O PSG conquistou mais uma vez a UEFA Champions League e, desta vez, o título parece representar algo maior do que apenas mais uma taça para a coleção do clube francês. A vitória sobre o Arsenal na final disputada em Budapeste confirmou uma transformação que vinha sendo construída nos últimos anos sob o comando de Luis Enrique.
Após derrotar a Inter de Milão na decisão da temporada passada e superar o Arsenal nesta edição, o PSG se tornou apenas o segundo clube da era moderna da Champions League a conquistar o torneio em temporadas consecutivas. Antes dos franceses, apenas o Real Madrid havia conseguido defender o título com sucesso, vencendo três edições seguidas entre 2016 e 2018.
Mais do que a conquista em si, o bicampeonato evidencia uma mudança de filosofia que muitos consideravam necessária há anos. O PSG passou boa parte da última década apostando em grandes estrelas individuais para tentar alcançar o topo da Europa. Jogadores como Neymar, Lionel Messi e Kylian Mbappé foram contratados por valores gigantescos e carregavam a responsabilidade de entregar o tão sonhado domínio continental.
Agora, porém, o cenário é diferente. O time campeão de Luis Enrique não ficou marcado por depender exclusivamente de uma superestrela, mas sim por apresentar um conjunto extremamente competitivo e equilibrado.
A mudança de identidade que levou o PSG ao topo

Durante muitos anos, uma das principais críticas ao PSG era a dependência excessiva de talentos individuais. Embora o clube acumulasse títulos nacionais, frequentemente encontrava dificuldades quando enfrentava as maiores potências europeias em confrontos eliminatórios.
Luis Enrique chegou justamente com a missão de mudar essa mentalidade.
O treinador espanhol implementou um modelo baseado em intensidade, movimentação constante e participação coletiva em todas as fases do jogo. O resultado é uma equipe menos previsível e muito mais difícil de ser neutralizada pelos adversários.
Os números ajudam a explicar essa evolução. O PSG encerrou a Liga dos Campeões 2025-26 com 45 gols marcados, igualando o recorde de maior número de gols em uma única edição da competição.
É verdade que o novo formato da Champions contribuiu para essa marca. Como o clube não terminou entre os oito melhores da fase de liga, precisou disputar uma etapa extra de playoff contra o Monaco, aumentando o número de partidas realizadas.
Mesmo assim, alcançar 45 gols demonstra um poder ofensivo impressionante. Poucas equipes na história recente da competição conseguiram manter uma produção ofensiva tão consistente ao longo de toda a campanha.
Além disso, os gols foram distribuídos entre diversos jogadores, reforçando justamente a ideia de um time menos dependente de uma única referência ofensiva.
Luis Enrique entra para a elite dos treinadores da Champions

O impacto do treinador espanhol também pode ser medido por seus números pessoais.
Com a conquista diante do Arsenal, Luis Enrique manteve um aproveitamento perfeito em finais de Liga dos Campeões. Ele venceu as três decisões que disputou como treinador.
A primeira aconteceu em 2015, quando conduziu o Barcelona ao título europeu. Depois vieram as duas conquistas consecutivas com o PSG.
Seu desempenho ao longo da competição também impressiona. Entre os técnicos que comandaram pelo menos 50 partidas de Champions League, Luis Enrique possui o melhor aproveitamento da história, com 63,3% de vitórias.
A marca supera nomes consagrados como Pep Guardiola, Louis van Gaal, Thomas Tuchel e Zinedine Zidane.
Esse dado ajuda a contextualizar o tamanho do trabalho realizado pelo espanhol. Não se trata apenas de um treinador que venceu uma geração específica de jogadores, mas de alguém que vem demonstrando capacidade de adaptação em diferentes clubes e contextos.
No PSG, ele encontrou um ambiente marcado por pressão constante, grandes investimentos e cobranças históricas pela conquista europeia. Ainda assim, conseguiu transformar a equipe na referência do continente.

Kvaratskhelia simboliza a nova fase do clube
Se Neymar, Messi e Mbappé foram os rostos da antiga era do PSG, Khvicha Kvaratskhelia talvez seja o símbolo da nova geração campeã.
O atacante georgiano teve papel decisivo durante toda a campanha europeia. Embora não tenha brilhado individualmente na final contra o Arsenal, foi dele a jogada que originou o pênalti convertido por Ousmane Dembélé no empate durante o tempo regulamentar.
Seu impacto ficou ainda mais evidente na semifinal contra o Bayern de Munique. Kvaratskhelia marcou dois gols no primeiro confronto e ainda deu assistência para Dembélé no jogo de volta.
Ao final da competição, o atacante acumulou 10 participações diretas em gols nas fases eliminatórias da Champions League, ficando a apenas uma do recorde histórico.
Mais importante do que os números individuais foi a maneira como ele se encaixou na proposta coletiva de Luis Enrique. Kvaratskhelia é um jogador capaz de decidir partidas, mas também contribui intensamente na pressão sem bola, na construção das jogadas e na movimentação ofensiva.
O PSG se tornou a referência da Europa

Outro dado que reforça o domínio atual dos franceses é sua consistência nos confrontos eliminatórios.
Com a vitória sobre o Arsenal, o PSG chegou a 12 partidas seguidas sem perder em fases de mata-mata da Liga dos Campeões. Nesse período, foram 10 vitórias e apenas dois empates.
A equipe também desenvolveu uma impressionante capacidade de superar adversários ingleses. O clube venceu cada um de seus últimos seis confrontos eliminatórios contra equipes da Premier League.
O último time inglês a eliminar os franceses da competição foi o Manchester City, ainda na temporada 2020-21.
Esse retrospecto ganha ainda mais relevância quando se considera que a Premier League continua sendo apontada por diversos rankings, incluindo o da Opta, como a liga mais forte do planeta.
Por isso, o bicampeonato europeu conquistado pelo PSG vai além da simples manutenção de um título. Ele representa a consolidação de um projeto esportivo que finalmente encontrou equilíbrio entre talento individual, organização coletiva e consistência competitiva.
Depois de anos buscando a glória europeia por meio de contratações milionárias e elencos repletos de estrelas, o clube francês parece ter descoberto que o caminho mais eficiente para dominar a Europa estava na construção de uma equipe. E os resultados mostram que essa mudança de rota transformou o PSG na principal força do futebol continental na atualidade.
(Foto de capa: Franck Fife/AFP)