Luciano Spalletti, Futebol Italiano
Futebol Serie A

Por que o futebol italiano sempre gira em torno de 4 técnicos?

O futebol italiano vive uma crise praticamente sem saída nos últimos anos. Por conta da escassez de talentos dentro e fora dos gramados, há uma reciclagem de quatro nomes, que perambulam por times da Serie A: Antonio Conte, Luciano Spalletti,
Massimiliano Allegri e Maurizio Sarri.

O término da passagem de Conte pelo Napoli acentuou esta situação, fazendo com que a dança das cadeiras dos técnicos na Serie A. Porque a ausência de ideias, planejamento e dinheiro para a descoberta de novos talentos torna o campeonato preso à figura do treinador. Espera-se que os comandantes tenham genialidade para resolver tudo em um curto espaço de tempo.

Contudo, a Serie A não se escora no mito do “gênio da lâmpada” na casamata para reverter a situação de desesperança do futebol italiano. Os dados que revelam a crise do esporte no país não vêm dos balanços financeiros, públicos nos estádios ou das categorias de base, mas sim dos bancos de reservas. Os números revelam que o futebol italiano continua a olhar para o passado, encarando o futuro como se fosse um detalhe insignificante.

Nos últimos anos, apenas seis times ficaram com as duas primeiras colocações da Serie A em ao menos uma oportunidade: Juventus, Milan, Napoli, Inter, Roma e Lazio. A fragmentação também ocorre com técnicos; afinal, apenas um teve passagem pela seleção nacional. Certos treinadores voltaram ao centro do futebol italiano com uma excelente frequência.

Eis a lista:

Spalletti – cinco contratações

Conte – quatro

Sarri – quatro

Allegri – quatro

Gattuso – três

Pioli – três

O principal problema do futebol italiano

O problema nesta situação não pertence aos treinadores citados anteriormente. O desafio é a reflexão automática do futebol italiano, conhecido por reagir da mesma maneira a cada crise: recorrer a um velho nome.

Todo ano parece que o espectador assiste ao mesmo espetáculo. As entrevistas coletivas mudam, o mercado de contratações de treinadores gira, mas os nomes continuam os mesmos. Quando uma grande equipe vive um momento complicado, passa a aderir à tradicional seleção de nomes: Conte, Allegri, Sarri e Spalletti. Caso deseje um treinador com personalidade, escolha Gattuso. Se precisa de uma normal, adere a Pioli. Caso busque garantia, o escolhido é Allegri. Em caso de mentalidade, contrata Conte. Os sentidos modificam, mas o processo é igual.

Contudo, o futebol italiano não trouxe de volta o domínio. A diferença econômica em relação às outras principais ligas da Europa não foi reduzida e não formou uma nova escola tática. Também não houve a criação de um ecossistema que busca gerar a continuidade dos trabalhos internacionais.

Há exceções no período, como no caso da Inter, bicampeã da Champions League, ou da Atalanta de Gasperini, ganhadora da Europa League, porém, o sentimento é de que o movimento prospere apenas em eventos específicos. O principal momento foi o título da Eurocopa de 2021, conquistado sobre a Inglaterra, em Wembley. Ao que parece, o futebol italiano confundiu experiência com inovação.

Os erros de outros países do continente acontecem, mas ao menos tentam mudar as situações. Na campeã europeia Espanha, equipes do meio de tabela se tornam laboratórios de ideias. Já na Itália, o medo de realizar algo de diferente é notado.

O momento se assemelha a um paradoxo do futebol italiano: um país que foi berço da evolução tática se transformou em um dos sistemas de jogo mais conservadores da Europa, principalmente na escolha de treinadores.

Existe uma fórmula mágica para o futebol italiano?

Como praticamente todas as funções do esporte, não há uma resposta exata. A contratação de um jovem treinador não justifica a modernização de um time, assim como a escolha de técnicos experientes não traz evoluções aos clubes. A questão é outra: a falta de rotatividade não é apenas uma coincidência, e sim uma cultura que, a longo prazo, vira estagnação.

Em relação aos treinadores, acontecem as repetições constantemente nos bancos de reservas, mostrando que, na verdade, ninguém é considerado pronto. Existe uma desconfiança sistêmica quanto à novidade no futebol italiano. É verdade que todo italiano em ascensão busca percorrer um caminho maior que os colegas estrangeiros, para garantir credibilidade, como no caso do campeão português, Francesco Farioli.

Porém, o futebol europeu está mudando e passa por diversos fatores, como os ritmos, as metodologias e as línguas. A Itália se apega diversas vezes à ideia de que conhecer o esporte já é suficiente. Provavelmente, mostra um sinal egocêntrico pertencente ao futebol italiano, que parece girar em círculos.

Então é necessário o momento de encerrar este ciclo. Não se trata de um desrespeito aos campeões, mas a repetição dos equívocos não levou a lugar nenhum. Afinal, não é por acaso que um país tetracampeão da Copa do Mundo não disputa a competição desde 2014.

Créditos da imagem da capa: Alessandro Sabattini/Getty Images