A estreia de Portugal na Copa do Mundo terminou de forma frustrante. Nesta quarta-feira (17), em Houston, a seleção portuguesa saiu na frente cedo, controlou os primeiros minutos e chegou a dar a impressão de que construiria uma vitória tranquila, mas viu a República Democrática do Congo crescer na partida e arrancar um empate por 1 a 1. João Neves abriu o placar para os lusos, enquanto Yoane Wissa deixou tudo igual ainda antes do intervalo.
O resultado marcou o retorno dos congoleses ao Mundial após 52 anos e rendeu ao país africano o primeiro ponto de sua história em Copas. Na próxima rodada, Portugal tem a chance de se recuperar contra o estreante Uzbequistão, enquanto RD Congo tem mais uma parada dura ao encarar a Colômbia.
O jogo
Portugal começou a partida impondo seu ritmo e rapidamente encontrou espaços na defesa adversária. Com um meio-campo dominante e boa circulação de bola, a equipe de Roberto Martínez precisou de pouco tempo para transformar a superioridade em vantagem. Em jogada construída pela esquerda, Pedro Neto levantou na área e João Neves apareceu infiltrando como um centroavante para cabecear para as redes, colocando os portugueses em vantagem.
O gol cedo parecia ser o início de uma tarde tranquila. Com maior posse de bola e controle territorial, Portugal passou a administrar o confronto, reduzindo a intensidade e apostando que o resultado viria naturalmente. A postura, porém, deu confiança à República Democrática do Congo. Sem se expor excessivamente, os Leopardos passaram a explorar transições rápidas e cresceram no jogo principalmente pelas pontas.
Apesar de ter menos a bola, a seleção africana aumentou o volume ofensivo e encontrou dificuldades menores do que o esperado para atacar. A insistência foi premiada no último lance do primeiro tempo. Após cobrança curta de escanteio, Yoane Wissa apareceu completamente livre dentro da área e cabeceou firme, sem chances para Diogo Costa, deixando tudo igual antes do intervalo.
Na volta para a segunda etapa, Portugal retomou o controle da posse e passou a pressionar mais em busca do segundo gol. A RD Congo, no entanto, já se mostrava mais confiante e seguiu ameaçando em ataques verticais. Mesmo com menos tempo com a bola, os africanos continuaram criando oportunidades perigosas e não se limitaram apenas a defender.
Roberto Martínez tentou mudar o panorama com as entradas de Rafael Leão, Francisco Conceição e Gonçalo Ramos, buscando mais profundidade e presença ofensiva. Francisco Conceição conseguiu encontrar Cristiano Ronaldo em duas oportunidades, mas o camisa 7 esteve constantemente cercado pela defesa adversária e não conseguiu concluir com liberdade.
Nos minutos finais, o duelo ficou aberto. Portugal se lançou ao ataque e ofereceu espaços para os contra-ataques congoleses. Os Leopardos chegaram a assustar em algumas transições, enquanto os portugueses tentaram pressionar na base do volume, mas sem a criatividade necessária para furar a marcação africana. O empate acabou premiando a organização da RD Congo e castigando uma seleção portuguesa que começou melhor, mas perdeu intensidade cedo demais.
Portugal paga caro pela acomodação e a RD Congo mostra que não veio apenas para participar
A estreia portuguesa deixa uma sensação de oportunidade desperdiçada. O início foi exatamente o que se esperava de uma equipe recheada de talento: domínio territorial, posse de bola e movimentação suficiente para abrir o placar rapidamente. O problema apareceu justamente depois do gol. Em vez de manter a pressão e transformar a superioridade técnica em mais oportunidades, Portugal desacelerou, permitiu que o jogo se tornasse confortável e ofereceu confiança a um adversário que chegou ao Mundial sem grandes expectativas.
O empate expôs um problema recorrente da equipe de Roberto Martínez. Portugal tem muita qualidade individual, mas por vezes controla a posse sem aumentar a agressividade. A circulação de bola foi ampla, mas pouco objetiva. Quando a RD Congo percebeu que não estava sendo sufocada, começou a ganhar metros em campo e a explorar a velocidade de seus homens de frente.
A seleção africana, por sua vez, mostrou personalidade. Mesmo com menor posse de bola, conseguiu ser vertical e aproveitou bem os espaços deixados pelos portugueses. A equipe soube sofrer nos momentos de pressão e escolheu com inteligência quando acelerar. O gol de Wissa no fim do primeiro tempo mudou completamente o cenário emocional da partida e fez os Leopardos acreditarem que era possível sair de Houston com um resultado histórico.
Cristiano Ronaldo teve uma atuação discreta. Tentou participar, recebeu poucas bolas em condições ideais e esbarrou em uma marcação muito compacta. A entrada de Francisco Conceição deu mais dinamismo ao ataque português, mas o camisa 7 nunca teve espaço para decidir. Mais preocupante do que a atuação do craque foi a falta de criatividade coletiva no segundo tempo, quando Portugal precisou reagir.
João Neves foi um dos pontos positivos. Além do gol, mostrou movimentação e intensidade no meio-campo, sendo um dos poucos jogadores a manter o nível durante praticamente toda a partida. Pedro Neto também começou bem, mas a equipe como um todo caiu de rendimento após os primeiros 25 minutos.
Do lado congolês, Wissa foi decisivo não apenas pelo gol, mas pela capacidade de incomodar a defesa portuguesa. A organização dos Leopardos chamou atenção. Longe de ser uma equipe apenas reativa, a RD Congo demonstrou coragem para atacar quando teve oportunidade e conquistou um resultado histórico com méritos.
No Grupo K, o empate deixa a situação em aberto. Portugal perde a chance de largar na frente e já entra pressionado para os próximos compromissos. A República Democrática do Congo, por outro lado, celebra não apenas o primeiro ponto em sua história em Copas do Mundo, mas também a certeza de que pode competir de igual para igual e sonhar com algo maior no torneio.
(Foto: Alex Slitz/AFP)