São Paulo imaginava que a chegada de Dorival Júnior poderia trazer um impacto imediato dentro de campo, mas o empate diante do Millonarios, pela Sul-Americana, mostrou que a reconstrução do time talvez seja muito mais complicada do que o torcedor gostaria de acreditar.
O 1 a 1 no Morumbis, na última terça-feira (19), teve praticamente tudo que vem incomodando o São Paulo nos últimos meses: pouca criatividade, dificuldade para transformar posse em domínio real, falhas defensivas e aquela sensação constante de que o time produz menos do que poderia.
E isso acaba deixando uma comparação inevitável rondando o ambiente tricolor: o nível apresentado pela equipe na época de Hernán Crespo.
Porque, gostem ou não, o São Paulo de Crespo conseguiu construir algo que esse time atual e quando estava nas mãos de Roger Machado, ainda parece muito distante de alcançar.
O São Paulo de Crespo tinha identidade; o atual ainda busca uma
Talvez o maior mérito de Crespo tenha sido justamente devolver identidade ao São Paulo. O torcedor entendia o que o time queria fazer em campo. Existia organização, intensidade e principalmente um sistema coletivo que potencializava jogadores.
O time pressionava alto, acelerava quando precisava e defensivamente transmitia muito mais segurança. Mesmo quando não tinha atuações brilhantes, era uma equipe difícil de enfrentar. Hoje, o cenário é diferente.
Depois da saída de Crespo, o São Paulo entrou numa espécie de limbo futebolístico. Passou por um período inconsistente nas mãos de Roger Machado, acumulou oscilações pesadas e perdeu justamente aquilo que havia construído de mais valioso: confiança coletiva.
A eliminação na Copa do Brasil aumentou ainda mais a pressão e acelerou a troca de comando técnico. Agora, Dorival retorna tentando reorganizar um elenco que claramente chega desgastado emocionalmente e taticamente perdido em vários momentos dos jogos.
E convenhamos: não existe treinador no mundo que consiga arrumar tudo em poucos dias. O empate contra o Millonarios deixou isso muito claro, sem esquecer também da derrota para o Fluminense no Maracanã pelo Brasileirão.
Dorival encontrou um São Paulo emocionalmente abatido
Apesar do resultado ruim dentro de casa, o jogo também mostrou algo importante: o problema do São Paulo vai muito além da simples troca de treinador.
Dorival praticamente manteve a base do time anterior. E talvez isso explique porque o desempenho ainda pareceu tão parecido com o que vinha acontecendo nas últimas semanas.
O São Paulo até começou relativamente bem. Luciano abriu o placar cedo, o Morumbis tentou empurrar o time e por alguns minutos parecia que a noite poderia ser tranquila. Só que a equipe voltou a apresentar um problema recorrente: dificuldade absurda para matar o jogo.
As chances desperdiçadas mantiveram o Millonarios vivo na partida, e o empate colombiano no segundo tempo trouxe novamente aquele clima pesado para o estádio. O mais preocupante talvez seja justamente a queda mental da equipe durante os jogos.
O São Paulo hoje parece um time inseguro, principalmente quando o assunto chega na defesa. Quando sofre pressão, se desorganiza rápido. Quando perde oportunidades, começa a jogar ansioso. E quando leva um gol, o abalo emocional fica visível. Estiveram muito perto de serem derrotados, mas contaram com uma certa ajudinha do juiz para impedir um enorme contra-ataque dos colombianos.
Isso ficou evidente não só contra o Millonarios, mas também na derrota recente para o Fluminense pelo Brasileirão e na eliminação diante do Juventude pela Copa do Brasil. É um time que parece jogar constantemente carregando peso nas costas.
Dorival pode melhorar o São Paulo, mas reconstrução será longa
A escolha por Dorival faz sentido justamente porque o treinador historicamente consegue reorganizar ambientes turbulentos. Foi assim em vários momentos da carreira e também na passagem anterior pelo São Paulo, quando conquistou a inédita Copa do Brasil de 2023.
O problema é que o contexto atual talvez seja mais complicado do que parece.
O elenco perdeu confiança, o futebol caiu bastante e parte da torcida ainda não superou totalmente a saída de Crespo, vale ressaltar também no fato de existirem peças para chamar a responsabilidade antes da temporada começar, que tiveram seus problemas e não atuarão em 2026, como é o caso de Lucas Moura e de Oscar, que no caso, se aposentou. Inclusive, muitos torcedores chegaram a questionar nas redes sociais se a troca pelo argentino realmente fazia sentido naquele momento.
Além disso, Dorival terá pouco tempo para treinar. O calendário brasileiro simplesmente engole treinadores. Enquanto tenta corrigir problemas defensivos, recuperar jogadores mentalmente e reorganizar o funcionamento ofensivo, o São Paulo continua entrando em campo praticamente a cada três dias.
E existe outra questão importante: o elenco talvez não consiga reproduzir exatamente o modelo de jogo que fez Crespo ter tanto sucesso.
O argentino conseguiu montar uma equipe extremamente intensa fisicamente, agressiva sem bola e muito coordenada taticamente. Hoje, o São Paulo parece mais lento, menos intenso e sem o mesmo nível de confiança coletiva.
Dorival provavelmente precisará encontrar um caminho diferente. Talvez um time menos vertical, mais equilibrado emocionalmente e que consiga controlar partidas sem precisar viver no limite o tempo inteiro. Porque atualmente o São Paulo parece jogar sempre na corda bamba.
E isso explica a sensação estranha que fica após quase todo jogo recente do clube: mesmo quando compete, raramente convence.
No fim das contas, Dorival ainda pode recolocar o São Paulo em alto nível. O treinador tem currículo, experiência e conhece o ambiente do clube. Mas voltar ao nível apresentado na era Crespo talvez seja uma missão bem mais pesada do que parece olhando apenas para a troca no banco de reservas.
Porque trocar treinador é rápido. Reconstruir ou recuperar identidade, confiança e futebol… isso leva tempo.
Foto: Rubens Chiri/SPFC


