A trajetória de John Textor no comando do Botafogo é, ao mesmo tempo, uma das histórias mais fascinantes e mais perigosas do futebol brasileiro recente. Em poucos anos, o dirigente saiu de salvador absoluto, responsável por recolocar o clube no topo da América do Sul, para uma figura cercada por desconfiança, disputas judiciais e um cenário que levanta sérios temores sobre o futuro financeiro do Glorioso.
Quando Textor assumiu o Botafogo em 2022, o clube vivia uma das fases mais delicadas de sua história. Endividado, com infraestrutura defasada e sem competitividade, o Glorioso enxergava na SAF praticamente a única saída para sobreviver. Foi nesse contexto que o empresário norte-americano apareceu como uma espécie de “salvador da pátria”.
Com uma proposta moderna, baseada em dados, investimento e integração internacional através da Eagle Football Holdings, Textor rapidamente conquistou a torcida. E, durante um período, entregou resultados concretos.
Sob sua gestão, o Botafogo viveu um renascimento esportivo impressionante. O clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores de 2024, feitos históricos que recolocaram o time no cenário global. Além disso, o desempenho internacional, com vitórias marcantes até mesmo contra gigantes europeus, reforçou a ideia de que o clube havia, finalmente, voltado a ser protagonista.
Nesse momento, Textor era praticamente uma unanimidade. Sua figura representava inovação, ambição e ruptura com décadas de atraso administrativo. O Botafogo deixava de ser um clube em crise para se tornar um projeto global.

Textor vai da admiração à desconfiança: erros, polêmicas e risco
Apesar de tudo, o mesmo modelo que impulsionou o crescimento também começou a revelar fragilidades profundas. Um dos principais problemas está justamente na estrutura multiclubes. A relação entre Botafogo e outros times da Eagle, como o Lyon, passou a gerar suspeitas. Há acusações de transferências internas prejudiciais ao clube brasileiro, com negociações consideradas desfavoráveis e que beneficiariam outras equipes do grupo. Em alguns casos, valores milionários teriam sido deslocados, levantando dúvidas sobre a real prioridade dentro do conglomerado.
Além disso, o Botafogo chegou a acionar o Lyon cobrando compensações por operações consideradas prejudiciais, envolvendo dezenas de milhões de euros. Esse tipo de conflito interno expõe um risco evidente: o clube brasileiro pode estar subordinado a interesses maiores, que nem sempre o favorecem.
Outro ponto crítico envolve a saúde financeira da própria holding. A Eagle Football enfrenta disputas judiciais, dívidas relevantes e questionamentos sobre sua capacidade de honrar compromissos. Há processos envolvendo dezenas de milhões de dólares no exterior, o que coloca em dúvida a estabilidade do grupo .
No Brasil, a situação também é delicada. Existe um impasse societário envolvendo o controle do Botafogo, com acusações graves de gestão temerária e até de manobras financeiras questionáveis, como empréstimos internos entre empresas do próprio Textor . Em paralelo, o clube enfrenta dificuldades de fluxo de caixa, especialmente com a limitação de recursos dentro da estrutura da holding.
Como se não bastasse, há ainda o histórico de polêmicas públicas. Textor acumulou episódios de grande repercussão, como acusações de manipulação de resultados no futebol brasileiro sem provas concretas, o que gerou processos e sanções. Esse comportamento contribuiu para desgastar sua imagem institucional e criar atritos com entidades e outros clubes.
Internamente, a percepção também mudou. Parte da torcida, que antes via Textor como herói, passou a enxergá-lo com desconfiança, especialmente diante de decisões esportivas questionáveis e instabilidade no comando técnico, que resultaram em pressão e críticas diretas .
Um futuro incerto e perigoso
Hoje, o Botafogo vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que colhe os frutos de uma gestão que o levou ao topo, também enfrenta os riscos de um modelo que pode comprometer seu futuro.
Há um temor crescente de que problemas financeiros da Eagle Football possam impactar diretamente o clube, criando um efeito dominó potencialmente devastador. Em cenários mais pessimistas, fala-se até na possibilidade de colapso financeiro caso a holding não consiga se sustentar.
A história de John Textor no Botafogo, portanto, é marcada por extremos. Ele foi o responsável por tirar o clube do fundo do poço e levá-lo a conquistas históricas. Mas, ao mesmo tempo, é também o centro de um sistema complexo, arriscado e cada vez mais questionado.
O que antes era unanimidade virou divisão. E o que parecia ser uma solução definitiva pode, ironicamente, se transformar no maior problema da história recente do Botafogo. John Textor, o pilar da reconstrução, pode estar caminhando para ser o principal responsável pela destruição do patamar atual do clube.
(Imagem de capa: Wagner Meier/Getty Images)