Quem acompanha o Liverpool regularmente provavelmente teve um déjà vu quando Cody Gakpo recebeu a bola pelo lado esquerdo da área contra a Suécia. O lance parecia familiar: domínio, corte para dentro e preparação para finalizar com o pé direito.
A diferença é que não era o Gakpo visto em muitos momentos da última temporada na Premier League.
Era o Gakpo da Copa do Mundo.
Aos 54 minutos da goleada por 5 a 1 sobre os suecos, o atacante da Holanda cortou para o meio com confiança, ajeitou o corpo e acertou uma finalização precisa no canto do goleiro Kristoffer Nordfeldt. Um lance que resumiu perfeitamente a diferença entre as duas versões do jogador que os torcedores vêm acompanhando nos últimos anos.
Enquanto em Liverpool a irregularidade virou tema frequente de debate, com a camisa laranja da seleção holandesa ele continua parecendo um atleta completamente transformado.
Copa do Mundo mostra um Cody Gakpo diferente
Os números ajudam a explicar essa sensação.
Com os dois gols marcados diante da Suécia, Cody Gakpo chegou a cinco gols em sete partidas disputadas em Copas do Mundo. Pela seleção holandesa, já soma 23 gols em 52 jogos, uma média extremamente respeitável para um jogador que nem sempre atua como referência central do ataque.
Não significa que sua passagem pelo Liverpool seja ruim. Longe disso.
Na campanha do título da Premier League em 2024-25, o atacante foi peça importante para o técnico Arne Slot, contribuindo com 18 gols e desempenhando funções fundamentais sem a bola. Sua entrega tática sempre foi valorizada dentro de Anfield.
O problema é que o desempenho caiu na temporada seguinte.
Foram apenas nove gols em 52 partidas, números muito abaixo das expectativas para um jogador que chegou cercado de enorme expectativa após deixar o PSV e brilhar justamente em uma Copa do Mundo.
Hoje, seu retrospecto pelo Liverpool registra 50 gols em 180 jogos. São números sólidos, mas que ainda deixam a sensação de que existe um potencial maior a ser explorado. E o próprio jogador parece ter dado uma pista sobre isso.
A liberdade que faz diferença
Após a vitória sobre a Suécia, Cody Gakpo foi questionado sobre o motivo de render tão bem pela seleção holandesa.
A resposta chamou atenção.
Segundo o atacante, existe uma diferença na forma como ele é utilizado pela Holanda em comparação ao Liverpool. Ao comentar sobre sua função em campo, mencionou o posicionamento pedido pelo treinador e a liberdade que possui quando veste a camisa da seleção.
Foi uma declaração curta, mas que rapidamente gerou repercussão.
Afinal, poucos jogadores conseguem esconder quando se sentem mais confortáveis dentro de determinado sistema.
Na Holanda, o atacante parece atuar de maneira mais espontânea, recebendo liberdade para circular entre os setores ofensivos, atacar espaços e buscar constantemente situações de um contra um.
O resultado aparece dentro de campo.
Mais leve, mais confiante e mais agressivo, ele voltou a ser um dos protagonistas da equipe.
Brian Brobbey ajudou a potencializar o ataque holandês
Se Cody Gakpo brilhou, parte do mérito também passa por Brian Brobbey.
O atacante do Sunderland foi um verdadeiro pesadelo para a defesa sueca. Utilizando força física, explosão e movimentação inteligente, ele desmontou o sistema defensivo adversário e marcou dois gols.
A parceria funcionou praticamente desde o primeiro minuto.
Brobbey atraía marcadores, segurava a bola de costas e criava espaços para as infiltrações dos companheiros. Isso permitiu que jogadores como Gakpo encontrassem mais liberdade para atacar.
Após a partida, o camisa 11 não economizou elogios ao companheiro.
Segundo ele, a capacidade física do centroavante impressiona e sua movimentação dentro da área oferece inúmeras alternativas para o restante do setor ofensivo.
O resultado dessa combinação foi devastador.
Os dois marcaram duas vezes cada e lideraram uma das atuações ofensivas mais convincentes da Holanda nesta Copa do Mundo.
Holanda responde às críticas sobre o ataque
Antes do início do torneio, muita gente apontava o setor ofensivo como o principal problema da seleção holandesa.
Poucos questionavam a defesa formada por Virgil van Dijk, Micky van de Ven e Denzel Dumfries. O meio-campo com Frenkie de Jong, Ryan Gravenberch e Tijjani Reijnders também era visto como um dos mais qualificados da competição.
A dúvida estava na frente. Quem faria os gols?
Brobbey tinha apenas um gol em 13 partidas pela seleção antes do Mundial. Gakpo vinha de uma temporada irregular no Liverpool. Crysencio Summerville chegava após o rebaixamento do West Ham. Além disso, nomes como Memphis Depay e Wout Weghorst davam a sensação de que a renovação ofensiva ainda não estava totalmente consolidada.
Mas Ronald Koeman parece ter encontrado a fórmula ideal.
Após o empate por 2 a 2 contra o Japão, o treinador promoveu a entrada de Brobbey na equipe titular e viu seu ataque ganhar uma nova dinâmica.
A movimentação constante dos jogadores confundiu a marcação sueca e abriu espaços durante toda a partida.
O resultado foi uma exibição ofensiva que pode mudar completamente a percepção sobre a Holanda nesta Copa.
Cody Gakpo pode ser a peça que faltava para a Holanda sonhar alto
A goleada sobre a Suécia serviu como um aviso para os adversários.
Quando seu sistema ofensivo encaixa, a Holanda se transforma em uma equipe extremamente difícil de ser contida.
Mais importante do que os gols, a atuação mostrou que Cody Gakpo voltou a jogar com confiança. E confiança costuma ser um combustível poderoso em torneios curtos.
A seleção de Ronald Koeman já possuía uma defesa sólida, um meio-campo criativo e experiência em grandes competições. O que faltava era encontrar um ataque capaz de acompanhar esse nível.
Se o atacante mantiver o desempenho apresentado em Houston, a resposta pode ter aparecido no momento certo. E isso é uma excelente notícia para a Holanda. Talvez não tanto para os próximos adversários.
Foto: Getty Images