O UFC Vegas 116 passou longe de ser um card memorável em termos de espetáculo, mas entregou algo que costuma dizer muito sobre o nível atual do UFC: lutas decididas na leitura, nos ajustes e na capacidade de execução.
Foi uma noite em que quem soube mudar o rumo venceu e os que ficaram presos ao plano inicial acabaram pagando o preço, especialmente no lado brasileiro.
Confira os destaques do evento que mantiveram Aljamain Sterling no topo da categoria e viu a maioria dos brasileiros sucumbirem, com exceção de Raoni Barcelos e Talita Alencar.
Sterling controla Zalal e vence com bastante maturidade
Aljamain Sterling venceu Youssef Zalal por decisão unânime. Nos minutos iniciais, Zalal foi quem ditou o ritmo. Mais solto, variou bem os chutes, trabalhou entradas rápidas e dificultou a aproximação. Sterling demorou a encontrar o tempo, mas quando ajustou o clinch, mudou completamente a luta. A partir do segundo round, passou a encurtar com consistência, pressionar na grade e buscar quedas em momentos seguros.
O diferencial foi o controle nas costas. Sterling não se afobou em buscar finalização; priorizou estabilizar posição, colocar os ganchos e anular o jogo do adversário. Round após round, acumulou tempo de domínio e impediu qualquer sequência ofensiva de Zalal. Nos assaltos finais, já lutava administrando controle, segurança e zero risco desnecessário.
Noite ruim para a maioria dos brasileiros
A derrota de Norma Dumont para Joselyne Edwards foi o ponto mais pesado da noite brasileira. Norma entrou com expectativa real de “title shot” e começou a luta com um plano claro: ocupar o centro, pressionar e travar no clinch. Nos primeiros minutos, conseguiu executar isso, limitando a distância e controlando ações pontuais.
O problema é que esse controle não virou volume. Enquanto Norma mantinha um ritmo mais cadenciado, Edwards foi ajustando, apostando na maior envergadura. Passou a soltar mais golpes na saída do clinch, aumentou a agressividade e começou a acumular ações visíveis. Do segundo round em diante, a luta virou de vez, Edwards andando para frente, conectando mais e ditando o ritmo. No terceiro, já era domínio claro da panamenha, que venceu na decisão após construir a virada ao longo do combate.

Marcus Buchecha teve uma derrota completamente diferente contra Ryan Spann. A luta era travada, estudada, com o americano melhor e até tentando o grappling. Entretanto, foi um único erro de Buchecha que definiu tudo. Spann encontrou a distância e conectou um cruzado de direita limpo, que pegou Buchecha exposto e encerrou a luta imediatamente. Um golpe e fim de combate.
Rodolfo Vieira repetiu um roteiro já conhecido contra Eric McConico. Começou pressionando, tentando levar para o chão, mas encontrou resistência. Sem conseguir consolidar controle, a luta se estendeu e, com o tempo, Vieira perdeu intensidade. McConico passou a defender melhor, manteve o combate em pé e assumiu o controle nos rounds finais.
Jafel Filho foi neutralizado por Cody Durden em uma luta que girou em torno da defesa de quedas. Durden anulou o grappling do brasileiro e forçou a trocação, onde foi mais ativo e consistente. Jafel nunca conseguiu estabelecer seu jogo.
Já Mayra Bueno Silva foi derrotada por Michelle Montague em uma luta de trocação onde a diferença esteve na precisão e no volume. Montague conectou melhores combinações desde cedo, manteve ritmo alto e impediu que Mayra encurtasse com eficiência.
Raoni Barcelos e Talita Alencar são os únicos brasileiros a vencer
Raoni Barcelos foi um dos dois brasileiros a sair com vitória, ao lado de Talita Alencar, superando Montel Jackson por decisão dividida.
A luta foi equilibrada e exigiu inteligência. Jackson tentou controlar a distância com o alcance, enquanto Raoni buscava encurtar e misturar níveis. No primeiro round, o americano conseguiu agredir bastante e aplicou um knockdown no brasileiro. Porém, quando Raoni conseguiu derrubar, fez o essencial: controlou e pontuou. Nos demais momentos em pé, o brasileiro encurtou a distância e ficou seguro o suficiente para não se expor.
Foi uma vitória construída nos detalhes, leitura correta, timing nas entradas e eficiência nas ações de chão. A boa adaptação em pé também foi fundamental para Raoni Barcelos sair com o único triunfo de brasileiros contra estrangeiros.
A outra vitória brasileira na noite foi de Talita Alencar, que superou Júlia Polastri na primeira luta do card. O combate foi marcado por intensidade no grappling desde o início, com transições constantes no solo. Talita conseguiu os momentos mais claros de controle, especialmente ao estabilizar por cima em posições dominantes, enquanto Júlia se mantinha ativa tentando criar espaços e ameaçar. No fim, a consistência de Talita nas posições de domínio foi determinante para a vitória na decisão.
Outros destaques e os bônus do UFC Vegas 116

Davey Grant e Ádrian Luna Martinetti fizeram a luta da noite em um combate que praticamente ignorou qualquer cautela defensiva. Desde o primeiro round, os dois aceitaram a trocação franca, alternando bons momentos em sequências intensas. Martinetti chegou a ter sucesso em combinações mais rápidas, mas Grant respondeu com golpes mais pesados e melhor leitura nos momentos críticos. Nos rounds finais, essa diferença pesou: Grant conectava menos, mas com mais impacto, garantindo a decisão após uma guerra constante.
Rafa Garcia venceu Alexander Hernandez em uma luta que foi um estudo de pressão e controle. Desde o início, Garcia encurtou o espaço, forçou o clinch e impediu Hernandez de trabalhar confortável na distância. Alternou bem entre quedas e controle na grade, quebrando o ritmo do adversário. Mesmo quando a luta voltava para o centro, mantinha a pressão, conectando golpes curtos e voltando rapidamente para o grappling. Foi uma atuação de desgaste, não explosiva, mas constante, que foi minando qualquer reação de Hernandez ao longo dos rounds.
O grande destaque do card preliminar foi Jackson McVey, que teve a atuação mais objetiva da noite ao finalizar Sedriques Dumas com um D’Arce choke ainda no primeiro round. Após um knockdown curto, avançou rapidamente, fez a transição para o estrangulamento e fechou a posição com precisão, sem dar espaço para defesa.
Além dessas lutas, o card ainda contou com vitórias por decisão unânime de Francis Marshall sobre Lucas Brennan e de Victor Valenzuela contra Max Griffin, ambas construídas no controle de ritmo e volume ao longo dos três rounds.
Nos bônus, o UFC premiou quem decidiu de forma clara: Jackson McVey e Ryan Spann levaram “Performance da Noite”, enquanto Grant e Martinetti ficaram com a “Luta da Noite”.
(Imagem de capa: Jeff Bottari/Zuffa LLC)