedro está atacando melhor o espaço, fazendo mais movimentos nas costas da defesa e pressionando com intensidade maior.
Rosenior pediu intensidade. Ele entregou.
Contra os grandes, personalidade
Quem assistiu ao confronto contra o Arsenal no Emirates viu um João Pedro diferente. Mesmo na derrota pela Carabao Cup, ele foi um tormento para William Saliba e Gabriel.
Fez pivô, ganhou faltas, arrastou zagueiros para fora de posição e serviu como válvula de escape. Faltou o gol naquele dia, mas a atuação deixou claro que ele pode competir fisicamente com defesas de elite.
E desde então, os gols começaram a sair em sequência: são sete nos últimos nove jogos. Desde a virada do ano, apenas Viktor Gyokeres marcou mais na Premier League. Nada mal para quem ainda era tratado como promessa irregular.
Outro detalhe interessante: João Pedro tem “caçado” gols mais simples. Dois dos seus tentos recentes saíram praticamente dentro da pequena área, aproveitando rebotes e cruzamentos, como no gol contra o Burnley, empurrando para a rede após assistência de Pedro Neto.
Pode não render compilado cinematográfico no YouTube, mas rende pontos. E campeonato se ganha assim. Ele já soma cinco gols marcados de dentro da pequena área, igualando o melhor número da liga nesse quesito.
E o fantasma dos 20 gols?
No Chelsea, existe um número que virou quase lenda: 20 gols na Premier League em uma única temporada. O último a fazer isso foi Diego Costa, duas vezes em três anos.
Desde então, vários tentaram. Nicolas Jackson chegou a 14. Tammy Abraham fez 15 em 2019/20. Bons números, mas insuficientes para virar referência histórica.
João Pedro ainda está distante dessa marca. Mas mantendo a média atual, ele pode pelo menos superar os melhores registros recentes e recolocar o Chelsea no mapa dos times com um 9 confiável.
E isso muda completamente o patamar da equipe.
O que explica a transformação?
Três pontos principais:
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Definição clara de papel – Ele sabe exatamente o que precisa fazer.
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Melhor serviço ofensivo – Mais cruzamentos, mais bolas na área.
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Confiança em alta – Sequência como titular e respaldo do treinador.
Quando um atacante começa a marcar em sequência, a tomada de decisão melhora, o posicionamento fica mais instintivo e o medo de errar diminui. João Pedro está nesse estágio.
Próximo teste: Arsenal de novo
E o roteiro é perfeito: novo duelo contra Saliba e Gabriel no Emirates. Se repetir a atuação física do último encontro e, desta vez, colocar a bola na rede, o discurso muda de vez. De “boa fase” para “realidade consolidada”.
No fim das contas, talvez o Chelsea não precisasse ir ao mercado atrás de mais um nome badalado. Talvez o 9 que o clube procurava já estivesse ali, só precisava ser usado da forma certa.
João Pedro entendeu o recado. E a Premier League também começa a entender: ele não é mais promessa. Está virando problema sério para qualquer defesa.
E, convenhamos, centroavante que vive na área e mete gol em sequência nunca sai de moda.
Foto: IMAGO