Quando se pensa em Seleção Inglesa, normalmente os primeiros elementos que aparecem são intensidade, elenco estrelado e expectativa elevada. Mas para a Copa do Mundo de 2026, Thomas Tuchel parece ter encontrado um caminho diferente para aumentar as chances da Inglaterra voltar ao topo do futebol mundial. E a inspiração veio de um modelo muito específico dentro da Premier League: o Arsenal.
Depois de acompanhar de perto o crescimento do clube comandado por Mikel Arteta e observar o impacto que as bolas paradas tiveram na campanha do título inglês, Tuchel decidiu incorporar conceitos semelhantes ao trabalho da seleção. Em um torneio curto, onde partidas equilibradas costumam ser definidas em detalhes, explorar escanteios, faltas laterais e jogadas ensaiadas deixou de ser complemento e passou a ser prioridade.
Não é coincidência que o Arsenal tenha servido como referência. O clube londrino desenvolveu uma reputação forte nos últimos anos justamente pela eficiência nas jogadas de bola parada. A equipe construiu mecanismos repetidos à exaustão nos treinamentos e transformou situações aparentemente comuns em uma das principais armas ofensivas do futebol europeu. Agora, Tuchel quer transportar essa lógica para o ambiente da Inglaterra.
O Arsenal virou modelo e a Inglaterra quer copiar
O sucesso recente do Arsenal mostrou algo que muitos treinadores já entendiam, mas poucos aplicavam com tanta consistência: em competições equilibradas, aproveitar momentos específicos do jogo pode representar a diferença entre conquistar títulos ou voltar para casa.
A conquista da Premier League encerrou um jejum histórico do clube e teve entre seus pilares justamente a capacidade de gerar perigo constante em escanteios e faltas próximas da área. O trabalho de Arteta transformou jogadas ensaiadas em algo quase automático para os jogadores.
Isso chamou a atenção de Thomas Tuchel. Tuchel entende que, em uma Copa do Mundo, o número reduzido de partidas e a dificuldade de criar oportunidades tornam os detalhes ainda mais decisivos.
Outro fator que favorece esse plano está dentro do próprio elenco inglês. Nenhum clube teve tantos representantes convocados para a Inglaterra quanto o Arsenal. Isso significa que parte dos atletas já chega acostumada com conceitos semelhantes aos que Tuchel pretende aplicar.

Entre especialistas e altura, a Inglaterra monta seu plano
Para que uma estratégia baseada em bola parada funcione, não basta apenas desenhar movimentações. É necessário ter executores e jogadores preparados para atacar os espaços.
Nesse aspecto, a Inglaterra aparece bem equipada.
Declan Rice talvez seja um dos principais exemplos. Além da qualidade na construção do jogo, o meio-campista se tornou referência em cobranças de escanteio nas últimas temporadas. Sua precisão nas bolas levantadas criou inúmeras oportunidades para o Arsenal e pode assumir papel parecido na seleção.
Outro nome importante é Reece James. O lateral tem capacidade técnica para cruzamentos de diferentes distâncias e conhece bem o estilo de trabalho de Tuchel desde os tempos de Chelsea. Essa familiaridade pode acelerar ainda mais a implementação das ideias.
Bukayo Saka também aparece como peça relevante nesse cenário. Mesmo convivendo com preocupação física por causa de uma tendinite, o atacante continua sendo visto como um dos jogadores mais criativos em cobranças e movimentações ofensivas.
Além da qualidade técnica, existe um aspecto físico que favorece o plano inglês: altura. Grande parte dos titulares possui porte físico acima da média, aumentando o potencial em disputas aéreas e criando múltiplos alvos dentro da área adversária.

As jogadas que podem decidir partidas na Copa
Nos amistosos e jogos de preparação, já foi possível observar alguns padrões que indicam como Tuchel pretende explorar as bolas paradas.
Uma das estratégias utilizadas foi o uso de bloqueios para impedir que marcadores chegassem aos jogadores mais perigosos da equipe inglesa. Esse tipo de recurso se tornou muito comum na Premier League, especialmente em escanteios fechados.
Mas existe um detalhe importante: mudanças recentes na arbitragem e o uso ampliado do VAR aumentaram o controle sobre faltas cometidas antes mesmo da bola entrar em jogo. Isso obriga as seleções a encontrarem formas mais discretas de criar vantagens.
A solução encontrada pela Inglaterra foi tornar essas movimentações mais naturais. Em vez de bloqueios evidentes, jogadores se deslocam em direção ao gol enquanto duelam fisicamente com os marcadores. O objetivo é abrir espaços sem caracterizar infração.
Outra jogada observada foi posicionar atletas atrás dos defensores antes de cruzamentos direcionados ao segundo poste. Quando a bola ultrapassa a primeira linha de marcação, o atacante aparece livre para finalizar.
Também apareceu uma adaptação inspirada em uma jogada utilizada pelo Manchester United durante a temporada: cobrança curta e rasteira para o primeiro poste seguida por assistência para quem chega de frente para finalizar.

O detalhe que pode mudar o destino da Inglaterra
Em Copas do Mundo, nem sempre vence quem joga mais bonito. Muitas vezes, vence quem aproveita melhor as oportunidades.
Thomas Tuchel parece entender isso perfeitamente.
Ao invés de depender apenas do talento individual ou de momentos de inspiração, Tuchel quer construir mecanismos repetíveis, capazes de gerar vantagem mesmo em partidas travadas. A ideia é reduzir improvisos e aumentar controle.
Não significa abandonar criatividade ou atacar menos. Pelo contrário. Significa encontrar formas de potencializar um elenco que já possui qualidade suficiente para competir contra qualquer seleção.

Se o plano funcionar, a Inglaterra pode ganhar algo que historicamente faltou em muitos torneios recentes: eficiência.
E em uma Copa do Mundo, eficiência costuma valer mais do que espetáculo.
Foto: Credit: Getty Images/Stefan Koops