O Real Madrid vive um dos momentos mais turbulentos dos últimos anos dentro do vestiário. Longe dos holofotes, a tensão acumulada durante a temporada explodiu em confrontos diretos, divisões claras e um ambiente que várias fontes descrevem como “irrespirável”. A saída de Xabi Alonso foi apenas o estopim. O que se vê agora é um elenco fraturado, com dois grupos bem definidos e cicatrizes que ainda não fecharam.
Tudo começou a deteriorar-se em outubro. Vários pesos pesados, entre eles capitães como Vinicius Jr. e Federico Valverde, deixaram de esconder o descontentamento com os métodos de Xabi Alonso.
As críticas centravam-se na dureza dos treinos, nas longas sessões de vídeo e numa metodologia considerada rígida por parte de alguns jogadores. O que parecia um mero desentendimento tático rapidamente se transformou em algo maior: uma fratura interna profunda.
Dois grupos e um clima tóxico
De um lado, um grupo mais alinhado com as ideias de Xabi Alonso, que defendia a necessidade de uma mudança profunda no modelo de jogo. Tchouaméni era um dos mais convictos defensores do técnico.
Do outro lado, Valverde e Vinicius lideravam o setor mais crítico, com apoio de nomes como Bellingham e Camavinga. As faltas de respeito durante as reuniões táticas tornaram-se frequentes: jogadores a fingir sono, a cochichar ou a questionar abertamente as decisões.
O ponto de não retorno chegou durante um Clássico, quando Vinicius exteriorizou de forma clara o seu mal-estar. A imagem simbolizou a ruptura definitiva. Pouco depois, Xabi Alonso foi despedido e Álvaro Arbeloa assumiu o comando do Real Madrid. No entanto, Arbeloa herdou um vestiário já gravemente ferido. Muitos jogadores não aceitaram que uma parte do elenco tivesse “dinamitado” um projeto que mal tinha começado.
Nos últimos meses, a tensão só aumentou. Houve jantares e tentativas de pacificação, mas os maus resultados fizeram ressurgir os problemas com mais força. Confrontos físicos durante os treinos, como o entre Valverde e Tchouaméni, tornaram-se públicos.
O caso Mbappé também contribuiu para o desgaste: há jogadores incomodados com o francês, enquanto outros defendem-no e acusam manobras internas para desgastar a sua imagem.
Falta de referentes e debate sobre capitães
O vestiário está órfão de líderes claros. Carvajal e Courtois ainda são respeitados, mas o primeiro está desgastado e o segundo ocupa apenas o quarto lugar na hierarquia de capitães.
Muitas vozes questionam se o critério da antiguidade ainda faz sentido. Valverde e Vinicius Jr. carregam a braçadeira, mas vários jogadores consideram que não são os mais indicados para unir o grupo.
A ausência de um projeto claro e de um treinador com autoridade plena agravou o problema. Arbeloa tentou estabilizar, mas os maus resultados minaram rapidamente a sua credibilidade. O Real Madrid, que sempre se orgulhou de ser um clube acima de individualidades, vive agora refém de egos e divisões internas.
O novo treinador do Real Madrid deverá ser um ótimo gerenciador de elenco
Florentino Pérez assumiu pessoalmente a missão de escolher o próximo treinador. A decisão será crucial. Um técnico com pulso firme e capacidade de unir o grupo será essencial para cicatrizar as feridas. No entanto, o problema não é apenas técnico. Há uma perda de identidade colectiva, uma erosão na convivência diária e um cansaço visível em vários jogadores.
Mbappé, apesar dos números, tornou-se um foco de polémica. A sua viagem à Sardenha durante a recuperação de lesão foi mal recebida por parte da torcida e gerou desconforto interno. O francês chegou como salvador, mas hoje divide opiniões dentro e fora de campo.
O Real Madrid não está habituado a este tipo de instabilidade. Clubes grandes sobrevivem a maus resultados, mas um vestiário dividido é muito mais perigoso. A temporada 2025/26 pode terminar sem títulos, visto que a La Liga está praticamente perdida. Sem reconstruir a coesão interna, qualquer contratação de peso ou mudança tática terá vida curta.
O ambiente irrespirável, os grupos formados e o fantasma de Xabi Alonso mostram que o problema é profundo. O Real Madrid precisa de mais do que um novo treinador; necessita recuperar a essência de um vestiário que sempre foi sinônimo de união, ambição e profissionalismo. O tempo urge.
Foto: Imago.

