A cavadinha é uma das cobranças de pênalti mais ousadas do futebol, para não dizer que é a 01 desta conversa. Quando dá certo, vira obra de arte, sinônimo de frieza extrema, excesso de qualidade e poder de decisão. Quando dá errado, vira debate, crítica e, muitas vezes, meme nas redes sociais, remetendo a lembrança de Alexandre Pato… Foi exatamente esse o roteiro vivido por Dango Ouattara na eliminação do Brentford diante do West Ham United pela FA Cup.
O atacante tentou uma cavadinha na disputa de pênaltis após o empate por 2 a 2 no tempo normal, mas viu sua cobrança ser defendida com facilidade pelo goleiro Alphonse Areola. O lance acabou sendo decisivo: foi o único erro da série e garantiu a classificação do West Ham para as quartas de final.
No futebol, o detalhe separa o herói do vilão. E quando se trata de cavadinha, essa linha costuma ser ainda mais fina, porque abre espaço para as fortes críticas, que com certeza, o ponta receberá.
Jogo movimentado e drama nos pênaltis
Antes do momento decisivo, a partida foi intensa. O West Ham chegou a abrir vantagem duas vezes com gols de Jarrod Bowen (que numa dessas situações, teve um pênalti, só que não utilizou a cavadinha para convertê-lo), mas o Brentford reagiu em ambas as ocasiões com Igor Thiago, que marcou duas vezes e manteve os Bees vivos na disputa.
Com o empate persistindo até o apito final, a vaga nas quartas da FA Cup precisou ser definida na marca da cal. E foi aí que surgiu o momento que vai perseguir Ouattara por um tempo.
Na sua vez de cobrar, o atacante decidiu apostar em uma cavadinha, aquela tradicional bola cavada no meio do gol. Só que Areola não caiu para nenhum lado, permaneceu parado e simplesmente segurou a bola.
Fim do sonho do Brentford de seguir vivo no torneio.
Apesar do erro decisivo, o técnico do Brentford tratou de proteger seu atacante após a partida. Segundo ele, é preciso ter coragem para assumir a responsabilidade em uma disputa de pênaltis, ainda mais para tentar algo tão ousado quanto uma cavadinha.
A lógica é simples: quando entra, o jogador é tratado como gênio. Quando não entra, vira alvo de críticas. Mas dentro do vestiário, a visão costuma ser mais equilibrada.
De onde surgiu a cavadinha
A cobrança ficou famosa por causa de Antonín Panenka, responsável por eternizar o gesto em um dos momentos mais icônicos da história do futebol. A cena aconteceu na final da Eurocopa 1976, entre Tchecoslováquia e Alemanha Ocidental.
Após empate por 2 a 2, o título foi decidido nos pênaltis, simplesmente tudo remeterá a esse momento do Brentford e West Ham. Quando Uli Hoeness perdeu sua cobrança, Panenka teve a chance de garantir o troféu.
Ele correu para a bola e simplesmente deu uma leve cavadinha no meio do gol, enganando completamente o goleiro Sepp Maier. Gol. Título. História.
Desde então, a jogada ficou mundialmente conhecida e passou a ser repetida por jogadores de várias gerações.
Curiosamente, o meio do gol é o mais eficiente
Apesar da fama de arriscada, as estatísticas mostram algo curioso: bater no meio do gol costuma ser a opção mais eficaz.
Dados da Opta com pênaltis cobrados em Copas do Mundo desde 1966 e Eurocopas desde 1980 mostram:
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Centro do gol: 84% de aproveitamento
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Lado esquerdo: 78%
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Lado direito: 74%
A explicação é simples. Muitos goleiros escolhem um lado antes da batida e saltam, deixando o meio livre. O problema é que, se o goleiro ficar parado, o cobrador corre o risco de passar vergonha. Foi exatamente o que aconteceu com Ouattara. Falam muito sobre o meio do gol, ser a escolha de segurança dos profissionais, mas hoje em dia, com os arqueiros esperando os cobradores, essa situação tende a ficar mais complicada.
Craques que já usaram a cavadinha
Mesmo com o risco envolvido, vários craques do futebol já recorreram à cavadinha em momentos importantes.
Entre eles estão:
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Lionel Messi
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Thierry Henry
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Francesco Totti
Um dos exemplos mais famosos aconteceu na final da Copa do Mundo FIFA 2006, quando Zinedine Zidane cobrou um pênalti com bola cavada contra Itália. A bola ainda bateu no travessão antes de entrar, em um momento de pura frieza.
Outro caso emblemático foi na Eurocopa 2012, quando Andrea Pirlo marcou uma cavadinha contra Inglaterra, diante do goleiro Joe Hart, mudando completamente o clima da disputa.
Existe hora certa para tentar?
No fim das contas, a pergunta que sempre surge após um erro desses é simples: existe momento certo para uma cavadinha?
Alguns jogadores acreditam que sim. Muitos preferem tentar quando o goleiro provavelmente vai escolher um lado, geralmente no final de jogos ou em momentos decisivos. Mas a verdade é que o futebol não oferece garantias.
A mesma cavadinha que pode virar um golaço histórico também pode custar uma classificação. Para Dango Ouattara, desta vez, a ousadia acabou saindo cara.
No futebol, a genialidade muitas vezes mora a poucos centímetros da imprudência. E às vezes tudo depende de uma decisão tomada em menos de um segundo na marca do pênalti.
Foto: Getty Images