O UFC Freedom 250 prometia ser histórico desde o momento em que foi anunciado. Afinal, não é todo dia que a maior organização de MMA do planeta monta um octógono no gramado da Casa Branca. O evento já entraria para os livros por sua localização inusitada, mas o que aconteceu dentro da arena conseguiu superar até mesmo as expectativas mais ousadas.
Entre zebras gigantescas, cinturões conquistados, veteranos renascendo e favoritos confirmando seu status, a noite deixou diversas histórias para contar. Algumas delas podem ter mudado completamente o futuro de determinadas categorias.
Confira cinco grandes conclusões que ficaram após um dos eventos mais malucos da história recente do UFC.
UFC Freedom 250 e suas 5 conclusões sobre o evento
1. Justin Gaethje provou que nem toda luta pode ser explicada pelas estatísticas
Antes da luta principal, praticamente todos os números apontavam para uma vitória de Ilia Topuria.
O então campeão dos leves chegava invicto, mais jovem, mais rápido e em plena fase de domínio na categoria. Do outro lado estava Justin Gaethje, aos 37 anos, acumulando anos de guerras dentro do octógono e carregando um histórico de danos físicos que normalmente não combina com vitórias em disputas de cinturão.
No papel, parecia uma missão impossível. Mas existe um problema quando tentamos transformar MMA em matemática.
Justin Gaethje possui características que simplesmente não aparecem em planilhas. Coragem, resistência absurda, capacidade de continuar avançando quando tudo parece perdido e uma disposição quase irracional para trocar golpes.
Depois de sobreviver a momentos difíceis no segundo round, o veterano voltou para a terceira parcial determinado a mudar a luta. E conseguiu.
A partir dali, começou a castigar Topuria até transformar completamente o cenário do combate. Quando a luta terminou, o improvável havia acontecido: Gaethje era o novo campeão linear dos pesos-leves.
Uma das maiores zebras dos últimos anos.
2. Ilia Topuria talvez tenha ajudado a construir sua própria derrota
Toda grande luta deixa perguntas.
No caso de Topuria, várias delas giram em torno das decisões tomadas dentro do octógono. O espanhol teve momentos de domínio e chegou a machucar Gaethje. Em determinados instantes parecia muito próximo de encerrar a luta.
Então veio a dúvida. Por que insistir em algumas tentativas de grappling quando o adversário parecia vulnerável na trocação? Por que permanecer tanto tempo trocando golpes com um dos maiores brawlers da história do esporte?
São questionamentos que certamente vão acompanhar o ex-campeão pelos próximos meses.
Em alguns momentos, a impressão era de que Topuria estava lutando exatamente da maneira que mais favorecia Justin Gaethje.
Além de perder o cinturão, o georgiano naturalizado espanhol sofreu um nível de dano físico que pode exigir um longo período de recuperação. Sua resistência foi colocada à prova e saiu aprovada, mas a estratégia adotada provavelmente continuará sendo debatida por bastante tempo.
3. Ciryl Gane se recusa a desaparecer
Se existe um lutador do UFC que parece ter assinatura vitalícia em disputas de cinturão interino, esse homem é Ciryl Gane. Mais uma vez, o francês encontrou uma forma de voltar ao topo da categoria dos pesados. Desta vez, a vítima foi Alex Pereira.
O confronto acabou sendo praticamente perfeito para o estilo de Gane. O francês utilizou sua movimentação, trabalhou atrás do jab e aproveitou a menor velocidade do brasileiro para controlar grande parte das ações.
Quando o árbitro interrompeu o combate, Gane parecia tão surpreso quanto boa parte dos torcedores.
Deitado no centro do octógono, o francês observava o cinturão interino enquanto tentava processar o que havia acabado de acontecer. E aqui está o detalhe curioso: essa história parece se repetir constantemente.
Quando muita gente acredita que Ciryl Gane saiu da corrida pelo título, ele encontra um jeito de voltar. Agora, mais uma oportunidade de unificação aparece no horizonte.
4. Os favoritos dominaram quase todo o card
A grande zebra da noite do UFC Freedom 250 foi Justin Gaethje. Mas tirando a luta principal, praticamente tudo aconteceu conforme o esperado.
Os principais favoritos venceram seus compromissos, vários prospectos mantiveram suas trajetórias em ascensão e alguns veteranos tiveram dificuldades para acompanhar o ritmo das novas gerações.
Sean O’Malley conseguiu seu momento de destaque. Bo Nickal voltou a ganhar impulso como uma das promessas mais observadas da organização. Mauricio Ruffy aproveitou sua oportunidade e reforçou ainda mais seu nome dentro da categoria. Por outro lado, alguns veteranos mostraram sinais claros da passagem do tempo.
Michael Chandler teve uma atuação particularmente preocupante. O ex-desafiante ao cinturão encontrou enormes dificuldades para impor seu jogo e pouco conseguiu produzir ofensivamente.
Derrick Lewis também demonstrou as limitações naturais que chegam para praticamente todos os lutadores quando a idade começa a pesar.
O UFC continua sendo um esporte brutalmente meritocrático. E a nova geração parece cada vez mais preparada para assumir espaço.
5. O espetáculo funcionou melhor do que muita gente imaginava
Quando o UFC anunciou um evento na Casa Branca, muita gente imaginou algo completamente caótico.
Para ser justo, houve momentos bastante peculiares. A transmissão contou com produções cinematográficas, elementos patrióticos espalhados por toda a programação e diversas tentativas de transformar o evento em algo além de um simples card de lutas.
Nem todas funcionaram. Mas o resultado final foi melhor do que muitos esperavam. Visualmente, o evento impressionou. A estrutura montada no gramado da Casa Branca criou imagens que dificilmente serão esquecidas pelos fãs de MMA.
Além disso, a equipe de produção do UFC mostrou novamente sua capacidade de transformar eventos esportivos em grandes espetáculos televisivos.
Talvez o evento não alcance os números de audiência que Dana White sonhava. O horário estendido e a exclusividade em streaming podem ter limitado parte do público.
Mesmo assim, o UFC conseguiu algo importante.
Por algumas horas, conseguiu fazer com que toda a atenção estivesse voltada para as lutas. E quando Justin Gaethje e Ilia Topuria começaram a trocar golpes na luta principal, todo o restante virou detalhe. No fim das contas, essa foi a principal mensagem deixada pelo UFC Freedom 250.
Por mais grandioso que seja o palco do UFC da Casa Branca, por mais extravagante que seja a produção e por mais inusitado que seja o cenário, o que realmente faz o MMA funcionar continua sendo a mesma coisa de sempre. Dois lutadores entrando em um octógono e criando uma história que ninguém esperava ver acontecer.
Foto: BRENDAN SMIALOWSKI via Getty Images