Durante muitos anos, a Seleção Brasileira chegou às Copas do Mundo carregando grandes estrelas, mas quase sempre dependia de poucos jogadores para assumir o protagonismo. Em 2010, a equipe de Dunga tinha Kaká como principal referência técnica. Em 2014, Neymar carregava boa parte das expectativas da seleção. Em 2018, novamente Neymar era o grande nome do elenco. Já em 2022, apesar de um grupo mais equilibrado, ainda existia uma distância considerável entre os principais titulares e as opções do banco.
O cenário para a Copa do Mundo de 2026 parece diferente.
Pela primeira vez desde a geração de 2006, o Brasil chega ao Mundial com um número impressionante de jogadores que não apenas atuam em grandes clubes europeus, mas que são protagonistas de suas equipes. Mais do que titulares, muitos deles são referências técnicas, líderes ou candidatos frequentes aos principais prêmios individuais do futebol mundial.
Essa profundidade ajuda a explicar por que Carlo Ancelotti tem encontrado dificuldades para definir uma escalação ideal. Diferentemente das últimas Copas, diversas posições possuem dois ou até três jogadores capazes de atuar como titulares sem que o nível técnico da equipe caia drasticamente.
Ataque reúne protagonistas espalhados pelos principais clubes da Europa

O melhor exemplo dessa mudança está no setor ofensivo.
Raphinha chega para a Copa depois de viver a melhor fase de sua carreira. O atacante terminou a temporada 2024/25 entre os principais candidatos ao prêmio de melhor jogador do mundo e encerrou a disputa na quinta colocação. Durante grande parte do ano, seu nome esteve presente nas discussões sobre a Bola de Ouro graças ao protagonismo exercido em uma das equipes mais importantes do futebol europeu.
Ao seu lado aparece Vinícius Júnior, que já construiu um currículo que poucos brasileiros conseguiram alcançar nas últimas décadas. O atacante foi decisivo em títulos da Champions League, marcou gols em finais e chegou muito perto de conquistar a Bola de Ouro. Sua derrota para Rodri gerou debates em todo o mundo do futebol, mostrando o tamanho do reconhecimento que alcançou.
Mas o mais impressionante talvez seja a quantidade de opções que aparecem atrás deles.
Endrick ainda está construindo sua trajetória, mas já demonstrou uma característica rara: personalidade para assumir responsabilidades em momentos decisivos. Mesmo sem ser protagonista em títulos europeus, aproveitou oportunidades importantes tanto em clubes quanto na seleção.
Igor Thiago também surge como um dos casos mais interessantes da nova geração. O atacante se transformou em uma das principais referências ofensivas do Brentford e terminou a temporada entre os maiores artilheiros da Premier League, ficando atrás apenas de Erling Haaland. Seu desempenho ajudou a equipe inglesa a alcançar a nona colocação.
Luiz Henrique é outro exemplo de jogador acostumado a decidir partidas importantes. O atacante foi peça fundamental na campanha que deu ao Botafogo o título da Libertadores e frequentemente mostrou capacidade de mudar jogos quando entrou em campo pela seleção.
Já Matheus Cunha chega valorizado após se tornar uma das figuras mais importantes do Manchester United. Seu desempenho foi decisivo para recolocar o clube entre os participantes da próxima Champions League, encerrando a Premier League na terceira posição.
A lista ainda inclui Rayan, que assumiu protagonismo no Vasco durante a campanha até a final da Copa do Brasil e rapidamente se adaptou ao futebol inglês. No Bournemouth, tornou-se titular sem sentir o impacto da mudança para a Europa e participou de uma campanha marcada por uma impressionante sequência de 18 partidas sem derrota no fim da temporada.
Meio campo e defesa também contam com líderes em seus clubes

O protagonismo brasileiro não está concentrado apenas no ataque.
Bruno Guimarães chega à Copa como uma das principais lideranças do Newcastle. O meio-campista se consolidou como peça indispensável da equipe inglesa e é frequentemente apontado como um dos melhores jogadores de sua posição na Premier League.
Danilo também representa uma situação interessante. Após retornar ao futebol brasileiro, rapidamente se transformou em um dos destaques do Botafogo. O volante voltou a atuar em alto nível e já aparece constantemente em especulações envolvendo um retorno ao futebol europeu.
Na defesa, a seleção apresenta nomes que ocupam papel de destaque entre os melhores do mundo.
Gabriel Magalhães se consolidou como um dos principais zagueiros do futebol internacional. Sua temporada pelo Arsenal foi fundamental para a conquista da Premier League e para a campanha que levou o clube à final da Champions League.
Marquinhos, por sua vez, dispensa apresentações. Capitão e ídolo do Paris Saint-Germain, tornou-se uma das maiores referências da história recente do clube francês. Sua liderança foi fundamental em campanhas vitoriosas que colocaram o PSG entre as principais forças do futebol europeu.
Um banco que cria dúvidas positivas para Ancelotti

Talvez o principal diferencial desta geração esteja justamente fora dos onze titulares.
Nas últimas Copas, a seleção possuía grandes nomes, mas muitas vezes as opções do banco não geravam debates reais sobre quem deveria começar jogando. A distância técnica entre titulares e reservas era consideravelmente maior.
Hoje acontece o contrário.
Ancelotti frequentemente se vê diante de decisões difíceis porque vários jogadores apresentam credenciais suficientes para ocupar uma vaga na equipe principal. Em diversas posições, deixar alguém no banco não significa abrir mão de qualidade, mas apenas escolher entre perfis diferentes.
Esse cenário lembra, em certa medida, a geração de 2006, quando o Brasil reunia estrelas espalhadas pelos principais clubes do mundo. A diferença é que a atual equipe apresenta um equilíbrio maior entre juventude e experiência.
Ainda será necessário transformar esse potencial em desempenho dentro de campo. Afinal, elencos fortes não garantem títulos automaticamente. Porém, olhando nome por nome, poucas vezes nas últimas duas décadas a Seleção Brasileira chegou a uma Copa do Mundo com tantos jogadores ocupando papel de protagonismo em equipes importantes do futebol mundial.
E é justamente essa profundidade que faz muitos enxergarem o grupo de 2026 como o elenco mais qualificado e mais protagonista do Brasil desde a geração que disputou a Copa da Alemanha há vinte anos.
(Foto de capa: Divulgação CBF)