Se você acompanha a divisão dos meio-pesados do UFC, já deve ter percebido um padrão curioso e meio caótico também. Além de contar com diversas mudanças quanto ao dono do cinturão, ainda é possível vê-los poucas vezes, e o UFC 327 fez questão de trazer mais uma situação dessas.
No último sábado, Carlos Ulberg chocou o mundo ao nocautear Jiri Prochazka ainda no primeiro round e conquistar o cinturão da categoria até 93 kg. Até aí, tudo bem, “zebra” faz parte do jogo. Mas o detalhe que muda completamente o cenário é outro: o neozelandês saiu vencedor, mesmo depois de ter se lesionado gravemente na frente do tcheco.
Sim, o novo campeão lutou praticamente no modo sobrevivência depois de sofrer uma grave lesão no joelho logo no início da luta. E não foi qualquer problema: estamos falando de uma ruptura de ligamento cruzado anterior (ACL), uma das lesões mais temidas no esporte de alto rendimento.
Mesmo assim, ele ficou de pé. Literalmente.
Depois de passar por momentos complicados e ficar pressionado contra a grade, Ulberg encontrou uma brecha, soltou uma esquerda precisa e derrubou Prochazka no main-event do UFC 327. No chão, não perdoou. Mais alguns golpes e fim de papo. Nocaute, cinturão e uma das histórias mais insanas do ano no MMA.
Só que… nem tudo são flores.
UFC teve seu campeão, mas não por muito tempo
A vitória foi gigante, mas o preço pode ser alto. A tendência é que Ulberg fique afastado por algo entre 9 e 12 meses. Ou seja: o UFC tem, mais uma vez, um campeão que não pode defender o cinturão. E aí vem o déjà vu.
Desde que Jon Jones deixou o título vago em 2020, a divisão virou praticamente uma dança das cadeiras. Em seis anos, foram seis campeões diferentes. E não é só troca por desempenho, lesões, mudanças de categoria e cinturões vagos viraram rotina.
Pra relembrar rapidamente esse roteiro maluco:
- Jan Blachowicz assume o posto após vencer Dominick Reyes
- Perde o título para Glover Teixeira
- Jiri Prochazka conquista o cinturão, mas abre mão por lesão
- Jamahal Hill vence o título e também precisa abandonar (sim, outra lesão)
- Alex Pereira traz estabilidade… até perder para Magomed Ankalaev
- Pereira recupera o cinturão… e sobe de categoria, deixando tudo vago de novo
Agora, Ulberg entra na lista. Campeão novo, problema antigo.
Prochazka pipoca mais uma vez
Depois da luta do UFC 327, Prochazka tentou justificar o resultado dizendo que “pegou leve” ao perceber que o adversário estava lesionado. A reação? Um verdadeiro coro de críticas, porque é muito fácil falar que tirou o pé do acelerador após o seu oponente se machucar, diz ele que teve compaixão pelo seu adversário.
A comunidade do MMA não comprou muito essa ideia, nem mesmo Ulberg a abraçou depois de ouvi-la. Para muitos, soou mais como desculpa esfarrapada de quem deixou mais uma oportunidade de ouro escapar, porque vale lembrar que Prochazka é um nome interessantíssimo para o UFC, mas deixou para trás muitas chances claras que o UFC lhe deu. E convenhamos: em luta valendo cinturão, misericórdia não costuma entrar no octógono.
E agora, UFC?
Essa é a pergunta que realmente importa. Sem Ulberg disponível por um bom tempo, o UFC precisa decidir se cria um cinturão interino ou simplesmente congela a divisão até o retorno do campeão, ou apenas força-o a soltá-lo, assim como Prochazka fez (a diferença, é que foi por escolha do tcheco neste caso). Nenhuma das opções é exatamente animadora.
Se optar por um interino, nomes não faltam, mas também não são exatamente novidade, então, se encontram num ponto complicado:
- Ankalaev
- Blachowicz
- Khalil Rountree Jr.
- Hill
Daria até para pensar em Prochazka de novo, só que é impossível vê-lo com capacidade de ter uma nova oportunidade por agora, precisará ralar um pouco para isso. Ou seja: a elite da divisão gira em torno dos mesmos rostos há anos. Falta renovação, e quando ela aparece… acontece algo como o caso de Ulberg, porém, existe um caminho interessante.
UFC pode ver Borrachinha como um nome interessante
No co-main event, Paulo Costa AKA Borrachinha chamou atenção ao nocautear o invicto Azamat Murzakanov, logo na sua estreia nos meio-pesados. Um profissional que tem o público, consegue chamar mais bastante atenção e atrai bastante os holofotes, o único ponto negativo, é o fato de ter uma média de apenas uma luta por ano.
Depois da atuação do brasileiro no UFC 327, é difícil considerá-lo um nome distante desta corrida, principalmente pelo fato de ser um nome novo na parada. Fez questão de pegar o osso duro de roer que ninguém queria colocar a mão, e simplesmente nocauteá-lo.
A divisão tem talento, tem nomes fortes, mas vive uma sequência quase inacreditável de interrupções, seja por lesões, mudanças de categoria ou cinturões vagos. Isso impede qualquer narrativa mais sólida de rivalidade ou domínio. E o fã do UFC sente isso.
Porque, no fim, todo mundo quer ver um campeão dominante, com defesas, rivalidades e história sendo construída. Mas, por enquanto, o que a categoria entrega é uma montanha-russa constante. Ulberg fez história no UFC 327. Disso ninguém duvida.
Só que, ironicamente, ao mesmo tempo em que trouxe um novo campeão, ele também reforçou o velho roteiro: nos meio-pesados, o trono até muda de dono… mas nunca fica ocupado por muito tempo.
Foto: Louis Grasse/PXImages