Deiveson Figueiredo
Lutas UFC

Nova derrota de Deiveson Figueiredo fecha as portas de um cinturão e deixa seu futuro em dúvida

Durante boa parte de sua trajetória no UFC, Deiveson Figueiredo construiu a reputação de ser um lutador capaz de desafiar qualquer lógica. Quando conquistou o cinturão dos moscas, poucos imaginavam que um atleta vindo do interior do Pará se transformaria em um dos campeões mais dominantes da divisão. Quando perdeu o título para Brandon Moreno, muitos acreditaram que seu ciclo na elite havia terminado. E quando decidiu subir para os galos, novamente surgiram dúvidas sobre sua capacidade de competir contra adversários maiores e mais fortes.

Mais uma vez, ele respondeu vencendo. A adaptação à nova categoria foi tão positiva que, em pouco tempo, Deiveson voltou a frequentar as primeiras posições do ranking e a ser mencionado como possível desafiante ao cinturão. Parecia apenas uma questão de tempo até que o brasileiro encontrasse novamente o caminho para uma disputa de título.

No entanto, a derrota para Song Yadong no UFC Macau mudou completamente essa perspectiva. A finalização sofrida no segundo round não representou apenas mais um revés no cartel. Ela provavelmente encerrou, de forma definitiva, qualquer possibilidade realista de Deiveson voltar a lutar por um cinturão do UFC.

O motivo não está apenas no resultado em si, mas no contexto que o cerca. Aos 38 anos, o brasileiro entrou na luta precisando de uma vitória para permanecer relevante na corrida pelo topo da divisão dos galos. Depois da derrota para Umar Nurmagomedov, ainda existia margem para argumentar que ele havia perdido para um dos principais talentos da categoria. Um triunfo sobre Song recolocaria seu nome no radar dos matchmakers e poderia levá-lo novamente para confrontos eliminatórios. O que aconteceu foi justamente o contrário.

Yadong mostrou novamente que existe um nível mais alto nessa categoria

Além de perder, Deiveson foi finalizado por um adversário que entrava pressionado e que precisava desesperadamente de uma vitória para não se afastar do grupo de candidatos ao cinturão. O brasileiro acabou servindo como trampolim para a retomada da ascensão de Song Yadong, enquanto sua própria trajetória entrou em uma zona de enorme incerteza.

Os números ajudam a explicar a gravidade do momento. Com o resultado em Macau, Figueiredo passou a acumular quatro derrotas em suas últimas cinco apresentações. Para qualquer atleta, essa sequência já seria preocupante. Para alguém que pretende disputar um título em uma das categorias mais competitivas do UFC, ela é praticamente fatal.

O peso-galo atravessa um dos períodos mais profundos de sua história. Nomes como Merab Dvalishvili, Sean O’Malley, Umar Nurmagomedov, Cory Sandhagen e o próprio Song Yadong ocupam espaço na fila de candidatos. Além deles, novos talentos continuam surgindo e pressionando por oportunidades.

Nesse cenário, é difícil imaginar o UFC concedendo uma chance de título para um atleta que perdeu quatro de suas últimas cinco lutas.

A questão física voltou a ser um problema para Deiveson

Embora continue competitivo, Deiveson já não apresenta a mesma explosão que o tornou campeão dos moscas. Durante seu auge, ele conseguia mudar uma luta com um único golpe. Sua potência compensava eventuais deficiências técnicas e criava um fator de intimidação permanente contra os adversários.

Nos galos, essa vantagem naturalmente diminuiu. Os rivais são maiores, absorvem melhor os golpes e possuem capacidade física semelhante. Quando a diferença de poder desaparece, detalhes técnicos e atléticos passam a fazer ainda mais diferença. Contra Song, ficou evidente que o brasileiro já não consegue impor o mesmo ritmo dos melhores anos de sua carreira.

O mais preocupante talvez seja que a derrota não ocorreu diante de um campeão ou de um desafiante número um. Ela aconteceu contra um atleta que ocupa uma posição intermediária na corrida pelo título. Em outras palavras, Deiveson não perdeu apenas para um dos melhores da categoria. Perdeu para alguém que ainda tenta provar que merece estar entre eles.

Esse tipo de derrota costuma alterar completamente o papel de um lutador dentro da organização. Até pouco tempo atrás, o brasileiro era visto como um potencial candidato ao cinturão. Agora, existe uma possibilidade real de que ele passe a ocupar a função de veterano de prestígio, utilizado para testar jovens talentos ou consolidar atletas em ascensão.

É uma transição dura, mas comum em divisões tão competitivas. Isso não significa que seu legado esteja ameaçado. Muito pelo contrário.

Deiveson continuará sendo lembrado como um dos maiores lutadores brasileiros da história recente do UFC. Seu reinado nos moscas, a rivalidade histórica com Brandon Moreno e a coragem de subir de categoria para buscar novos desafios garantem um lugar de destaque em qualquer retrospectiva sobre o MMA brasileiro.

O problema é que legado e futuro são coisas diferentes. O legado já está garantido. O futuro, não. A partir de agora, o brasileiro precisará redefinir objetivos. A corrida pelo cinturão parece ter chegado ao fim. O desafio passa a ser encontrar novas motivações dentro da organização, escolher lutas que façam sentido esportivamente e decidir até onde vale a pena continuar competindo contra uma geração cada vez mais jovem e veloz.

O UFC Macau pode acabar sendo lembrado justamente como esse ponto de virada. Durante anos, Deiveson foi um caçador de cinturões. Um lutador que entrava no octógono sempre olhando para o topo da montanha. Após a derrota para Song Yadong, porém, essa montanha parece mais distante do que nunca.

E pela primeira vez desde que iniciou sua ascensão ao estrelato, o brasileiro não luta apenas contra os adversários da categoria. Luta também contra o tempo, contra a idade e contra uma realidade que o esporte costuma impor sem piedade: em determinado momento, até os ex-campeões deixam de perseguir o cinturão e passam a perseguir apenas mais uma oportunidade de permanecer relevantes.

(Foto: Jeff Bottati/Zuffa LLC)