Corinthians - Fernando Diniz
Futebol Brasileirão Libertadores

Corinthians vai conseguir se adaptar ao modelo de Fernando Diniz?

A contratação de Fernando Diniz no Corinthians trazia uma mensagem clara de um movimento oposto ao que o clube caminhava sob comando de Dorival Júnior. Fernando Diniz costuma ser “ame ou odeie” pelos clubes por que passa, sempre sendo bastante comentado pelas torcidas dos times que treinou.

Desde a chegada do treinador ao Corinthians, o retrospecto é positivo: em 15 jogos, a equipe venceu oito, empatou quatro e perdeu somente em três oportunidades, obtendo um aproveitamento de 62,2% com pouco menos de dois meses de trabalho. Apesar de estar correspondendo em resultados, a torcida do Timão ainda não possui confiança no estilo de jogo adotado por Fernando Diniz ao longo da carreira e teme pelos resultados a médio prazo.

DNA do Corinthians

Historicamente, o Corinthians possui uma forte relação com “times que sabem sofrer”: equipes intensas, de marcação firme e forte, de transições rápidas, além da entrega dos jogadores ir até o limite em prol da instituição. O modelo do Fernando Diniz é o oposto do DNA do clube e do que os torcedores estão acostumados a ver, com a priorização da posse de bola, chegando a envolver os goleiros diversas vezes durante a partida, ajudando na construção de ataque e desafogando a saída de bola da pressão adversária, além de muita movimentação e liberdade para trocas de posições.

Uma das maiores barreiras para os torcedores do Corinthians será a tolerância com os erros eventuais durante o processo, como o erro de Hugo Souza, que tem um histórico de erros de passe desde os primeiros jogos pelo profissional do Flamengo, que resultou no segundo gol do Platense, em jogo válido pela última rodada da fase de grupos da Libertadores. Dentro da ideologia do treinador, um goleiro errar um passe para um jogador adversário dentro da área ou um zagueiro também passar errado a bola em zonas de perigo fazem parte do processo de atração do rival para abrir espaços para atacar. Em clubes como o Corinthians, a exigência da arquibancada é imediata e a margem de erro é mínima, fazendo com que um erro possa ser fatal para a continuidade e a estabilidade do trabalho de determinados jogadores ou mesmo do técnico. A comissão técnica precisa blindar o elenco do nervosismo quando os erros da saída de bola acontecerem.

Adaptação do elenco

A adaptação do elenco à metodologia de Fernando Diniz é diretamente interligada com as características dos jogadores. O modelo do treinador exige jogadores de defesa com boa qualidade de passe, incluindo o goleiro, e atletas do meio-campo com capacidade de rotação pelas quatro linhas e raciocínio rápido para tomarem as melhores decisões em espaços curtos.

A capacidade dos passes e domínio sob pressão dos defensores poderá ser um dos pontos cruciais para que o Corinthians tenha sucesso. A paciência em trazer a marcação adversária ao seu setor contribui na fase inicial da organização ofensiva da equipe. Quanto mais jogadores do outro time forem superados após a saída da pressão, menos terão para marcar a equipe do Corinthians, colocando a equipe em situações de superioridade numérica no ataque e facilitando a criação de chances reais de gol.

Neste modelo de jogo, Breno Bidon será uma peça essencial para Fernando Diniz. Bidon é novo, tem personalidade e coragem para arriscar, é um jogador com uma qualidade técnica acima da média e tem o poder de ditar o ritmo de jogo e a construção do ataque. Com um treinador como o Diniz, Bidon tem tudo para ser potencializado, já que o técnico possui o histórico de aproveitamento de jovens jogadores, além de conseguir extrair o máximo de diversos atletas que comandou.

O ataque do time, com a metodologia de jogo, oferece mais volume e chances claras e, assim, demonstrou uma evolução nos aproveitamentos das oportunidades. Dentro das 15 partidas em que Fernando Diniz esteve sob o comando do Corinthians, a equipe marcou 17 gols. Dentro do período dos últimos 15 jogos em que Dorival Júnior esteve no cargo, o time fez 14 gols no total. Mesmo sendo uma diferença de apenas três gols de um treinador para outro, um ponto que pesa na análise dos números é que Fernando Diniz comandou a equipe somente em jogos do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores, enquanto Dorival treinou pelo Brasileirão, Supercopa do Brasil e também em seis jogos do Campeonato Paulista.

Calendário apertado

O maior obstáculo da aplicação do modelo de jogo de Fernando Diniz no Corinthians é o tempo. Desde a sua chegada, as 15 partidas em que esteve na área técnica foram disputadas dentro de 48 dias, ou seja, uma média de uma partida a aproximadamente cada três dias. Para a assimilação total da sua metodologia, os jogadores precisam ter tempo para treinar a automatização, os movimentos e compreender o conceito de jogo.

Com o Corinthians disputando o Campeonato Brasileiro, Copa Libertadores e a Copa do Brasil, Fernando Diniz possui pouco tempo para preparar o elenco para os jogos. Com o processo de entendimento da equipe acontecendo em meio a várias partidas, o time pode apresentar oscilações.

Fernando Diniz precisa de paciência

O técnico é capaz de extrair um bom futebol e resultados do clube. Mesmo aceitando o trabalho no meio do ano, não podendo utilizar a pré-temporada para contratações de jogadores que agradem ao seu modelo e para o compreendimento tático por parte do elenco, ele já esteve em situação parecida. Em 2022, Fernando Diniz aceitou comandar o Fluminense no meio da temporada. O tricolor também disputava três competições inicialmente e, mesmo apresentando um futebol que agradava aos torcedores, terminou o primeiro ano sem títulos após sua chegada, porém, na temporada seguinte, conquistou o Carioca e a Libertadores, ambas com grandes campanhas.

Mesmo se houver oscilação, a diretoria do clube vai precisar olhar para o desenvolvimento da equipe e não somente para os resultados. Em caso de evolução, mesmo que dentro de campo não esteja correspondendo como o esperado, a diretoria do Corinthians precisará dar respaldo ao treinador para que continue tocando o trabalho com leveza. E, deste modo, Fernando Diniz possui potencial para transformar o Corinthians em uma equipe competitiva e capaz de almejar títulos durante sua passagem.

Créditos foto de capa: Rodrigo Coca/Agência Corinthians