Durante muito tempo, a Arábia Saudita foi vista como uma seleção limitada quando o assunto era Copa do Mundo. Apesar de ser presença relativamente constante no principal torneio do futebol mundial, o país acumulou campanhas discretas e algumas derrotas marcantes. A mais lembrada delas aconteceu em 2002, quando os sauditas sofreram uma goleada histórica de 8 a 0 para a Alemanha logo na estreia.
Mais de duas décadas depois, o cenário parece diferente. A seleção saudita não está entre as favoritas ao título, mas também deixou de ser considerada uma das equipes mais frágeis da competição. O empate por 1 a 1 diante do Uruguai na estreia da Copa do Mundo de 2026 reforçou essa percepção e levantou novamente uma questão que acompanha o futebol do país nos últimos anos: os bilhões investidos na Saudi Pro League estão ajudando a seleção nacional?
A resposta não é simples, mas os números e os resultados recentes indicam que existe uma relação direta entre o crescimento da liga local e a evolução dos Falcões Verdes.
Da humilhação de 2002 à competitividade atual

A Copa do Mundo de 2002 marcou um dos momentos mais difíceis da história do futebol saudita. Além da derrota por 8 a 0 para a Alemanha, a equipe terminou a competição sem marcar gols e sem conquistar pontos.
Nos anos seguintes, a seleção teve dificuldades para competir em alto nível, mas a situação começou a mudar gradualmente.
Em 2018, na Rússia, a Arábia Saudita encerrou sua participação derrotando o Egito por 2 a 1. O resultado não garantiu classificação, mas demonstrou uma evolução em relação aos torneios anteriores.
A verdadeira mudança de percepção aconteceu na Copa do Mundo de 2022.
Naquela edição, os sauditas protagonizaram uma das maiores zebras da história do torneio ao derrotarem a Argentina de Lionel Messi por 2 a 1. O gol decisivo foi marcado por Salem Al-Dawsari, que se transformou em um dos maiores símbolos do futebol do país.
Agora, em 2026, a equipe voltou a mostrar competitividade ao arrancar um empate diante do Uruguai, seleção tradicionalmente superior no cenário internacional.
O resultado ampliou a sensação de que a Arábia Saudita finalmente deixou para trás os tempos das goleadas históricas.
O impacto dos investimentos na liga saudita

A transformação do futebol saudita não aconteceu por acaso.
Nos últimos anos, os clubes do país investiram mais de 700 milhões de libras em contratações de impacto internacional.
Cristiano Ronaldo foi o principal nome dessa revolução, mas ele não chegou sozinho.
Karim Benzema, Neymar, Sadio Mané e Riyad Mahrez também passaram a atuar na Saudi Pro League, aumentando significativamente o nível técnico da competição.
Embora esses jogadores não atuem diretamente pela seleção saudita, sua presença influencia o desenvolvimento dos atletas locais.
Os jogadores sauditas passaram a treinar diariamente ao lado de vencedores de Liga dos Campeões, Bolas de Ouro e títulos internacionais.
A convivência com atletas desse nível contribui para elevar padrões de treinamento, profissionalismo e exigência competitiva.
Karim Benzema chegou a afirmar que um dos objetivos da presença dessas estrelas é justamente ensinar aos jovens jogadores sauditas o que é necessário para competir em alto nível.
Esse efeito pode ser observado na própria seleção.
Com exceção do lateral Saud Abdulhamid, que joga no futebol francês, todos os titulares sauditas contra o Uruguai atuam em clubes locais.
Isso significa que praticamente toda a equipe se desenvolveu dentro do ambiente criado pela Saudi Pro League.
Uma nova geração começa a surgir

Além dos veteranos, a seleção saudita também começa a revelar jogadores capazes de liderar o futuro do país.
Salem Al-Dawsari continua sendo o principal símbolo da equipe. Aos 34 anos, disputa sua terceira Copa do Mundo e segue decisivo.
Mas os holofotes começam a ser divididos com atletas mais jovens.
Musab Al Juwayr, de apenas 22 anos, foi o líder da equipe em assistências durante as Eliminatórias e é apontado como uma das principais promessas do futebol saudita.
Abdulelah Al Amri também ganhou destaque após marcar contra o Uruguai. O defensor entrou para a história ao se tornar o primeiro zagueiro saudita a marcar um gol em Copas do Mundo.
O gol teve outro significado importante: foi o primeiro da história da Arábia Saudita originado em uma cobrança de escanteio no torneio.
São pequenos detalhes que mostram uma equipe mais preparada e mais completa do que em participações anteriores.
A aposta em Georgios Donis

A evolução saudita também passa pelas decisões tomadas fora das quatro linhas.
Uma das mais surpreendentes aconteceu poucos meses antes da Copa do Mundo.
A federação decidiu demitir Hervé Renard, técnico responsável pela histórica vitória sobre a Argentina em 2022, e contratou o grego Georgios Donis apenas 59 dias antes da estreia contra o Uruguai.
A mudança foi vista como um risco elevado.
Trocar de treinador tão perto de uma Copa costuma gerar instabilidade e insegurança.
No entanto, a atuação diante dos uruguaios indicou que a equipe assimilou rapidamente as ideias do novo comandante.
Mesmo sofrendo o empate nos minutos finais, a Arábia Saudita apresentou organização defensiva, disciplina tática e competitividade durante praticamente toda a partida.
A ex-zagueira escocesa Rachel Corsie destacou justamente a consistência defensiva da equipe, elogiando o posicionamento, as distâncias entre os jogadores e a compactação das linhas.
Esses aspectos ajudam a explicar por que a seleção conseguiu competir de igual para igual com uma equipe tradicional do futebol sul-americano.
Ainda é cedo para afirmar até onde a Arábia Saudita poderá chegar nesta Copa do Mundo. No entanto, os resultados recentes mostram que os investimentos bilionários realizados no futebol do país estão começando a produzir efeitos concretos. A liga nacional tornou-se mais forte, os jogadores locais evoluíram tecnicamente e a seleção ganhou competitividade. Talvez os sauditas ainda estejam longe de disputar o título mundial, mas definitivamente já não são mais a equipe vulnerável que sofreu oito gols da Alemanha em 2002.